quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Mais uma estratégia errada da União Europeia

A corrida para secretário-geral das Nações Unidas fica ensombrada pela entrada a meio da búlgara Kristalina Georgieva para evitar a vitória de António Guterres. 

A candidata conta com o apoio da União Europeia, em particular da Alemanha.

A necessidade da União Europeia meter a mão em tudo confirma-se nesta corrida electrizante. António Guterres é um cidadão europeu, mas não vai actuar apenas pelos interesses do bloco, enquanto Kristalina vai ter esse papel. Percebe-se a ideia de Merkel e companhia, mas as Nações Unidas são cada vez menos um lugar onde é importante estar para obter benefícios. O secretário-geral tem de ter uma posição activa, mas ao mesmo tempo apaziguadora. 

O grande problema desta União Europeia passa por tentar recolher benefícios nos assuntos que intervém. Por isso mesmo não tem chegado a consensos. Ou seja, o bloco tem de estar unido para defender os interesses dos mais poderosos, pretendendo fingir que actua unido e no fundo só alguns ficam a ganhar. 

Isto é o que se passa nesta questão de última hora. O objectivo passa por ter um secretário-geral com funções políticas do que humanitárias. António Guterres será um líder no terreno e com preocupações de paz e humanas. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Debates não prejudicam Trump

A pequena vitória de Clinton no último debate não retira gás à campanha de Trump. Não acredito que os confrontos ainda sejam decisivos num país em que o escrutínio é diário. As populações dos swing-states não se deixaram influenciar por aquilo que se passou na segunda-feira.

Os debates são mais importantes para as cadeias de televisões e os analistas do que para as pessoas que costumam encher os comícios. 

A credibilidade de Trump é algo que está a crescer todos os dias. As ideias e medidas já são conhecidas, faltando convencer a população que será melhor líder que Hillary Clinton. A antiga primeira-dama passa uma imagem fria, além dos escândalos que surgem não favorecem um candidato à Casa Branca, ainda por cima sendo mulher. A suposta experiência política só serve para os debates que são sempre objecto de milhões de análises em todo o Mundo. 

Na minha opinião, Trump ganha pontos na discussão política, sobretudo ao abordar a política externa e a economia. As propostas económicas de Clinton não criam mais emprego. O discurso habitual que o governo vai dar oportunidades a todos não tem efeito. Ao invés, Trump tem uma solução para evitar que as empresas abandonem o país. 

As diferenças na política externa também são importantes. Trump não quer que os Estados Unidos sejam  polícias do Mundo, embora ataque os inimigos com rigidez. Hillary mantém o discurso de Obama sobre o poder que os norte-americanos exercem em várias zonas do globo. No entanto, recua na intenção de colocar tropas para combater o Estado Islâmico. 

O estilo dos candidatos não será o factor principal na hora da votação.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Pequena vitória de Clinton no debate para resolver questões do passado

Uma pequena vitória para Hillary Clinton no primeiro debate presidencial com Donald Trump. A antiga secretária de Estado norte-americana esteve melhor em todos os aspectos do jogo, sobretudo nas questões que incomodaram o adversário nos últimos meses. Por outro lado, Trump não conseguiu tirar Clinton do sério durante a questão dos e-mails. 

Nos assuntos relacionados com a governação do país, notou-se a diferença entre os dois candidatos. Clinton continua com o discurso fácil de uma militante de esquerda, enquanto os Estados Unidos de Trump terão tiques autoritários, bem como conflitos com alguns países por questões políticas e comerciais. 

As ideias políticas são importantes para chegar à Casa Branca. Trump não pode estar o tempo todo a dizer que foi um grande empresário e trata bem os funcionários. Não é por isso que o candidato vai ganhar votos nas minorias com quem tem tido problemas de linguagem. Neste momento, ninguém sabe o que vai acontecer aos imigrantes nos Estados Unidos se Trump for eleito. 

As tentativas de Trump interromper a candidata com o intuito de a enervar também não resultaram. Pelo contrário, Clinton conseguiu irritar o adversário com confidências e gestos do passado. Durante o debate, notou-se confiança na antiga secretária de Estado e instabilidade em Trump. 

Os pequenos aspectos podem ser importantes para convencer os indecisos. Não se falou muito de política porque era necessário esclarecer as últimas escaramuças entre os candidatos. 

Neste debate a ideologia ficou em casa prevalecendo o pequeno soundbyte que fez manchetes durante muito tempo.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Corbyn reforça o poder

Os trabalhistas reelegeram Jeremy Corbyn para continuar como líder num resultado que envergonha os deputados contestatários que aproveitaram a demissão de David Cameron após o referendo para lançarem a candidatura de Owen Smith. 

A diferença de votos não deixa margem para dúvidas. Corbyn ganhou respeito e poder sobre a bancada em Westminster. A partir de agora os que não estão com a actual liderança devem abandonar o cargo que ocupa. Mesmo uma vitória à tangente conferia legitimidade ao líder, sendo que, os números reforçam a estratégia. 

A jogada dos deputados trabalhistas foi um erro porque não fazia sentido colocar em causa a liderança só para aproveitar a suposta falta de legitimidade de Theresa May como primeira-ministra para convocar eleições antecipadas. Não conseguiram ocupar o poder dentro do partido e também não irão convencer Corbyn a pedir a antecipação das legislativas que se realizam em 2020, nem sequer a realização de um novo referendo sobre a manutenção do Reino Unido na União Europeia.

