domingo, 1 de fevereiro de 2015

A Europa vê-se ‘grega’…

publicado na edição de hoje, 1 de fevereiro, do Diário de Aveiro.

As recentes eleições na Grécia têm marcado a agenda política nacional e internacional ou as discussões políticas mais ‘caseiras’. Os gregos, de forma legítima e democrática, marcaram a sua posição anti-austeridade e de oposição à Troika.
Mas a posição da Grécia, o discurso radical do Syriza em matéria da dívida ou as afirmações e as opções políticas já tomadas pelo novo governo, são o “mal menor”. Depressa desvaneceu o encanto do “cisne”: primeiro com a surpresa da coligação governamental com direita radical do “Independentes Gregos” (muito facilmente surgirão as divergências ideológicas que estão para além das questões financeiras… multiculturalidade, nacionalismo, defesa, emigração, xenofobia, cultura, área social, entre outros); segundo com a posição das relações externas claramente contrária ao que tem sido a movimentação política dos países do leste europeu face à Rússia, à União Europeia e à NATO (veja-se o caso da Ucrânia) podendo criar um isolamento geopolítico não favorável aos gregos; e terceiro, mais relevante, a moderação do discurso anti-Troika e anti-austeridade que irá acentuar-se ainda mais com o desenrolar da governação e a confrontação com a realidade da falta de dinheiro e de investimento. Aliás, o próprio novo ministro das Finanças foi o primeiro a dar esse sinal face às posições da Alemanha e do BCE em relação à renegociação da dívida grega ao afirmar que algum do discurso eleitoral foi “bluff político”.
No entanto, importa destacar que neste renascer grego todos os quadrantes vão ter os seus “sapos” para engolir: a esquerda radical pela moderação do discurso e pela coligação governamental à direita; o centro-esquerda socialista pelo impacto do resultado eleitoral do PASOK e por não ter sido um partido socialista, depois do falhanço “Hollande”, a marcar uma posição de força com a União Europeia; a direita e o centro-direita por, mais uma vez, se colocar em causa as políticas monetárias e financeiras e os programas de ajustamento das dívidas soberanas (mesmo que para alguns isto não passe de um “conto infantil”).
Mas mais do que tudo isto, há, em toda esta mudança na Grécia, um aspecto que merece especial valorização e um reconhecido mérito político. A forma como o novo governo helénico tem questionado os mais elementares fundamentos e princípios da União Europeia do ponto de vista da solidariedade entre os 28, da decisão conjunta, da igualdade dos deveres e direitos dos Estados Membros e não da submissão às “vontades” de dois ou três Estados ou de uma entidade (BCE).
E é neste questionar do actual projecto europeu e do futuro da União Europeia (algo que interessa aos russos minar tal como o fazem via Ucrânia) que se deve reconhecer o mérito político de Alexis Tsipras. O efeito dominó das eleições gregas dificilmente se repetirá, em si mesmo, noutros países, por várias razões: sistemas eleitorais e democráticos distintos, a realidade do país que continua fortemente intervencionado, a excessiva dependência económico-financeira externa da Grécia, por exemplo. No entanto, este "cartão vermelho" à União Europeia poderá criar uma movimentação mais global que pressione as suas instituições para a forma como se tem desenvolvido o seu funcionamento, como têm sido aprovadas e implementadas as medidas e as políticas europeias na comunidade ou como se têm relacionado os 28 Estados-Membros, num permanente conflito de interesses individuais esquecendo o princípio da unidade e solidariedade comuns.

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