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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Ferro para o parlamento, os outros para a direcção

O novo candidato socialista a primeiro-ministro, António Costa, nomeou Ferro Rodrigues para líder da bancada parlamentar. A primeira escolha de Costa para a sua nova equipa é um antigo líder que saiu pelo facto de Jorge Sampaio não ter convocado eleições legislativas aquando da fuga de Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia em 2004. Como se sabe foi Pedro Santana Lopes o escolhido para continuar a mandar no governo suportado pela maioria PSD-CDS.

Dez anos depois o ex-líder continua nas hostes socialistas, como é possível um antigo secretário-geral chegar ao ponto de voltar a ser deputado?, e agora assume funções de homem que irá defrontar o primeiro-ministro nos debates quinzenais. Nada mais do que isso porque Ferro Rodrigues é um daqueles que está na politica não se sabe bem porquê. No entanto, eu entendo a escolha de Costa. O novo líder da bancada pode não ser muito competente politica ou ideologicamente, mas gosta do combate cara-a-cara. É mais por esta qualidade que Costa manda Ferro Rodrigues para a linha da frente, deixando nas trincheiras outros homens que são necessários para outras lutas. 

Na minha opinião a luta de António Costa contra Passos não vai ser no parlamento, mas na comunicação social e opinião pública. Por este motivo duvido que esse tipo de guerrilha dê frutos. 

Se atendermos à primeira nomeação, o ainda presidente da Câmara Municipal de Lisboa está a dar razões aos críticos porque regressa ao passado e não olha para o futuro. A questão que se coloca é saber qual é o futuro que Costa tem para apresentar aos socialistas e aos portugueses, uma vez que foram também os simpatizantes socialistas que elegeram o futuro secretário-geral do partido. António Costa começa mal a sua gestão porque prefere a segurança do que o risco. Aliás, este é um sinal típico dos socialistas que gostam muito de se rodear das mesmas caras e pouca apetência para apostar em pessoas novas e com qualidade. O problema é que a malta jovem socialista espera e desespera por uma oportunidade. Situação que foi muito bem resolvida pelo PSD e CDS. 

A escolha de Costa para o conflito parlamentar indicia que a direcção do partido vai ser composta por muitos Guterristas, Ferristas, Socráticos e agora Costistas. 

Jornada 6

O Benfica aproveitou o empate entre Sporting e FC Porto no clássico de Alvalade para aumentar distâncias em relação ao dois rivais, mas também ao Marítimo que se encontra no segundo lugar após a goleada caseira contra o V.Guimarães. Na Luz respira-se confiança e pratica-se bom futebol, ao contrário do que acontece no Dragão. O Sporting está no meio destes dois. Apesar da tradição dizer que os três grandes acabam sempre nos primeiros lugares, acho que este ano pode haver novidades provenientes da Madeira, Braga, Guimarães e Paços de Ferreira. 

Em mó de baixo estão os europeus Rio Ave e Estoril que acusaram um pouco a estreia europeia. Não se pode dizer que os jogos europeus têm tido influência no rendimento desportivo destas equipas, mas é uma evidência que as formações orientadas por Pedro Martins e José Couceiro não vão fazer o brilharete das últimas temporadas. 

Pode ser que lutem pela manutenção ao lado de Arouca, Académica, Gil Vicente, Penafiel, Moreirense e o regressado Boavista. Na minha opinião estes clubes serão aqueles que vão ficar a lutar pela manutenção em toda a temporada. 

Uma nota para o crescimento de Sp.Braga e Paços de Ferreira. As duas equipas vão evoluir e jogar melhor futebol a cada jornada. 

Positivo
Goleada do Marítimo ao V.Guimarães, bis de Talisca, bom jogo do Boavista na vitória frente ao Gil Vicente, Paços de Paulo Fonseca sempre a somar

Negativo
Momento de forma do Estoril e Rio Ave, pontos perdidos por Sporting e FC Porto,

Jogador da Jornada: Anderson Talisca
Treinador da Jornada: Leonel Pontes
Melhor jogador do campeonato: Miguel Rosa com três citações.

"Por acaso..." da jornalista Fátima Araújo. (ou nada é por acaso)

Há uma expressão muito comum na opinião pública dirigida aos profissionais do jornalismo televisivo: “é um dos rostos da televisão”. Há, naturalmente, leituras distintas sobre o que está subjacente a esta definição.
Pessoalmente, quando a uso, pretendo tão somente, destacar o brio, o valor, a capacidade e a responsabilidade profissionais da(o) jornalista, aliado à consideração e respeito pela pessoa. É o caso da jornalista Fátima Araújo, da RTP. É, não sei se entre muitos ou poucos (pouco importa), do ponto de vista pessoal, “um dos rostos da televisão”.
Seria abusivo, cansativo e extenso, o rol de adjectivos que poderia usar (nem que tivesse de recorrer ao dicionário) para descrever a Fátima Araújo. Dispenso-me… não é preciso, Há realidades que nos “saltam à vista”.
De forma muito resumida (por necessidade), a jornalista com 17 anos de actividade (iniciou a sua carreira em 1997, tendo passado pela TSF, Renascença, JN, e desde 2001 na RTP) tem um relevante percurso de vida como profissional, como profissional premiada (em 2008, foi distinguida com uma menção honrosa do “Prémio Justiça e Comunicação, Francisco Sousa Tavares”) e como docente. Tem pavor a andar de avião, apesar de uma das suas paixões ser viajar (mais de 32 países visitados, está quase a dar a volta ao mundo); tem como sonho transformar a quinta do castelo da cidade onde nasceu (Santa Maria da Feira) num parque temático medieval e construir um hotel de charme medieval (à atenção do euromilhões e da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa); é apaixonada por pintura (também pinta, ou melhor, diz que “faz nódoas com os afectos”), escultura, fotografia, design de Interiores e arquitectura; … mas é na escrita que encontra um importante espaço de realização pessoal. E escreve muito… para além dos recados à família (diz), escreve sobre pessoas e as suas histórias, crónicas de viagens, desabafos pessoais, poemas, letras de canções, … . Só que nunca publicou. Ou melhor, o “nunca” não corresponde à verdade.
Transpondo para o papel uma das suas facetas pessoais mais determinantes - o valor humano e diginidade humana – a Fátima Araújo não se limitou a produzir um excelente trabalho jornalístico sobre a “Paralisia Cerebral”. Nem todos o conseguiriam fazer tão bem, mas, com certeza, alguns o fariam. A Fátima Araújo foi mais longe.
Do trabalho jornalístico sobre cinco jovens portugueses com Paralisia Cerebral e que são exemplos de empreendedorismo profissional e social, de auto-superação e de desmistificação de preconceitos da sociedade em relação aos deficientes, surgiu um livro (e publicado): “Por acaso…”, com prefácio do neurocirurgião João Lobo Antunes, editado pela Apuro Edições.
Neste livro, Fátima Araújo aborda questões relacionadas com os projectos em que esses cinco jovens portugueses com Paralisia Cerebral (um bailarino; uma socióloga; dois informáticos e uma professora) estão envolvidos, questões relacionadas com os seus afectos, as suas relações pessoais e a sua sexualidade, questões associadas à sua fé e à forma como a prática desportiva é determinante para a sua auto-aceitação e superação.
O livro “Por acaso…”, vertido de uma forte determinação pessoal, surge no âmbito de um projecto solidário que juntou a Jornalista, a Associação do Porto de Paralisia Cerebral e a empresa IMOA CLOTHING FOR ALL, de São João da Madeira, recém-criada, e que preenche uma lacuna social dando resposta a problemas negligenciados pela indústria do vestuário, ao apostar na inovação e no empreendedorismo social, criando roupa com especificidades adaptadas às necessidades dos deficientes, acamados e doentes com necessidades especiais.
Finalmente… a Fátima Araújo não se limitou a escrever: Publicou.
O livro "Por acaso..." vai ser lançado e apresentado nodia 20 de Outubro - Dia Nacional da Paralisia Cerebral - às 19 horas, na Casa da Música, no Porto. Apresentação essa integrada na cerimónia oficial de comemoração do Dia Nacional da Paralisia Cerebral, organizada pela Associação do Porto de Paralisia Cerebral, durante a qual actuarão o pianista Mário Laginha e o fadista Camané.
Importa ainda destacar que parte das receitas da venda do livro revertem a favor da Associação do Porto de Paralisia Cerebral.
Merece, por todas as razões e mais algumas, um espaço de destaque na biblioteca doméstica de cada um de nós.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Ajax: 20 anos depois da última Champions

