quarta-feira, 4 de março de 2015

A culpa é (sempre) do mordomo

publicado na edição de hoje, 4 de março, do Diário de Aveiro.



Diz-se que “mais vale a dura verdade que a melhor das mentiras”. Tomara que alguns sectores da nossa sociedade tivessem esta frase como referência, como, por exemplo, o sector económico, o financeiro e o sector político.
No primeiro caso temos um “ex” gestor de topo e de referência empresarial, Zeinal Bava, que, em plena Comissão Parlamentar de Inquérito, afirma não ter memória, consegue desresponsabilizar-se de tudo e tornar-se (para além do ridículo e viral) um simples e mero ‘amador’ na gestão. No segundo caso, o “ex-dono disto tudo” e o banco de referência nacional tornam-se arma de guerra familiar e num verdadeiro enredo siciliano. Ninguém usurpou nada, ninguém faliu nada, a responsabilidade de tudo era do “contabilista”. No caso da política, a realidade é demasiado frustrante e angustiante. Nada que nos admire tal é a imagem de fragilidade ética transmitida por parte da classe política. A verdade é que, salvo raras excepções, os discursos e as retóricas políticas não correspondem às realidades conhecidas e vividas. Mais… a seguir a uma constatação e a uma dúvida tornadas públicas, raramente surge um esclarecimento capaz e factual ou o assumir as responsabilidades. Os exemplos são muitos e vêm de muitos quadrantes políticos, seja a nível partidário, seja a nível governativo.
Ao caso, não vale a pena Pedro Passos Coelho vir lamentar-se de que está em ano eleitoral e que há quem se preocupe publicamente muito com ele. Essa é a história da política em anos eleitorais e da pressão pública sobre os candidatos. Sempre foi e sempre será, com toda a naturalidade. Até porque, como diz a sabedoria popular, quem não deve não teme. Fosse ele candidato norte-americano, nem que fosse à comissão de moradores do bairro, e seria “esfolado vivo”. Fosse ele deputado ou primeiro-ministro de um país nórdico (p. ex. Suécia ou Noruega) e à primeira contribuição não paga seria exposto em praça pública.
Mais do que a averiguação de eventuais responsabilidades é a forma como Passo Coelho, em jeito de “conto ou fábula infantil”, explica os factos. Lembremo-nos, por exemplo, a trapalhada com a Tecnoforma (explicações tardias, faltas de memória - agora chamadas de “Bavas” em vez de “brancas” - quanto a exclusividades e valores recebidos, documentos desaparecidos). Agora, veio a público nova polémica envolvendo o nome do Primeiro-ministro (raio do ano eleitoral) com a dívida, acumulada durante cinco anos, à Segurança Social (2880 euros, acrescidos de juros de mora, perfazendo o total de 3914 euros). Mas mais do que a polémica factual é a falta de respostas cabais para perguntas simples/pueris: erro processual da Segurança Social (palavras do ministro da tutela) ou incapacidade da Segurança Social (palavras do próprio Primeiro-ministro). Nem uma palavra em relação ao que, de facto, aconteceu; porque não foi paga a contribuição (como qualquer trabalhador), sendo esta uma obrigação mais que conhecida e da sua inteira responsabilidade; porque não foi o contribuinte Passos Coelho notificado, como são milhares e milhares de portugueses; porque é que falta capacidade processual e tributária à Segurança Social; porque é que o facto surge, só agora, em pleno ano eleitoral. Estas são, entre muitas outras, algumas questões que deveriam preocupar Passos Coelho numa explicação cabal ao país, porque a deve por força do cargo que ocupa.
Mas não se pense que à oposição basta vir de bandeira em riste a terreiro bradar a sete ventos que o “rei vai nu”… porque, no caso da imagem e ética política, são poucos os que ainda vestem roupa. Nem ao PS recorrer a todas as pedras que lhes surgem no caminho, porque os telhados de vidro são imensos e ainda frescos. Por exemplo, basta recordar o episódio de António Costa quando comprou uma habitação com recurso a crédito bancário e não pagou a contribuição autárquica nem a SISA (à data). Justificação do actual líder socialista: “tudo se deveu a meros lapsos do banco e da secretária que lhe preencheu a declaração”. E mais… nem a “arma socialista” do ex-presidente do Instituto da Segurança Social (do tempo da governação de José Sócrates), Edmundo Martinho, que acusa Passos Coelho de evasão contributiva, é mortífera e muito menos causará qualquer beliscão ou arranhão. Porque o feitiço vira-se contra o feiticeiro. Primeiro saber se uma dívida de cinco anos à Segurança Social, no valor de 2800 euros, é evasão contributiva ou fruto de algum recálculo. Segundo, importa questionar o ex-presidente o porquê do ISS não ter cobrado, atempadamente, nem notificado, a dívida ao cidadão Pedro Passos Coelho, precisamente quando Edmundo Martinho, era o responsável máximo pela competência da estrutura que dirigia.
Depois admiram-se da malta não votar....

5 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

concordo com tudo

A questão é que Passos sempre deu explicações para tudo. O que não acontece muitas vezes com os socialistas

migas (miguel araújo) disse...

Francisco, meu caro amigo.
A questão não está em se deu ou não explicações, se explica mais que o PS ou menos.
Eu também posso explicar tudo e mais alguma coisa.
A questão importante e principal é o tipo de explicações, o conteúdo das mesmas. Se são convinvcentes ou não, se correspondem às realidades e aos factos ou não.
Aliás, Passos Coelho explica, de facto, muito... tanto que todos os dias vem com uma explicação nova e com mais tiros nos pés.

Francisco Castelo Branco disse...

Veremos as explicações que ele dará em sede própria, ou seja, no Parlamento.

A partir daí, tal como aconteceu com o caso Tecnoforma, esta situação fica encerrada

migas (miguel araújo) disse...

Não dá porque a maioria vetou. E nem precisava de o fazer porque teria sido preferível uma única explicaçõ, mas eficiente. Logo ao rebentar a polémica.
E as explicações, neste caso, deve-as primeiro aos milhares de portugueses que fizeram um esforço colossal para contribuirem para a recuperação do país. Era tudo, como no primeiro caso, escusado... e muito.

Francisco Castelo Branco disse...

A explicação virá no debate quinzenal. Perante os deputados e milhares de portugueses

Share Button