O caso despoletou um misto de surpresa e apreensão há mais de meio ano.
Um
dos maiores bancos portugueses, aquele sobre quem recaía a epíteto de
“o coração da economia e das empresas, aquele que tinha na sua cadeira
do poder “o dono disto tudo”, colapsou embrulhado num manto de
ilegalidades graves.
Daqui
resultaram investigações judiciais, a intervenção (mesmo que
demasiadamente tardia) do Banco de Portugal, a intromissão do Governo no
processo, detenções, acções judiciais ainda em curso e prolongadas
Comissões de Inquérito Parlamentares como à maratona de audiências que o
país assistiu ontem e que levou Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi à Assembleia da República.
Quando
se esperavam intervenções (e já agora, também muito maior acutilância
por parte dos deputados) que clarificassem os enredos financeiros que
levaram ao naufrágio do BES, quando se esperavam intervenções que
esclarecessem os processos e procedimentos ilegais cometidos, quando se
esperava o reconhecimento de responsabilidades e, no mínimo, algum
arrependimento (Ricardo Salgado, em poucas horas, passou de “Dono Disto
Tudo” para “ Vítima Disto Tudo”), eis que a audiência na Assembleia da
República (CIP – caso BES) de ontem dos primos Salgado (Ricardo e Ricciardi)
resultou numa fotonovela siciliana (ao jeito do confronto entre
“famílias da máfia italiana”) em que um primo “apunhala” o outro pelas
costas apenas para garantir a “cadeira do poder”.
Os
pequenos accionistas, os depositantes, as pequenas e médias empresas,
os contribuintes, o Estado, os funcionários do banco… são “danos
colaterais” que tiveram a infelicidade de confiarem numa instituição
completamente minada, armadilhada, a definhar. Instituição que numa
perfeita fábula de La Fontaine seria o “lobo com pele de cordeiro”.
Para
lavarem “roupa suja familiar” usem uma lavandaria qualquer perto de
casa. Poupem o país que tem coisas mais sérias com que se preocupar. A
começar pelo próprio Novo Banco, resultado da implosão do BES.

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