No próximo ano vai fazer 20 anos sobre a última vitória do Ajax na Liga dos Campeões. Em 1994-95 os actuais tetracampeões holandeses venceram o AC Milan com um golo de Patrick Kluivert a cinco minutos do final do jogo. Na altura jogavam no clube nomes como Van Der Sar, Danny Blind, Rijkaard, Seedorf, Edgar Davids, Litmanen e Marc Overmars. A formação holandesa é um dos melhores clubes no seu país a par do PSV e Feyenoord, mas nos últimos quatro anos a equipa da capital foi a que conquistou o troféu mais importante. Após ter assegurado o domínio interno, o clube tem ambição de voltar a ganhar uma competição europeia, seja a Liga dos Campeões ou mesmo a Liga Europa. Apesar da vontade de levantar novamente a taça respeitante à maior competição de clubes da UEFA ser um sonho legítimo de qualquer clube, o jornalista António Tadeia, garante que “é muito díficil o Ajax conquistar o principal título europeu, embora tenham condições para chegar a uma final da Liga Europa, até porque eu acho que eles estão mais preocupados com o domínio interno do que em obter bons resultados internacionais”. Por seu lado, o jornalista holandês Jasper Van Vliet, corrobora da mesma ideia e diz que “o único objectivo do clube é passar a fase de grupos da Liga dos Campeões, mas os dirigentes sabem que é difícil por causa da presença do Barcelona e do PSG”.  O objectivo de o Ajax vencer o campeonato nacional holandês é um sonho que está mais ao alcance das actuais condições do clube. António Tadeia acha que “os dirigentes do clube estão mais preocupados com o domínio interno do que em obter bons resultados internacionais”. No entanto, Van Vliet garantiu ao Olhar Direito que “o clube tem a ambição de voltar ao topo da Europa utilizando o talento que têm na academia”.


A equipa holandesa tem feito uma aposta forte nos jogadores da sua formação, à semelhança do que aconteceu quando venceu a Liga dos Campeões pela última vez. Quase 20 anos depois a estratégia é a mesma, mas as vicissitudes do mercado futebolístico mudaram muito com o crescimento dos grandes clubes europeus que retiraram a possibilidade das equipas dos campeonatos secundários em conquistar as principais provas da UEFA uma vez que os jogadores que actuam nestas formações são transferidos para equipas espanholas, britânicas, italianas e alemãs. António Tadeia entende que “este mercado aberto é responsável pelo facto dos grandes clubes ficarem com os melhores jogadores mais cedo”. Em relação a este aspecto, Jasper Van Vliet considera que “os clubes holandeses vão perder sempre os melhores jogadores por causa da competitividade das outras ligas, mas também por razões financeiras”. Na opinião do jornalista freelancer a “única forma das principais equipas serem competitivas é manter os melhores jogadores da formação durante muitos anos”. A recente venda de Daly Blind (filho do campeão europeu Danny Blind) para os ingleses do Manchester United por 17 milhões de euros e de Kenneth Vermeer para os rivais do Feyenoord confirma a teoria defendida pelo comentador da RTP. A aposta em jogadores holandeses é uma certeza quando olhamos para o plantel do Ajax, sendo que os restantes jovens jogadores são provenientes de países escandinavos. Outro problema que poderá estar ligado à falta de ambição internacional do clube holandês tem a ver com as receitas. Na opinião de António Tadeia, “o clube não tem receitas necessárias para financiar uma mudança de estratégia”. A grande maioria dos clubes vive em função da bilhética, dos direitos televisivos, mas, sobretudo da venda de activos, situação que o Ajax resolveu de forma positiva neste mercado de Verão. Os dois jornalistas contactados pelo blogue entendem que a actual estratégia dos dirigentes do Ajax em apostar na formação é a mais acertada tendo em vista a actual dimensão do clube bem como da realidade futebolística em que estão inseridos. 

As Primárias no PS e as Presidenciais de 2016

Já o afirmei em vários e distintos momentos que o nome de José Sócrates tem um maior impacto dentro do PS do que para a opinião pública, nomeadamente para a direita portuguesa. Isto apesar de algumas opiniões que entendem que a direita portuguesa tem receio do regresso de Sócrates. Não concordo. Sempre que há algum momento marcante na vida interna do Partido Socialista o nome e a figura de José Sócrates está sempre presente, por vontade expressa de alguns socialistas contra a vontade de outros. Mas é internamente que o peso de José Sócrates é mais sentido, para o bem e para o mal.
Estas primárias não fugiram à regra. Mesmo sem uma participação activa, Sócrates marcou presença na disputa interna entre Seguro e Costa. Por um lado a associação do ex Primeiro-ministro ao agora vencedor das primeiras primárias portuguesas, por outro a crítica interna ao regresso do PS ao período em que foi governo pela última vez. E isto não é ficção da oposição ou dos partidos do actual arco governativo.  Foi o próprio PS que criou esta realidade, apesar de Sócrates não se ter envolvido pessoal e publicamente no processo, e apesar do mesmo ter afirmado (ainda ontem na TV) que está afastado da vida política activa, reservando ao direito de usar espaço para a liberdade de expressão e opinião.
Mesmo com tudo isto, para além das questões que levantei aqui após o conhecimento do vencedor das primárias, há outra questão que importa destacar como resultado das Primárias no PS.
O ano de 2015 não é marcado apenas por um ano eleitoral legislativo. É também o ano que antecede as eleições Presidenciais, para as quais os resultados legislativos de 2015 poderão ter um impacto significativo.
Neste sentido, se António Costa ganhar o aparelho nacional do PS (falta agora o processo interno de eleição do secretário-geral após a demissão de António José Seguro) e o resultado legislativo em 2015 for positivo, as presidenciais de 2016 ganham um renovado folgo para os socialistas.
Assim, nada me espantaria que o nome já tantas vezes proferido por ilustres socialistas de António Guterres para as presidenciais possa vir a ser substituído por o de José Sócrates, pela estrutura nacional do partido.
Ainda o segundo mandato de Cavaco Silva vai a meio e terá decorrido o tempo suficiente para a natural “travessia do deserto” de José Sócrates. Isto se o PS não repetir a gracinha das primárias para a escolha de um candidato presidencial. Já agora...
A ver vamos.

