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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

As minhas eleições - José Maria Montenegro (2)

Eu sei que todas as eleições são sempre «as mais importantes de sempre», «absolutamente decisivas» e «históricas», por muito que o day after nos devolva a normalidade, e a história prossiga no seu ritmo habitual.

Desta vez, contudo, tenho o pressentimento de que estamos a assistir a uma campanha que vai ficar na história. Não pelas razões de sempre.

Há uma dimensão popular nas campanhas – muito propiciada pelas rotineiras visitas das comitivas partidárias a feiras, mercados e ruas – que sempre rendeu belos tempos de antena. Esse lado mais popular é, em boa verdade, provocado (o termo é mesmo este «provocado») pelos repórteres que acompanham os candidatos e que acham que os diálogos fortuitos com os transeuntes são grandes furos jornalísticos.
Ao lado desta expressão castiça da campanha há uma outra que se joga nos grandes chavões. Tanto podem ser acusações (foram eles que chamaram a Troika! Eles propõem cortes de 600 milhões!) como podem ser grandes promessas (vamos criar um novo subsídio, vamos cortar algumas portagens, vamos criar 207.000 postos de trabalho, vamos acabar com a prova de acesso para a carreira docente!). Também estes costumam garantir espaço mediático inspirando manchetes ou, pelo menos, chamadas de primeira página nos principais jornais. E depois, claro, muitos cartazes e outdoors com os candidatos a sorrir e a pedir o voto.
Por via de regra, as promessas mais sedutoras, os outdoors mais triunfantes e os gritos mais sonantes no palanque, geram a «onda» de vitória. É sempre assim. Tem sido sempre assim.

E desta vez, será mesmo assim?

Do lado do PS tudo se repete. Com a tradicional aposta nas acusações e promessas (muitas promessas!), já para não falar dos outdoors (tanta foi a tinta que fizeram correr) e dos gritos comicieiros dos sempre disponíveis homens das bases que nunca desiludem (esta semana já tivemos Augusto Santos Silva, em Vila Real, e João Galamba a lançar António Costa em Viseu).

Do lado da Coligação, contudo, a opção é intrigantemente de ruptura. Onde estão as grandes promessas? Quais são? E os outdoors pelo país inteiro? Onde estão? E os gritos sonantes no palanque? Onde os podemos ouvir? É que só ouvimos que haverá redução gradual e moderada de impostos, e que a próxima legislatura, sob reserva de prudência orçamental, será de aposta no social, no combate à pobreza e na promoção da natalidade. Pouco, parco e nada sedutor.
Os livros dirão que esta estratégia da Coligação está votada ao insucesso. Dirão que é uma campanha sem esperança, sem propostas de futuro e, por isso, condenada à derrota eleitoral. As sondagens – e mais do que as sondagens, a dinâmica popular da campanha – parecem contrariar «os livros».


Estas legislativas de 2015 podem, de facto, ficar na história. Não pelas razões de sempre mas por revelarem «novos» eleitores. Não mais aqueles permeáveis às promessas e à tradicional «poluição» de campanha, mas aqueles que valorizam simplesmente a sensatez, a previsibilidade e o realismo. E se a esta sobriedade se associam os dados «moderadamente animadores» (sobre os índices de confiança dos consumidores e empresários, sobre o crescimento da economia, sobre a cobrança de impostos, sobre as descidas de taxas de juros, sobre as revisões dos ratings da República, sobre a balança comercial, sobre a procura interna, sobre a abertura do ano escolar, ou sobre a recuperação do emprego) o dia 4 de Outubro pode mesmo ser histórico. Suspeito que vai ser o dia em que os eleitores vão colocar Portugal à Frente e escolher a verdadeira Alternativa de Confiança …

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