Ontem foi assunto do dia, de todo o dia,
as reacções do advogado de José Sócrates, João Araújo, em relação à
imprensa, nomeadamente à forma como tratou a jornalista do Correio da
Manhã e CMTV, Tânia Laranjo, no seguimento da decisão do Supremo
Tribunal de Justiça em rejeitar o quinto pedido de Habeas Corpus para o
ex Primeiro-ministro José Sócrates.
Primeira nota. É inadmissível e
inqualificável os termos e a forma com que o advogado João Araújo se
dirigiu à jornalista Tânia Laranjo que apenas se encontrava no exercício
das suas funções profissionais. É conhecida a relação tempestuosa de
João Araújo com o Correio da Manhã e a CMTV, baseada na conflitualidade
há muito existente entre José Sócrates e aquele órgão de comunicação
social. Independentemente do lado no qual esteja a razão, nada justifica
o comportamento do advogado. Nada justifica e não pode deixar de ser
criticado, goste-se ou não do CM e da CMTV… e eu, já por mais do que uma
vez tornado público, não gosto. Mas, tal como nos acontecimentos em
França, continuo “Charlie”.
Apesar da conflitualidade das relações
advogado/imprensa desde a primeira hora do processo, nada justificando
os acontecimentos de ontem, a verdade é que a própria imprensa alimentou
esta relação e deu palco a estes acontecimentos, mais por interesse
próprio (da imprensa) do que jornalístico (público).
Segunda nota. É muito interessante e
curioso verificar as reacções do universo da advocacia nacional. Uns
mantêm-se indiferentes, outros assobiam para o lado, e há quem,
publicamente, se insurja e se indigne com tais comportamentos por parte
do colega de profissão João Araújo. E a pergunta impõe-se: destes,
quantos tomaram alguma posição junto da Ordem? Quantos afrontaram o
sistema que alimentam e criaram? Quantos confrontam o corporativismo que
reina?
Terceira e última nota. É perfeitamente
legítima a posição da jornalista Tânia Laranjo em defender as suas
competências, a sua dignidade profissional e pessoal. Qualquer um se
sentiria ofendido e impulsionado a reagir judicialmente face à gravidade
dos acontecimentos. O que aconteceu, independentemente das razões
subjacentes, foi muito mau. Péssimo. Quanto a isto não há muito mais a
dizer.
Mas o que “espanta” é a reacção pronta
do director do CM, Octávio Ribeiro, saltando logo para a ribalta e para a
praça pública em defesa da sua jornalista e contra o advogado.
Considerando uma situação (realidade) normal isto seria algo expectável
em qualquer órgão de comunicação social. Só que há muitas diferenças de
realidades. Primeiro, um outro qualquer órgão de comunicação social
teria optado por muito mais recato, não preenchendo e enchendo linhas e
linhas de texto e minutos e minutos de imagens em defesa de causa
própria. Segundo, finalmente, tendo em conta as reacções de Octávio
Ribeiro (não confundir com a posição da jornalista Tânia Laranjo),
parece que o Correio da Manhã provou do próprio veneno. É que a
moralidade não é bonita apenas nos outros ou dos outros para connosco.
E, finalmente, o CM descobriu o papel dos tribunais, da ofensa à
dignidade e à honra, à privacidade, da preservação da inocência, da
verdade e da veracidade dos factos. Finalmente…