domingo, 28 de setembro de 2014

O verdadeiro resultado das primárias

http://img.rtp.pt/icm/noticias/docs/7d/7d0059c5637eaaf95d48771158f91c73_80fdd02e912d9343026b42793bcce2e4.jpg
Isto, obviamente, para além de já se saber que António Costa foi o escolhido pelos militantes e simpatizantes socialistas para se candidatar, como primeiro-ministro, às próximas legislativas (2015). No momento da escrita deste texto, António Costa liderava o resultado com 70% dos votos.
Mas o processo eleitoral de hoje, nas hostes socialistas, tem outros resultados.
1. O processo das primárias, que pretendia ser inovador e aproximar a política/políticos dos eleitores, foi algo irreflectido, inconsequente, implementado em cima do joelho, e com objectivo de dar resposta política a um problema de autoridade e liderança de António José Seguro. Sim, porque o que esteve sempre em cima da mesa, neste processo, foi o reconhecimento interno de uma liderança de três anos sem capcidade de criar e se apresentar aos portugueses como alternativa governativa.
Seguro apostou e perdeu. Fica a primeira questão: Seguro poderia ter mantido a liderança socialista sem primárias (apenas com directas e congresso)?
2. Com a derrota e o consequente anúncio público de demissão do cargo de secretário-geral do PS, o partido vê-se a braços com a necessidade de uma reformulação do seu calendário político: a realização de directas para a escolha de um novo secretário-geral. É que a escolha que os socialistas (militantes e simpatizantes) fizeram hoje não foi a do líder do partido, mas sim a de um candidato a primeiro-ministro. Num sistema político como o dos partidos portugueses, em que a personalização do poder é demasiado elevada, por si só, a realidade criada no PS com estas primárias levanta um sério conjunto de interrogações.
3. Como será o “day after” socialista tendo em conta que o próximo líder socialista (secretário-geral do PS) pode vir a ser alguém da ala Seguro?
4. Que consistência e solidez política terá agora o PS, maior partido da oposição, tendo em conta que o actual líder da bancada parlamentar foi escolhido por António José Seguro?
5. O que se espera de uma oposição ao actual Governo quando o candidato a primeiro-ministro não é o secretário-geral do partido da oposição, não tem assento na Assembleia da República (palco principal do debate político) e tem um grupo parlamentar dividido?
Este é que é o verdadeiro resultado das eleições primárias no PS.
Uma serie de interrogações relevantes a ter em conta para o futuro e, no imediato, para as legislativas de 2015.
Pedro Passos Coelho, o Governo e o PSD agradecem…

O velho Socialismo está de volta



António Costa venceu as primárias do PS e é o candidato socialista que vai concorrer a primeiro-ministro nas próximas legislativas. Como se esperava, o ainda presidente da Câmara Municipal de Lisboa obteve uma margem significativa frente a António José Seguro. Eu disse ainda presidente porque Costa não disse nada em relação ao cargo que ocupa na edilidade lisboeta. Será que o novo "candidato" pretende manter a CML porque assim continua ligado à política se perder as legislativas do próximo ano?

Este é uma possibilidade possível uma vez que Costa é um animal político como se viu nestas primárias. É óbvio que a distância entre a Praça do Município e o Largo do Rato é pouca, mas o futuro secretário-geral socialista já devia ter esclarecido essa posição. Começa mal porque, ao contrário do que fez Seguro, mantém todos os títulos que tem. 

A vitória de António Costa é também o regresso do Velho Socialismo ligado a Sócrates. Ouço muitas pessoas falarem sobre a indefinição em torno do líder parlamentar, da direcção bem como outros cargos dentro do partido. Ora, mas não está na cara que os Coelho, Ferro Rodrigues, Carlos César, Maria de Belém, Galambas e outros socialistas desta vida vão voltar à primeira linha da opinião socialista? E aposto que Sócrates não vai ser deixado de fora. O problema é que também Seguro vai regressar à sua vidinha de militante de base, ou seja, ligado ao caciquismo e interesses partidários do costume.

Como se viu na campanha eleitoral não há um estilo, ideias ou o quer que seja de diferente com António Costa. Podemos ter novidades em termos de mediatização, mas isso vai durar pouco tempo. 

Um factor que distingue o PS do PSD é que os ex-líderes socialistas estão sempre metidos dentro das jogatanas políticas. Basta recordar que Ferro Rodrigues, Mário Soares e Sócrates, não só vivem os problemas internos do partido no dia-a-dia, como querem ser uma voz activa e que influencia directamente as bases. Ora, Seguro não vai querer ficar calado depois desta traição por parte de Costa. 

Os próximos tempos no Largo do Rato vão ser interessantes porque este foi só mais um episódio na indefinição que continua o partido desde a histórica derrota eleitoral em 2011. 

Um Governo desculpável

publicado na edição de hoje, 28 de setembro, do Diário de Aveiro.

Um Governo desculpável
Recentemente assistimos a algo insólito neste Governo. Após um conjunto de situações/medidas polémicas, após uma sucessão de críticas e contestações, (e só) após a confrontação com os factos e as realidades, quer o ministro da Educação, quer a ministra da Justiça, vieram a público proferir um pedido de desculpas pelos erros cometidos. Não propriamente o assumir dos erros e das responsabilidades, mas sim usar o estratagema político do pedido de desculpas que mais não foi do que uma “não desculpa” com vista escamotear o que seria normal: a admissão do erro e das responsabilidades (a sua consequência política).
O ministro Nuno Crato pediu desculpa e mandou refazer a lista de colocação de professores depois de defender o processo inicial mas incapaz de suster a pressão e a realidade dos factos. A ministra Paula Teixeira da Cruz andou várias semanas a escusar responsabilidades e críticas face à polémica instaurada pelo “crash” do programa Citius até ser confrontada com a incapacidade do seu ministério em resolver, eficaz e atempadamente, o problema.
Na prática, os pedidos de desculpas formulados pelos dois governantes resultaram politicamente (e mesmo tecnicamente com muitas dúvidas) em zero: serviu para uma saída subtil da pressão política, sem a assumpção da responsabilidade pessoal enquanto ministros e tutelares dos organismos dos seus ministérios. O catedrático Viriato Soromenho Marques, professor de Filosofia Social e Política na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, escrevia há dias no Diário de Notícias a propósito do tema: «O perdão implica, primeiro, o reconhecimento de um dano irreversível causado a outros, que são vítimas. E, em segundo lugar, o perdão obriga a mudar radicalmente de conduta para permitir a reconciliação, como condição para um novo caminho.» Tenho dúvidas que o “perdão” formulado pelos dois ministros tenha tido a necessária consequência que deveria dignificar o acto: o assumir as responsabilidades e a mudança radical, ou pelo menos significativa, da realidade e dos actos (erros) cometidos.
Muito mais importante que um populismo mediático que o país dispensava de bom grado (face às figuras que fizeram publicamente) teria sido o rigor governamental e técnico das medidas aplicadas. À maioria dos portugueses, que felizmente já não embarca tão facilmente em “cantigas” e “lágrimas de crocodilo”, uma questão fundamental se colocou: os ministros, responsáveis máximos pelos actos dos seus ministérios, tinham informação suficiente e conhecimento dos factos que poderiam ter impedido os desfechos verificados? Em caso afirmativo, o “nobre” pedido de desculpa deveria ter sido acompanhado de um digno assumir das responsabilidades e daí retirarem as consequências políticas das suas gestões governamentais. Isso sim, seria um elevado sentido político e de serviço público. A teatralidade do acto só revelou fraqueza política e sinal de hipocrisia, já que nada mudou. A coragem necessária (reconheça-se) para vir a público pedir desculpa diluiu-se na falta de coragem para, consequentemente, assumirem as devidas responsabilidades. Em nada dignificaram o verdadeiro sentido do perdão.
Mas esta é a moda deste Governo. Já em 2010 (ainda na oposição) Pedro Passos Coelho pedia desculpa aos portugueses pelo aumento de impostos aplicados pelo então Governo de Sócrates. Volvidos quatro anos, agora no Governo, as desculpas resultaram num avolumar de aumento de impostos e não numa mudança de paradigma.
De novo, a montanha pariu um rato.

Olhar a Semana - As explicações

A semana que termina agora ficou marcado pelo caso Tecnoforma e envolveu uma eventual fuga ao fisco por parte do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.

Não concordo com a análise política que o Miguel Pedro Araújo faz neste post.

