quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Saúde em ‘coma induzido’.

publicado na edição de hoje, 28 de janeiro, do Diário de Aveiro.

Não vale a pena tentarmos iludir a realidade e os factos. A saúde está mal em Portugal. E a amálgama de circunstâncias, de contextos, de episódios é tal que, neste momento, afigura-se complexo isolar acontecimentos e factos. Não me refiro à infelicidade do número de mortes que, por meras circunstâncias médico-biológicas, normalmente ocorrem nos picos do inverno. Isso é a lei da vida, a incapacidade do organismo humano vencer a natureza. Mas não é honesto, nem legítimo, que sob essa perspectiva se pretenda camuflar outros elementos, outros dados e outras realidades preocupantes e inaceitáveis em pleno século XXI. Um acto médico é, em si mesmo, um episódio de risco, com elevada dependência da condição humana (seja pelo paciente, seja pelo profissional). Há que saber, em todas as circunstâncias, perceber esta dimensão. Daí que, por exemplo, a morte numa urgência seja algo inerente ao risco profissional e ao acto médico, apesar da tragédia e da irreversibilidade. Mas nem todas as mortes numa urgência hospitalar estão circunscritas a esta realidade, não sendo, por isso, aceitável que, com a frieza dos números e das estatísticas, se escondam acontecimentos que estão para além do exercício da medicina. Não é, nem pode ser encarado no mesmo contexto um falecimento no decurso de um acto médico com alguém que morre por estar há quatro, seis ou nove horas à espera, numa maca ou numa cadeira de um corredor de um serviço de urgência, para ser tratado. Em pouco mais de um mês… nove casos no país.
Olhemos, como o fazemos em outras circunstâncias, para os chamados países economicamente desenvolvidos e sustentáveis, por exemplo, do norte da Europa. Na base de uma economia forte e produtiva, estruturada em regimes laborais, fiscais e financeiros, eficazes, estão dois pilares sociais bem solidificados, aos quais se apontam muito poucas falhas: educação e saúde.
Em Portugal, se a educação é aquilo que sabemos e se conhece, a saúde, essa, entrou em coma.
O risco da “dieta do Estado”, apesar do necessário emagrecimento da coisa pública, tem os seus custos quando as reformas que se implementam apenas procuram a mera redução de custos (muito para além da Troika) sem que daí resulte maior eficácia e eficiência na prestação dos serviços públicos essenciais. A forma como o país abandonou os cuidados primários, por exemplo, ao nível dos Centros de Saúde e dos respectivos serviços de urgência simples; a forma como se mapearam e concentraram os centros hospitalares, perdendo-se proximidade e respostas médicas mais descentralizadas para as populações; a forma como se desinvestiu em várias regiões do país, para se (re)investir num reduzido número de pontos geográficos (Lisboa, Porto, Coimbra); tem tido, claramente, impactos muito fortes na vida dos cidadãos e no estado da saúde. Mas não se culpe apenas e tão só o Estado (Governo) pela forma como tem descuidado e destruído o Serviço Nacional de Saúde. A força do interesse privado na política da saúde nacional tem sido foco de conflitualidade e de impacto no SNS (veja-se o caso recente das suspeitas no Centro Hospitalar do Baixo Vouga com as cirurgias ‘fantasma’), sem esquecermos que as próprias estruturas dos profissionais da saúde não podem, nem devem, sacudir responsabilidades e serem apenas parte das ‘vítimas’ do actual estado.
Quando a manipulação dos números dos factos servem para definir novas estratégias e políticas, podemos estar perante o mundo da retórica política, das ideologias, da engenharia estatística. Quando os números e os factos têm impacto na vida (literalmente) das pessoas, quando pessoas perdem a vida perante realidades que interessa manipular, isso já não é política, não é gestão, não é matemática… é Imoralidade.

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