terça-feira, 8 de setembro de 2015

As minhas eleições (1) - Graça Canto Moniz

Notas sobre as próximas eleições

No sábado passado estreou, em Portugal, “Show me a hero”, a mais recente mini série da HBO que promete dar que falar. Além da participação de Oscar Isaac (o incrível Abel Morales de “A most violent year” (2014), dirigido por J. C. Chandor) o título, e sobretudo este primeiro episódio, fez-me lembrar o momento presente que o nosso país vive. Eu passo a explicar.

A trama gira em torno de um vereador (Isaac) que é levado a concorrer contra o enraizado Mayor de Yonkers, no poder há mais de 10 anos. O ato heroico presente no título não reside na conquista do cargo e na consequente derrota de um dinossauro republicano. Antes, o título fará sentido, com o desenrolar da série, consoante o desempenho do novo Mayor, cujo legado que recebe exige que dele nasça um herói.

Se Passos Coelho (PC) é ou não herói ficaremos a saber com o resultado eleitoral de 4 de outubro que, sobretudo, avaliará o desempenho do executivo por si chefiado. Contudo, convém não esquecer que em 2011, o líder da coligação encontrava-se numa situação semelhante à do jovem Mayor de Yonkers, quando recebeu o pesado legado de dois governos socialistas.

De peito inchado e rosto deselegantemente transpirado, a fazer frente a PC, está António Costa, um Mayor também com laivos dinossáuricos mas com aspirações mais ambiciosas que o jovem Isaac. Contudo, Costa atingiu o ponto em que tudo o que acontece o pode prejudicar, até o passar do tempo. Recentemente foi José Sócrates que saiu da prisão preventiva para prisão domiciliária: a concessão de mais liberdade ao antigo primeiro ministro do PS implicou a prisão do futuro de António Costa. Em Melgaço, Costa bem tentava dissertar sobre o Sistema Nacional de Saúde, a “privatização” da Segurança Social, as crueldades do governo ao Estado Social, mas não consegue deixar de ser interrompido pela perguntinha sobre Sócrates. Uma e outra e outra vez. Os dias que antecederam o “regresso” de Sócrates davam à campanha socialista o trunfo dos lesados do BES e as dificuldades da venda do Novo Banco, mas o regresso do ex PM tudo abafou.


Pois é: José Sócrates que, em 2011, quase levou o país à bancarrota, o mesmo que “não tinha a mínima dúvida” de que o défice ia baixar para 4,6% em 2011, o mesmo que em Janeiro de 2011 anunciava uma “folga de 800 milhões nas contas públicas, tem, em 2015, depois de 4 anos heroicos de muitos portugueses, o poder de interferir nas eleições legislativas de 4 de Outubro, como já anunciou. Alguns dirão que está profundamente ferido, com a recusa de afeição, enquanto este preso, dos seus camaradas mas a mim parece-me uma questão de ego: em jogo está a campanha não do partido que o elegeu como secretário geral mas a sua campanha pessoal, a sua “narrativa” de que é um preso político, detido para impedir que o PS ganhe as próximas eleições. Ao terceiro dia, Sócrates já falou. Mas a procissão ainda vai no adro.

Texto de Graça Canto Moniz

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