Em primeiro lugar o primeiro-ministro só podia dar explicações no parlamento e não numa conferência de imprensa ou declaração vulgar que podia ser mal interpretada. Os primeiros esclarecimentos foram, e bem, dados aos deputados que puderam fazer as perguntas que bem entenderem. Neste aspecto, António José Seguro meteu os pés pelas mãos mais uma vez (terá sido a última?) e o BE não quer perceber as respostas ou é mesmo falta de inteligência política. Por acaso, o PCP foi o único partido que se safou na sessão parlamentar de sexta-feira. 

Em segundo lugar as dúvidas do PM só poderiam ser esclarecidas depois do parecer emitido pela procuradoria-geral da república. Pois só assim conseguia ter informação suficiente para se defender. 

As declarações de Passos Coelho a dizer que não se lembrava de ter recebido o que seja ou de não saber se estaria ou não em exclusividade no parlamento quando era deputado foram infelizes. De facto, até podia ter tido um lapso de memória, mas antes de dizer o quer que seja deveria ter-se informado em primeiro lugar. É para isso que servem os assessores. Na minha opinião este é o único erro político que Passos Coelho cometeu neste caso que só foi mediático durante uma semana. 

O PM fez em bem não dizer que se tratava de uma cabala política, mas eu digo que esta foi a primeira vingança política que Passos Coelho sofreu na pele enquanto chefe do governo. 

Ainda no rescaldo do "Tecnogate"

Após o debate quinzenal que decorreu ontem na Assembleia da República, onde, como seria de esperar, a maioria das intervenções dirigidas ao Primeiro-ministro versaram sobre o caso Tecnoforma, importa fazer uma reflexão final (a menos que surjam significativos e relevantes novos desenvolvimentos).
A primeira análise foi feita aqui: "Tecnogate... Pedro Passos Coelho tem um caso".
Apesar dos desenvolvimentos e informações públicas posteriores não me parece que o texto, na sua globalidade, tenha perdido contextualização.
No entanto, há alguns pormenores que me parecem merecer atenção.
Pressupostos
Por princípio, que reservo como fundamental, sou um extremo defensor da presunção da inocência até prova ao contrário (mesmo que no direito português essa prova tenha de sre feita, na maioria dos casos, pelo próprio acusado e não por quem denuncia).
Por outro lado, por razões de formação e profissionais, tenho para mim bem clara a fronteira entre a reserva da vida privada e a intimidade e a vida pública, o exercício de cargos políticos e públicos e o superior interesse público.
Além disso, a imagem que muitos portugueses tinham (ou têm) de Pedro Passos Coelho, verdade seja dita, era (ou eventualmente ainda será) de uma pessoa honesta e até com significativa imunidade a pressões externas. Isto independentemente de se concordar ou não com as suas posições políticas e as suas medidas governativas, e mesmo relacionando a total contradição das suas intervenções/convicções enquanto oposição (campanha eleitoral de 2011) e os actos políticos enquanto primeiro-ministro.
Factos e Realidade
As dúvidas, as problemáticas, as incertezas e as controvérsias, em torno deste caso da Tecnoforma tomaram a dimensão que tomaram apenas e exclusivamente por culpa do próprio Pedro Passos Coelho.
Como referi no post acima linkado, tudo teria sido muito mais simples, mais credível, menos problemático e mais transparente se o Primeiro-ministro, confrontado com a denúncia (anónima) tivesse logo afirmado: "não recebi qualquer remuneração, nem exerci qualquer função, para além de deputado entre 1995 e 1999". Tudo o resto não passaria de uma "não-notícia".
Mas Pedro Passos Coelho resolveu ser ambíguo, vago, questionável, levantando ele próprio a suspeita de irregularidade e de falta de ética política sobre si mesmo. Não foi mais ningiém. Foi o próprio, "himself".
E a trapalhada política foi de tal forma (criando até algum mau-estar e apreensão nos partidos que sustentam a coligação) que os Serviços da Assembleia da República ficaram muito mal na "fotografia", a solicitação de investigação (quando toda a gente sabia que tal não tinha qualquer sustentação legal pela prescrição dos factos/actos) à PGR foi uma estratégia totalmente falhada, já para não falarmos da surreal conferência de imprensa de um eventual funcionário da Tecnoforma (empresa insolvente há cerca de dois anos, com dívidas no valor de cerca de 2 milhões de euros) a explicar tudo e mais alguma coisa menos o mais relevante para o caso.
Conclusão
Apesar de todos os esclarecimentos e da resposta categórica mas muito tardia por parte de Pedro Passos Coelho, o Primeiro-ministro deixou na opinião pública uma má imagem e alguma nebulosidade sobre o caso. Se do ponto de vista fiscal, à data, Passos Coelho poderia não declarar rendimentos provenientes de ajudas de custo e despesas de representatividade, a verdade é que o valor (nunca provado ou negado), o processo de pagamento e a sua relação efectiva com a empresa continuam a levantar sérias dúvidas do ponto de vista político.
Deste modo, um Primeiro-ministro que era visto com seriedade nos seus actos acaba por entrar no rol da má imagem que os portugueses têm da política e dos políticos. Mesmo que a memória dos portugueses continue muito curta, Passos Coelho, justa ou injustamente, ficará ligado às suspeitas que ainda hoje envolvem José Sócrates (Freeport e Face Oculta), Cavaco Silva (BPN), Paulo Portas (caso Moderna, Submarinos, Viaturas Pandur, as fotocópias quando deixou o ministério da Defesa, na queda do governo de Santana Lopes), CDS (caso dos Sobreiros), Miguel relvas (o caso da sua licenciatura) entre outros.
E, afinal, tudo teria sido tão simples e tão evitável.
Bastava ter sido, no imediato, assertivo, credível e verdadeiro.

sábado, 27 de setembro de 2014

Figuras da Semana XVIII

As figuras desta semana são:

Por Cima:

Fernando Santos - O engenheiro do Penta e antigo seleccionador nacional grego é o novo timoneiro da selecção portuguesa. Após uma carreira gloriosa que inclui a passagem pelos três grandes de Portugal, Fernando Santos chega ao topo. A tarefa de qualificar a selecção para o Euro 2016 não é fácil até porque o técnico muito provavelmente não vai estar no banco de suplentes durante o apuramento devido ao castigo imposto pela FIFA na sequência do Costa Rica-Grécia a contar para os oitavos-de-final do Mundial 2014. Apesar deste pequeno problema a FPF não poderia optar por outra escolha porque esta é a hora de Santos, esteja ele ou não sentado no banco de suplentes. Tenho a certeza que a selecção virou a página rumo a um melhor futebol praticado dentro dos relvados. Depois é deixar as nossas estrelas brilharem. 


No Meio

Pedro Passos Coelho - A semana do primeiro-ministro começou mal, mas terminou de cara lavada. As explicações que deu ao Parlamento sobre o caso tecnoforma coloca o assunto fora das capas dos jornais, pelo menos até surgirem novos desenvolvimentos. Gostei da forma como o chefe de governo encarou esta situação e só não está na posição ocupada por Fernando Santos porque a nomeação do actual seleccionador representa o culminar de uma carreira de sucesso. E porque o caso Passos Coelho foi apenas mais um entretenimento político que surgiu de uma denúncia anónima. Mais nada do que isso.

