segunda-feira, 20 de abril de 2015

Há mar e mar...

zona economica exclusiva portuguesa.jpgpublicado na edição de ontem, 19 de abril, do Diário de Aveiro

Em 2009, o Portugal apresentava na ONU uma proposta para alargamento/extensão da plataforma continental que implicava o aumento das 200 milhas marítimas para 350 milhas. O processo vinha a sofrer constantes obstáculos, nomeadamente por parte da vizinha Espanha e a polémica em torno das Ilhas Selvagens do arquipélago madeirense. No início deste mês, Espanha torna o processo mais aberto e cede nas suas exigências permitindo que a análise final ao pedido português tenha “luz ao fundo do túnel” já no próximo ano.
O que para a maioria dos portugueses se afigura como algo distante, abstracto, irrelevante, reveste-se de um colossal potencial indescritível. Só para ser ter uma noção, esta extensão da plataforma continental (que, na prática, submerge Portugal pelo fundo do oceano) representa 40 vezes o tamanho de Portugal territorial (são cerca de quatro milhões de quilómetros quadrados), transformando o país na décima maior zona económica exclusiva do mundo. Mas perante todos estes dados e factos, perante todas as potencialidades que se afiguram ao nível da economia (pesca, turismo, desportos náuticos, lazer, exploração mineral e petrolífera, fluxos comerciais marítimos) das ciências e investigação ou da geopolítica (estratégia política, segurança e militar), perguntará o senso comum porque é que não “batemos palmas” ou porque é que continuamos com os “cofres cheios mas de bolsos vazios”.
Não se percebe, de facto, como é que um país com toda esta riqueza por explorar, com todo este recurso natural, empobrece, não o consegue (ou sabe) explorar, não lhe retira o devido valor. A nossa história reservou-lhe um lugar especial, basta lembrar os descobrimentos (e todo o seu impacto) ou até mesmo o desenvolvimento da região de Aveiro assente na pesca, na construção naval e no comércio do sal. Mas tudo foi história.
Das ocidentais praias lusitanas e desses mares nunca dantes navegados, facilmente destruímos a nossa frota pesqueira que foi trocada, anos a fio, por promessas e subsídios destruturantes para o sector. A quota pesqueira foi sendo “engolida” por uma maior capacidade de pressão de países concorrentes no seio das instituições internacionais. O turismo ligado ao mar, essencialmente, confina-se ao Algarve, como se o mar apenas se destinasse ao mergulho após 2 horas a “torrar ao sol”. É certo que há vontades políticas e empresariais para retomar um olhar muito especial e particular para o mar e para a recentemente criada Economia Azul. São exemplos disso várias plataformas e clusters, como por exemplo o Oceano XXI ou o Fórum Empresarial da Economia do Mar; várias revistas/jornais e outras publicações que surgem na área; vários políticos interessados no desenvolvimento da economia azul, como é o caso do aveirense Ulisses Pereira ou da eurodeputada Cláudia Monteiro de Aguiar; a manifestação de políticas ligadas ao mar como a Estratégia Nacional para o Mar 2013-2020; um aproximar da vertente militar e de segurança (caso da Marinha) à sociedade civil e um entrelaçar de conhecimentos e objectivos; ou ainda vários centros de investigação, normalmente associados ao ensino superior como o ex-Centro de Oceanografia, agora MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Universidade de Lisboa. Aliás, acrescente-se que, num breve olhar sobre os cursos superiores, no site da Direcção Geral do Ensino Superior / DGES, encontramos, pelo menos, nove cursos (1º ciclo/licenciaturas ou 2º ciclo/mestrados) como Biologia Marinha, Biologia Marinha e Biotecnologia, Ciências do Mar, Ciências do Meio Aquático, Meteorologia, Oceanografia e Geofísica, Engenharia e Arquitectura Naval, Engenharia de Máquinas Marítimas, Engenharia de Sistemas Electrónicos Marítimos ou ainda Gestão das Actividades Marítimas e Portuárias.
Só que caminhamos tantas vezes a passo de caracol, sem consolidar os esforços num objectivo e princípio comuns, sem interligações estruturais entre as diferentes entidades e instituições. Falta, como dizia Ulisses Pereira, de facto, "concretizar o verdadeiro activo económico que o mar representa". Sem isso, sem dar expressão prática e resultados, é trabalho em vão.
O mar é o maior “trunfo” para podermos ultrapassar esta crise e a realidade que Portugal vive nos dias de hoje, potencializando o desenvolvimento nacional dada a sua importante escala económica mundial e a riqueza que insere em si mesmo. Devia ser desígnio nacional encará-lo como um valor de modernidade, como uma oportunidade de futuro, como um património único, para além da tradição, da história e da identidade. Para Portugal, o mar não pode significar, tão somente, passado, tem de ser encarado como futuro. Quem sabe… o único futuro que nos resta.

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