O líder confirmou que iria seguir a mesma linha, pedindo união dentro do partido. Não sei se vai acontecer, mas aqueles que continuarem com os jogos de sombras devem ser afastados porque os resultados eleitorais têm de ser respeitados. Não se pode admitir mais uma revolução após a votação, tendo em conta que se trata de um grupo minoritário Corbyn tem o apoio dos sindicatos e dos militantes que construíram a força do Labour, embora as vozes de Tony Blair e Neil Kinnock, bem como de alguns dirigentes como Alan Johnson serão sempre ouvidas.  

sábado, 24 de setembro de 2016

Figuras da Semana

Por Cima

Jeremy Corbyn - O líder do Partido Trabalhista venceu as eleições com grande vantagem sobre o rival. Uma vitória sem contestação, um ano depois de ter chegado à liderança. A pressão e a chantagem dos deputados trabalhistas não teve sucesso. Uma grande derrota para os parlamentares que vão ter de aturar o líder até às próximas eleições. Os que não quiserem obedecer às ordens terão de abandonar a bancada parlamentar porque Corbyn confirmou que estava certo. O triunfo confirma que a eleição não servia para nada.


No Meio

Mariana Mortágua - A deputada do Bloco de Esquerda provocou uma grande polémica ao ter sugerido aumentar os impostos para os mais ricos. As críticas não se fizeram esperar, mas a intenção era mesmo essa. Provocar o debate e a indignação na direita. Agora veremos se consegue convencer os socialistas.


Em Baixo

Owen Smith - A nota negativa deve ser endereçada aos deputados que lançaram a candidatura contra Corbyn que se revelou um verdadeiro fiasco. Smith hipotecou a sua carreira enquanto deputado, sendo que, não vai ter condições para cumprir a promessa de fazer barulho. A partir de agora dificilmente alguém vai fazer barulho na bancada dos trabalhistas em Westminster porque a derrota foi humilhante. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O dia do Partido Trabalhista

Os trabalhistas escolhem amanhã o novo líder. Não se trata apenas de uma opção entre a continuidade e a mudança, ou a divisão e a união no partido. O que está em causa é a ideologia. Ou seja, se continua a ser um partido de esquerda na defesa dos valores sociais contra o conservadorismo do governo, ou fica mais perto do centro.  

Neste momento, o mais importante para o partido é definir um caminho ideológico e os valores que vai defender, independentemente da orientação do executivo ou se vai ganhar eleições, porque no Reino Unido a política não gira em torno dos actos eleitorais. O actual líder manteve posições que não mereceram o apoio de alguns deputados como a questão dos bombardeamentos à Síria, a renovação do programa nuclear. Nestes dois aspectos, Corbyn colou-se à opinião pública e deixou os membros do Parlamento mostrarem discordância. Aliás, a forma como o líder se opôs aos ataques na Síria pode também estar relacionado com o passado, em particular com a ligação de Blair à guerra do Iraque. 

No último ano, Corbyn manteve uma postura de trazer problemas pessoais de alguns indivíduos para os debates parlamentares. As questões que levantava também tinham a ver com situações concretas de alguns sectores como os jovens médicos e a educação. No dia após as eleições na Escócia, Cameron disse que o Labour estava a desapontar os seus eleitores. 

A imagem que Corbyn trouxe é de um líder e partido muito preocupado com os problemas individuais em vez de se concentrar nos assuntos colectivos dos britânicos. Não acredito que Owen Smith seja o melhor candidato porque a única proposta que tem é a realização de um novo referendo sobre a manutenção do Reino Unido na União Europeia. Se o candidato começar por aí, é um mau sinal. 

O partido sabe que com Corbyn continua o mesmo caminho ideológico, embora com várias oposições, enquanto Smith tem pouco sumo para dar. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Theresa May entre a pressão interna e as mudanças na Europa

As negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia não vão ser fáceis porque dependem das condições internas e externas. A nova primeira-ministra britânica tem um longo caminho pela frente relativamente ao calendário, mas sobretudo à forma como se processa a saída.

No plano interno, os conservadores têm de ter em conta a oposição dos partidos que querem sair totalmente da União Europeia como o UKIP e dos que pretendem ficar mais perto possível, como acontece no seio do partido do governo e alguns trabalhistas. No entanto, se Owen Smith vencer a eleição para líder do Partido Trabalhista, May vai ser confrontada com a exigência de um novo referendo para também evitar que a Escócia realize uma consulta popular sobre a independência do país. As condições podem ser debatidas e votadas no parlamento, mas não está excluída a participação das pessoas. Os problemas começam a surgir antes da invocação do Artigo 50 do Tratado de Lisboa.

As maiores complicações estão a nível externo porque algumas vontades podem chocar com as exigências internas. Ou seja, Theresa May tenta estar no meio para defender os interesses do Reino Unido, mas dificilmente deixará de optar por um dos lados. As eleições na Alemanha e em França vão condicionar o processo de saída do Reino Unido. Apesar da pressa anunciada por alguns dirigentes europeus e o líder francês, os actos eleitorais têm o efeito de travar o processo. Hollande e Merkel não querem perder votos para as forças anti-europeias que irão utilizar o Brexit como forma de espalhar a mensagem contra o diktat europeu. 

Tudo vai mudar se Marine Le Pen for eleita presidente francesa e Merkel tiver menos apoio parlamentar. Se os actuais líderes alemão e francês pretendem uma saída rápida, também necessitam que o Reino Unido fique mais próximo da União Europeia. Ora, isso contrasta com algumas posições internas. 

A nova chefe do governo britânico tem maioria absoluta no parlamento, mas deve seguir a recomendação dos partidos da oposição e dos conservadores eurocépticos para se afastar definitivamente da União. 
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