Em Baixo

António José Seguro - O ainda secretário-geral do PS esteve mal naquele que deve ter sido o seu último debate quinzenal na Assembleia da República com a presença do primeiro-ministro. Perante as explicações de Passos Coelho, Seguro preferiu pedir que se levante o sigilo bancário de Pedro Passos Coelho. Nada melhor do que uma proposta suja para tentar captar votos tendo em vista as primárias socialistas de amanhã. As próximas horas ficarão marcadas pela escolha de António Costa como candidato socialista a primeiro-ministro nas próximas legislativas. Ora, isto vai criar um problema porque Seguro vai continuar a ser Secretário-geral do partido depois de amanhã. Duvido que o secretário-geral aceite de forma democrática uma derrota nas primárias, mesmo que leve uma banhada. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Tecnogate... Pedro Passos Coelho tem um caso


Será o caso Passos Coelho vs Tecnoforma uma notícia ou uma não notícia?
Acima de tudo o caso afigura-se como uma enorme trapalhada e embrulhada. Curiosamente por responsabilidade do próprio Pedro Passos Coelho e não de quem denunciou, ou da revista Sábado que publicou, um significativo conjunto de dúvidas e incertezas. E por não ter sido, imediatamente, esclarecedor dos factos denunciados. O que poderia ter passado por uma mera e simples “não notícia”, rapidamente se transformou num colossal caso político, ao qual nem os partidos da coligação ficaram indiferentes.
Factos
Entre 1991 e 1999, durante a VI e a VII legislaturas, Pedro Passos Coelho, exerceu as funções de deputado na Assembleia da República. Durante este período não requereu, aos serviços da Assembleia da República (AR), regime de exclusividade (perdendo o direito a um acréscimo de cerca de 10% no seu vencimento como deputado).
Na sequência do processo eleitoral de 1999, Pedro Passos Coelho deixou de ser deputado. Nessa altura requereu aos serviços da Assembleia da República (conforme documentos que o jornal Expresso divulgou) subsídio de reintegração. No entanto, o subsídio de reintegração exigia que, durante aquele período, a função de deputado fosse exercida em regime de exclusividade. Como os serviços da AR não tinham essa indicação, solicitaram a informação, pessoal e por escrito, a Pedro Passos Coelho sobre a sua condição de deputado. Passos Coelho, na resposta, informa os serviços da AR que a sua função de deputado foi exercida em regime de exclusividade.
Ao desenvolverem o respectivo processo, os serviços da AR verificaram que, entre 1995 e 1999, o então deputado Pedro Passos Coelho não tinha entregue cópia das declarações de rendimentos (IRS). Solicitada essa informação as declarações foram, posteriormente (e forçado a tal), entregues por Passos Coelho. O subsídio de reintegração foi então processado. Mas das declarações entregues não consta qualquer rendimento proveniente da empresa Tecnoforma. Para além do rendimento como deputado existem apenas valore provenientes de serviços pontuais e esporádicos (não regulares, nem permanentes, nem contratuais) prestados a diversos órgãos de comunicação social.
O que está então em causa?
Segundo a denúncia, e a informação noticiada pela revista Sábado, Pedro Passos Coelho é suspeito de ter recebido cerca de 5000 euros mensais (à data, mil contos), entre 95 e 99, em serviços de assessoria prestados à empresa Tecnoforma, tendo invocado (em 2000) regime de exclusividade como Deputado, durante o referido período.
Os cenários
O problema de todo este imbróglio é que Pedro Passos Coelho preferiu, estrategicamente mal e totalmente falhada, não responder directamente a todas as questões que entretanto se levantaram e ir tentado uma saída evasiva, primeiro com os serviços da AR e depois com a Procuradoria-Geral da República. Pior a emenda que o soneto. O que poderia ter sido, caso seja inocente, uma simples “não noticia” para desviar a atenção das primárias do PS, dos problemas na Justiça e na Educação, de mais um agravamento dos salários na Função Pública a partir deste mês, transformou-se, por culpa própria, num colossal caso político.
1. Pedro Passos Coelho não pode usar a PGR como álibi. Os factos em causa (evasão fiscal) prescrevem ao fim de 10 anos. Assim sendo, a PGR não tem base legal para investigar porque qualquer processo aberto não tem fundamentação para uma acção na justiça. Por outro lado, não há, para o juiz da investigação, sustentação legal para, por exemplo, poder anular o sigilo bancário para a respectiva investigação.
2. Daqui resulta que Passos Coelho fica sem argumentação de prova de inocência, perante a denúncia feita, aumentando assim as suspeitas e as críticas da opinião pública.
3. Bastava ao Primeiro-ministro ter tido a coragem, a frontalidade e a franqueza, e ter dito logo, no primeiro instante, que não tinha recebido quaisquer rendimentos da Tecnoforma, até porque é sabido que os serviços de assessoria foram prestados a uma ONG que trabalhava com a Tecnoforma. Isto a ser verdade acabava aqui a questão (a tal “não notícia”). Porque por mais distraído que alguém possa ser, apesar dos 19 anos de diferença (em relação a 1995), a verdade é que ninguém esquece um rendimento “extra” de mil contos mensais.

Mas Passos Coelho criou um “monstro”, um verdadeiro caso político com dimensões significativas, ao ponto do próprio ter declarado que “caso se verificasse alguma irregularidade que retirava daí as ilações políticas devidas”, aumentando a perspectiva de uma eventual demissão do cargo.
Do ponto de vista jurídico o caso em si resulta num processo de evasão fiscal e, eventualmente, falsificação de documentos. Mas o mais grave é ainda a questão da ética política e do facto de ser, há três anos, o primeiro-ministro. Chefe do Governo que implementou com a Troika um plano de austeridade severo para recuperação das contas públicas e que exigiu enormes sacrifícios aos portugueses; que atacou a evasão fiscal (mesmo que com sorteio de popós caros); que liderou um Governo que implementou um enorme aumento da carga fiscal; que apelidou os portugueses de piegas; e que disse que tínhamos vivido acima das nossas possibilidades.
O que Pedro Passos Coelho criou foi uma enorme embrulhada política, à qual nem os partidos da coligação ficaram indiferentes, e que não terá (seja qual for o desfecho) uma saída muito clara. Muito longe da “saída limpa” da Troika. É que à mulher de César não basta parecer…

O caso Tecnoforma

Não é por ser Passos Coelho que vou deixar de criticar com tudo o que não concordar com a sua governação nem com questões relacionadas com ética. 

Em primeiro lugar cumpre dizer que fico satisfeito pelo facto do primeiro-ministro ter pedido à Procuradoria-Geral República que tomasse uma decisão sobre alegadas incompatibilidades. 

Em segundo também fico contente por Passos Coelho admitir a hipótese de vir a demitir-se caso haja um parecer negativo da entidade. 

Ora, estes dois factores são suficientes para acreditar que estamos perante um primeiro-ministro honesto. É não é por ter alterado a sua política em relação aos cortes dos subsídios de férias e Natal que o vai deixar de ser. A honra e a honestidade são dois valores que em política são importantes, tal como na vida, mas não se pode confundir isso com decisões estritamente políticas. 

O que Passos Coelho fez só por um problema que apareceu vindo do nada mostra a credibilidade do primeiro-ministro e a sua vontade de esclarecer tudo diante das instâncias competentes. No ano passado aquando da crise política, fiquei muito bem impressionado com a forma como lidou com a questão Paulo Portas. Aliás, embora não concorde com algumas políticas de austeridade, sempre considerei Passos Coelho um político exemplar. E esta situação em que está envolvido é uma prova disto que acabei de dizer. 

