quarta-feira, 21 de junho de 2017

Como se vive uma tragédia "à portuguesa"

A época dos incêndios volta a colar o povo à televisão, num ano em que a selecção joga uma competição desinteressante como é a Taça das Confederações. A estreia da equipa de todos nós e do prevaricador melhor jogador do Mundo não entusiasma as pessoas, os media nem o presidente da República e o primeiro-ministro.

Nos últimos dias a tragédia de Pedrógão Grande dominou a atenção de todos, como sucedeu com acontecimento semelhantes fora do país. Desta vez o luto chegou ao nosso burgo e num ápice repetem-se os mesmos gestos que vimos sempre que a desgraça atinge os outros.

O primeiro momento é marcado por notícias da tragédia que rapidamente são comentadas nas redes sociais. Também nestas situações é mais fácil estar sentado a descrever aquilo que as imagens televisivas passam. Num instante o país fica a saber que o Chefe do Estado se desloca para o local, embora sem perceber qual e a razão, talvez para apagar o fogo....Mas não. Afinal era para continuar a presidência dos afectos e decretar três dias de luto nacional. O mesmo aconteceu com o primeiro-ministro que não pode deixar o presidente ter todo o protagonismo.

O segundo momento é sempre o mais difícil porque aparecem as imagens que ninguém gostaria de ver, mas são colocadas no ar durante horas seguidas para se perceber a magnitude da tragédia. Nesta fase começa a nascer uma onda de solidariedade por todo o país, talvez influenciada pelos afectos presidenciais às vítimas. A verdade é que os portugueses são fantásticos neste aspecto porque conseguem estar do lado daqueles que mais precisam. 

Na terceira e última fase chegam os especialistas cuja primeira missão é apontar falhas em tudo e mais alguma coisa. Os peritos nem sequer devem saber ligar uma mangueira, mas é preciso encontrar um bode expiatório. Qualquer um começa a escrever ou a falar porque é aquilo que, neste momento, as pessoas querem saber.  A pior parte é mesmo esta em que saem cá para fora as inúmeras mentes brilhantes de Portugal. 

A facilidade com que se passa da tristeza para as críticas nestas situações, revela que o espectáculo é mais importante que a vida das outras pessoas. Num ápice, aqueles que perderam tudo nos incêndios já não interessa porque a prioridade passa por apontar falhas. 

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