Lembro-me perfeitamente o número de casos em que o nome de Sócrates esteve envolvido e nunca o antigo primeiro-ministro quis esclarecer qualquer incompatibilidade ou ilegalidade. Pelo contrário, Passos Coelho sabe que vai sair reforçado junto da opinião público, porque como é óbvio, o parecer da procuradoria-geral da República vai ser negativo.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O regresso do "Engenheiro" ao futebol nacional

O Francisco Castelo Branco acertou na mouche quando vaticinou, não sei se por convicção ou apenas pela constatação da realidade, que Fernando Santos seria o novo seleccionador nacional, após a saída de Paulo Bento.
Para além de outros nomes como Paulo Fonseca, André Villas Boas, o próprio Humberto Coelho, ou o Manuel José (entre outros) confesso que não tinha qualquer preferência por Fernando Santos ou por outro qualquer. Acho que o futebol nacional atravessa uma grave crise de identidade ao nível dos clubes, dos atletas nacionais, dos agentes desportivo e dos próprios treinadores. Aliás, algo transversal a outras modalidades como, a título de exemplo, o Basquetebol (infelizmente).
No entanto, o anúncio de Fernando Santos como o novo seleccionador nacional (um dos poucos que passou pelo comando técnico dos chamados três grandes) merece-me, apesar de tudo, a seguinte reflexão.
Não consigo, nesta data, tecer qualquer tipo de previsão quanto ao que poderá ser ou não o desempenho do novo seleccionador nacional. Reconheço-lhe competências, curriculum, experiência, embora não seja propriamente muito fã do seu futebol.
Mas há duas questões, neste processo forçado de renovação do seleccionador, que me inquietam.
Primeiro, pelas palavras do Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, o objectivo França 2015 (Europeu) mantém-se como prioridade. Assim sendo, como se justifica a escolha de um treinador que terá de cumprir oito jogos de castigo até poder orientar, do banco, a equipa? Será que tal realidade não terá impacto no atingir do objectivo traçado?
Segundo, o que muda na estrutura, na actuação, na blindagem de "pressões e influências externas" na FPF? Será que só o Paulo Bento e o ex-médico Federativo tiveram responsabilidades no Brasil e no jogo contra a Albânia? Mudar o seleccionador será suficiente?
A ver vamos...
Fernando Santos é o novo selecionador

A “americanização” eleitoral socialista

Tal como referi o início do texto "O dilúvio das primárias" e complementando as interessantes observações do Francisco Castelo Branco ("Olhar a semana - Alguém vui a campanha" e "Seguro forte mas populista", entre outros) aqui fica o prometido texto de análise às primárias no PS.
publicado na edição de hoje, 24 de setembro, do Diário de Aveiro.
Debaixo dos Arcos
A “americanização” eleitoral socialista
No arranque da última semana antes do dia “D” socialista, António Costa afirmou que «as primárias no PS são uma questão nacional». Sobre esta convicção importa agora reflectir sobre este processo “nacional” das primárias socialistas (mesmo que a elaboração deste texto, por razões temporais, não possa espelhar o último frente-a-frente televisivo).
Tenderei, numa primeira fase, a concordar com António Costa. De facto, na génese de todo este processo interno no PS estava, no horizonte dos socialistas, as eleições legislativas de 2015 e uma eventual vitória, face ao que era, à data, a governação de Passos Coelho. Assim sendo, o resultado do confronto político pela cadeira do poder no Largo do Rato teria impacto directo na escolha dos portugueses nas legislativas do próximo ano e, obviamente, na próxima governação do país. Até os próprios slogans de campanha escolhidos pelos dois candidatos reflectem esse “desígnio” nacional destas primárias socialistas: “Mobilizar Portugal” de António Costa vs “Pela Mudança - Avançamos Juntos” de António José Seguro (sendo que, no caso de Seguro, entende-se “pela mudança” em relação ao país, já que internamente seria, obviamente, “pela continuidade”). Aliás, mais não seria necessário para sublinhar esta “questão nacional” do que a inovação política da realização de primárias abertas a simpatizantes e militantes do partido (independentemente das confusões processuais que envolveram a elaboração de algumas listas).
Só que esta projecção “nacional” deste inovador processo eleitoral no PS conflituou com uma realidade de campanha bem diferente, colocando em dúvida o interesse dos portugueses neste processo e, eventualmente, a própria participação e afluência eleitoral (no próximo domingo, dia 28 de setembro) dos simpatizantes e militantes inscritos (150 mil simpatizantes e 90 mil militantes, num total de 240 mil eleitores).
Tudo começou pelo timing escolhido por António Costa para provocar uma crise interna e o respectivo processo eleitoral, bem como a incapacidade de António José Seguro em aceitar que as lideranças são passíveis de crítica e de oposição (tal como acontece internamente em relação ao PSD e ao Governo) e nos fracassos eleitorais (apesar das vitórias, as chamadas “vitórias de Pirro”) que não projectaram o PS em termos de sondagens. “Traição política”, expressão usada ferozmente por Seguro em relação a Costa, não é o mesmo que o legítimo direito democrático da crítica e da oposição aberta e livre. Aliás, algo que Seguro saberá muito bem se nos recordarmos do que poderá ter sido a sua posição de bastidores nos últimos meses da governação de Sócrates.
Seguiu-se o posicionamento (e a divisão) interno das tendências socialistas com uma clara e preocupante incapacidade de se alhearem dum passado recente. A facção Seguro com claro afastamento em relação à governação de Sócrates e a tentativa de colagem do ex-primeiro ministro à facção Costa, tentando com isso valorizar um impacto negativo do autarca lisboeta numa futura governação. O que revela que no PS, muito mais do que na oposição, há um estigma muito forte para resolver chamado José Sócrates.
Por último, sendo estas eleições apelidadas por António Costa de “questão nacional”, esperar-se-ia uma campanha que mobilizasse e juntasse os portugueses (independentemente das questões ideológicas ou partidárias), que demonstrasse uma alternativa credível à actual governação e à actual coligação PSD-CDS.
O que se constatou, diariamente e com excessiva mediatização (o que levou a um cansaço e a uma saturação da opinião pública), foi tudo menos posições esclarecedoras e elucidativas quanto ao futuro do país. As posições públicas alternaram entre os ataques pessoais, a desvalorização do papel e imagem do adversário, as medidas populistas (redução de deputados, baixa de impostos, aumento do salário mínimo, etc.) e a não apresentação de projectos, propostas, programas para o futuro do país e uma eventual governação. É certo que, no caso de António Costa, o mesmo afirmou que existem três momentos distintos: as primárias, o congresso e a campanha eleitoral legislativa. Isto seria o mais óbvio se não tivesse sido o próprio António Costa a adjectivar as primárias como um desígnio nacional. Assim sendo, como podem os portugueses associarem-se a esta “dimensão nacional” se nada lhes foi apresentado como alternativa futura ao actual estado do país e da nação, para além de meses de quezílias políticas domésticas?
Como alguns amigos socialistas me diziam: “assim não vamos lá”. Como resultado prático de toda esta realidade (acusação, aliás, feita pelo próprio Seguro a Costa) quem ficará a ganhar será o PSD de Pedro Passos Coelho. Quanto ao país… restam-me muitas dúvidas. Nem foi “Mobilizado”, nem se sente motivado “Pela mudança”.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Seguro forte mas populista

O vencedor do último debate televisivo quando faltam cinco dias para as primárias do Partido Socialista foi António José Seguro. No entanto......

É óbvio que o tipo de discurso utilizado pelo ainda secretário-geral socialista não é o mais adequado, mas é aquele que chega às pessoas, em particular os militantes socialistas que só olham para os sound-bytes. Eu percebo o argumento utilizado por Seguro contra Costa, quando o apelida de traidor. Até ao momento, António Costa não conseguiu responder, preferindo manter-se calado para não ser acusado de nada. Ora, o que os militantes e os eleitores querem é que os políticos falem e digam de sua justiça, mesmo que por vezes, não corresponda à realidade. 

Não se pode pedir mais a Seguro porque ele não tem nada para acrescentar. É natural que assim seja uma vez que durante todo este tempo não pressionou o governo, mas será isso que os eleitores socialistas querem saber?

É impossível prever qual será a votação e como ficará o partido a partir de segunda-feira. Uma coisa certa: a menos que Passos Coelho tenha de se demitir por causa do caso Tecnoforma, a próxima liderança socialista não vai ter novamente vida fácil. Tudo por culpa de quem se apresentou a estas primárias. 

O dilúvio das primárias

Antecipando a reflexão sobre as primárias no PS, a publicar na edição de amanhã do Diário de Aveiro, importa destacar o que tem sido o caudal de comentários nas redes sociais.
Aliás algo já referido, e bem, pelo Francisco neste texto com o título  "Olhar a semana - Alguém viu a campanha?" Ver, até acho que mutios portugueses, até agora, viram (eu incluído). O problema é que muitos de nós não gostámos nada do que, até agora, vimos.
O desnorte socialista e a péssima imagem pública do que tem sido esta campanha interna para a liderança do PS que curiosamente, quer Seguro, quer Costa, projectaram como "questão nacional" ao sublinharem as primárias como a escolha, não do líder socialista, mas do futuro primeiro-ministro de Portugal, chegaram a um extremo e a um desrespeito político (para não dizer mesmo "desonestidade política) inacreditável.
Desde vídeos de reportagens de 2012 de obras em Lisboa e de António Costa (onde surgem títulos como "António Costa, o Sr. 'sarjeta') até à transposição das cheias em Lisboa, e daquilo que é (ou deveria ser) a gestão autárquica, tudo serve e vale para desvalorizar a imagem política de António Costa nestas primárias.
O que, por si só, demonstra claramente o que será o futuro do PS após estas inovadoras eleições primárias.
Com chuva ou com sol... será sempre uma tempestade que pairará, nos próximos tempos, no Largo do Rato.
O país dispensava... já nos chega o dilúvio que tem assolado este mês de setembro.
(créditos da foto: retirada do blogue "Epa cum catano")

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Jornada 5

Ao fim de cinco jornadas temos líder isolado. O Benfica venceu o Moreirense e beneficiou das derrotas do Rio Ave e dos empates do FC Porto e V.Guimarães. Agora é só um que comanda o campeonato.

Após cinco jogos a equipa de Jesus regressa ao topo, posição onde terminou no último campeonato. Aquela que foi considerada pela crítica como a equipa menos candidata ao título já está no topo e praticando um bom futebol, ao contrário dos seus rivais que continuam intermitentes. Apesar da boa equipa, Lopetegui ainda não consegui fazer com que o FC Porto jogue um futebol dominador e limpinho. 

A maior surpresa da jornada aconteceu no Dragão com o empata dos azuis e brancos frente ao Boavista. Para já, quatro pontos em cinco jogos não é mau para quem aterrou sem preparação no principal campeonato português. 

Quem também anda a praticar bom futebol e a obter bons resultados é o Belenenses. A equipa de Belém já está no quinto lugar por obra e magia de uma estrela chamada Miguel Rosa.

Positivo
 Miguel Rosa; empate do Boavista no Dragão; exibição do Sporting frente ao Gil Vicente

Negativo
Exibição do FC Porto frente ao Boavista, queda do Gil Vicente, mau jogo entre Braga e Nacional

Jogador da jornada: Eliseu
Treinador da Jornada: Petit
Melhor jogador do campeonato: Miguel Rosa com três nomeações

Em pleno sec. XXI mas na Idade da Pedra

Tal como o Francisco referiu (e bem) neste post há muito mais que noticiar para além das cheias, caos de trânsito ou as primárias no PS.
Há um país que teima em retroceder e em regressar ao paleolítico.
A guerra traz-nos imagens e realidades cruéis. Facto.
A fome traz-nos imagens e realidades que abominamos e dificilmente compreendemos face aos recursos que existem no mundo e nos países. Facto.
A morte, por mais natural que seja, afigura-se-nos sempre “estúpida”. Facto.
Portugal tem todas as potencialidades para ser um país exportador de serviços de inovação e tecnologia. Facto.
O 25 de Abril de 74 trouxe-nos liberdade, democracia, mais educação, mais saúde, mais emprego (mesmo que a taxa de desemprego esteja a níveis insuportáveis), mais igualdade, mais justiça. Não vale a pena esconder o que era a realidade antes e pós 1974. Facto.
Não consigo entender que em 2014, com tudo o que nos rodeia e nos é proporcionado, cultural e socialmente vivamos, em Portugal, ainda em plena Idade da Pedra.
Factos:
Em seis meses (1º semestre de 2014) 24 mulheres foram mortas e 27 vítimas de tentativa de homicídio (apesar da violência doméstica não ter como vítima exclusiva a mulher).
Tudo isto a juntar a outros dados resultantes de estudos referentes a 2012 e que não vislumbram redução significativa ou, preferencialmente, a sua extinção.
Tudo isto é estúpido, inaceitável, cruel, abominável… e não são apenas os tempos de crise, de desemprego, de problemas financeiros domésticos e pessoais, que sustentam os actos em si.
Há questões nacionais mais prementes que as primárias no PS ou o regresso do mais degradante lixo televisivo que é a Casa dos Segredos. Há questões nacionais que mereceriam um "olhar mais a direito" da comunicação social.

Preencher o espaço em branco

Como é possível que uma tempestade cause inundações em Lisboa? Ora, não deveria a capital portuguesa estar preparada para tudo e mais alguma coisa. Pelos vistos não está e ainda há muito a fazer em termos de escoamento de águas. Se assim é na capital como será nas restantes localidades.

O mais engraçado é o facto de estarmos a presenciar estes problemas em directo e ao vivo. Como durante a tarde não há nada que noticiar, fala-se sobre chuva, problemas no trânsito e zonas da cidade que mais parecem lagos. 

Não percebo estes critérios editoriais nem as escolhas que são feitas para encher horas de televisão. Não seria mais interessante falar sobre o mundo que nos rodeia?

domingo, 21 de setembro de 2014

Olhar a Semana - Alguém viu a campanha?

Na próxima semana vamos conhecer qual será o candidato socialista a primeiro-ministro e futuro secretário-geral do partido caso o vencedor seja António Costa. Tendo em conta tudo o que se tem dito na campanha é caso para perguntar: onde está a campanha? Sim, porque em termos de propostas e ideias a corrida eleitoral nestas primárias está a ser bastante vazia. No entanto, perante os candidatos outra coisa não seria de esperar. Mentira, eu estava convencido que António Costa era mesmo bom e vinha acrescentar alguma coisa. Puro engano. 

Uma vez que a campanha socialista foi aquilo que se viu é natural que não tenha tido acompanhamento mediático. Ainda bem que a comunicação social deixou de dar cobertura a tudo e mais alguma coisa simplesmente com o intuito de encher papel e noticiários televisivos. Tenho a convicção que os debates foram demonstrativos da falta de qualidade dos dois homens que lutam pelo poder no PS. Na terça-feira temos um último debate para verificarmos de que forma vão sair os candidatos destas eleições. 

Perante este cenário o governo tem caminho para recuperar os pontos que perdeu ao longo destes três anos. O problema vai ser a reacção de Seguro a uma provável derrota. Conseguirá o ainda líder aceitar democraticamente uma derrota numa eleição que foi inventada por ele? A minha esperança é que sim, mas temo bem que não. 

sábado, 20 de setembro de 2014

Figuras da Semana XVII

As nossas escolhas desta semana são:


Por Cima:

David Cameron -  O primeiro-ministro britânico ganhou em toda linha. Primeiro porque deu a possibilidade de se realizar um referendo sobre a independência da Escócia e depois porque os escoceses votaram NÃO. A postura do chefe de governo também foi um exemplo ao longo de todo o processo que poderia dividir o Reino Unido para sempre. Não se confirmou a vitória do SIM nem a possibilidade de fracturas após a consulta popular. O mais importante foi Cameron ter unido o povo britânico bem como todos os partidos políticos em torno de um ideal de Nação há muito construído.

No Meio

População da Escócia - A atribuição deste lugar está mais relacionado com a forma como decorreu todo o processo eleitoral. No entanto, o orgulho escocês foi responsável algumas semanas perdidas. Em boa verdade os escoceses queriam o quê quando já têm os elementos definidores de um Estado soberano: Território, poder político e população.

Em Baixo

Alex Salmond - O "first minister of Scotland" perdeu a sua batalha e demitiu-se após a vitória do NÃO. Nesta guerra política a verdadeira intenção de Salmond era atingir David Cameron e o partido conservador inglês. Além do mais, os nacionalistas escoceses não conseguiram obter o apoio de Ed Miliband.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ganhou David Cameron

O referendo sobre a independência da Escócia teve o desfecho esperado. O NÃO venceu até com uma margem significativa sobre o SIM e agora volta tudo ao normal. Tal como afirmei muitas vezes este referendo foi muito diferente do da Catalunha porque no Reino Unido é mais uma questão de orgulho do que propriamente de "nacionalismo" como acontece em muitas regiões de Espanha. Até porque a Escócia é praticamente um país independente derivado da sua autonomia. 

Na minha opinião o que se passou uma guerra entre Alex Salmond, first minister of Scotland, e David Cameron. Do primeiro contra o segundo. Por isso é que o actual primeiro-ministro britânico é o grande vencedor da noite, independentemente do trabalho realizado pelos movimentos escoceses que lutaram pela manutenção do país no Reino Unido. Nem outra coisa faria sentido porque as desvantagens em caminhar sozinho são maiores do que as vantagens. Cameron esteve muito bem em todo o processo, em particular ao não criar obstáculos constitucionais e políticos aos líderes escoceses. Agora que o povo falou o Reino continuará Unido até sempre. 

Ao contrário do que apregoam muitos analistas nada se vai alterar naquelas bandas. Os britânicos são um povo pacifico e unido. E como já disse, esta campanha foi apenas uma questão de orgulho. 

O resultado do referendo escocês não vai mudar o sentido de voto dos catalães que irão às urnas em Novembro. Na Catalunha os perigos de ganhar o SIM ou o NÃO são muito mais imprevisíveis para Espanha, mas também para o resto da Europa. 

A Justiça e a Política

Nas últimas e recentes semanas a justiça portuguesa lançou para a opinião pública um interessante debate: a relação da Justiça com a Política, concretamente com os políticos.
De forma mais espaçada, mas concreta, enquanto muitas vozes contestavam a ineficácia da justiça perante os chamados crimes de colarinho branco, aqueles que envolviam arguidos “poderosos”, assistíamos à prisão de Vale e Azevedo, de Duarte Lima, às condenações do caso BPP e BPN. Agora, de forma muito mais concentrada no tempo, em pouco mais de duas semanas a justiça portuguesa foi a casa buscar Ricardo Salgado, condenou a prisão efectiva Armando Vara (entre outros) e condenou, com pena suspensa, a ex-ministra da educação Maria de Lurdes Rodrigues.
Perante estas realidades torna-se quase impossível a indiferença em relação à actuação da justiça ou que há, para a opinião pública, a percepção de uma mudança na Justiça em relação aos políticos e aos “poderosos”. E não apenas na opinião pública (sociedade). Basta recordar a recente proposta do (ainda) líder do PS, António José Seguro, em relação à legislação que regula a transparência no exercício de cargos políticos e públicos. Seja por razões eleitoralistas internas, seja por questões de populismo, seja por razões políticas efectivas.
No entanto, no que respeita a esta relação Justiça vs Política (políticos) há uma dualidade de convicções e opiniões. Contrapondo o regozijo e o gáudio de quantos aplaudem uma justiça igual para todos e sem qualquer tipo de diferenciação social, económica ou política, há os que temem que os actos de gestão política, que devem ser julgados no espaço político (confronto ideológico e político ou processo eleitorais, por exemplo) passem a ser objecto de acção jurídica ou judicial. Pessoalmente não creio que esta preocupação seja relevante, apesar de ser pertinente o levantar da questão, como o fez Porfírio Silva no seu blogue “Máquina Especulativa”. Independentemente da sintonia ou não em relação a algumas opiniões e convicções, importa referir que nutro por Porfírio Silva um elevado respeito, consideração e significativo gosto em o ler (e não é apenas por ser aveirense).
A justiça, face ao normativo do direito português (seja o administrativo, civil ou penal), tem mecanismos suficientemente claros para distinguir o que são factos e provas que conduziram ou não a um determinado (e comprovado) crime e consequente (ou não) condenação. E não estou, nem o pretendo, por manifesto desconhecimento dos processos, da matéria e do direito, fazer qualquer juízo em relação às decisões dos Tribunais, nos três casos recentes e já referidos.
O que penso poder ser mais preocupante é que esta suposta viragem da actuação da Justiça, e digo “suposta” porque entendo ser prematura a sua avaliação quanto a uma real e verdadeira alteração, pode inverter o principal fim do direito e um dos pilares basilares da democracia: uma justiça igual para com todos, independentemente da sua condição social, económica ou política. Isto é, o receio de que uma tão esperada mudança provoque na Justiça a “necessidade” de aplicar, agora, uma mão mais pesada para os políticos e “os poderosos”, do que para qualquer comum dos mortais.
Quer a opinião pública, quer a própria comunicação social, quer os políticos e os “poderosos”, quer a própria Justiça têm de percorrer um caminho de duplo sentido e de percepção comum de uma justiça igual para todos e sem qualquer distinção.
No caso da Justiça, esta linha da equidade, da igualdade e da imparcialidade afigura-se tão ténue e tão fácil de transpor.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Ou há moralidade, ou ...

António José Seguro sustenta na necessidade de "vencer a crise de confiança" entre os portugueses e a democracia. Para tal, uma das propostas que quer apresentar na Assembleia da República prende-se com introdução de novas regras e alterações das existentes no que diz respeito à transparência no exercício de cargos político e públicos, concretamente quanto a incompatibilidades e à obrigatoriedade da revelação do origem dos rendimentos dos titulares.
Na notícia veiculada pelo Jornal de Notícias é referido, por aquele órgão de comunicação social, que uma fonte (é pena a sua não referência) oficial do PS, em declarações à Lusa, sustentou como exemplos práticos do impacto de uma eventual aprovação das propostas de António José Seguro que seria impossível ao ex-ministro Victor Gaspar ir para o FMI e que o ex-ministro e ex-dirigente do PSD, José Arnaut, não teria podido exercer as funções de consultadoria e ter transitado para o banco de investimento internacional. Tudo exemplos do PSD, como se no universo socialista não existissem (ou tivessem existido) casos semelhantes, no mínimo.
Mas o que é mais curioso é que a proposta (que inclui 11 medidas) de António José Seguro surge, quero acreditar que por mera coincidência, numa altura em que "rebentaram" na praça pública os casos "Face Oculta" (Armando Vara) e da ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues.
Oh wait.... são socialistas. Oh wait outra vez e pior... foram ministros/amigos de José Sócrates.
OH WAIT (agora pasme-se e em maiúsculas)... há as primárias no PS e há também o velho ditado: "a dita cuja serve-se fria... assim, a modos que geladinha".
O que António José Seguro esquece (e esquece muitas vezes) é que o país não é feito de tolos e nem sempre come papas e bolos.
A crise de confiança dos portugueses na democracia e na sua estrutura (partidos e políticos) é mais de razões de credibilidade, justiça, ética, demagogia, ideologia, e do excesso de populismo e mediatismos dos seus agentes.
Não é, apenas e tão só, de razões de transparência ou criminais. Aliás, algo que, felizmente, a justiça actual tem vindo a mudar.
Era dispensável...
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