segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"Olhar a Semana"... dos incidentes e acidentes políticos

1. Puxão de orelhas orçamental
A acusação é do FMI no final da primeira monitorização pós-programa de assistência financeira: o Governo descansou à sombra da bananeira. O Fundo Monetário Internacional aponta um défice para este ano acima dos 5% e face ao orçamento apresentado um défice para 2015 acima dos 3% (3,4%), previsão ainda mais pessimista do que a da OCDE. Segundo informação divulgada pela Agência Lusa, o FMI, liderado por Christine Lagarde, está mais pessimista quanto à consolidação das contas públicas do que estava durante o processo de ajustamento que decorreu entre 2011 e este ano.
2. Resgatar o que há muito não é resgatável.
A polémica em torno dos destinos e do futuro da PT continua de vento em popa. Agora é a troika nacional formada conjuntamente à direita e à esquerda (Bagão Félix, Freitas do Amaral, Pacheco Pereira, Silva Peneda, Ferreira do Amaral, João Cravinho, Carvalho da Silva e Francisco Louçã) para a salvação da Portugal Telecom. Troika que não vimos com a mesma determinação para a Galp, a EDP ou o futuro da TAP, a títulos de exemplo. Troika que não vimos, antes pelo contrário quase toda a gente fechou os olhos e assobiou para o lado, quando o anterior governo e a administração da PT blindou e aniquilou a OPA da Sonae à empresa, mas, em contrapartida, foram a correr para os braços dos capitais brasileiros. A PT há muito que perdeu, face à gestão de todo o seu universo empresarial, qualquer oportunidade de resgate nacional, até porque já há alguns nos que deixou de ser portuguesa. Infelizmente para Aveiro e região face à perspectiva de um futuro (desfecho) cinzento para a PT Inovação.
3. Portugal, país de doutores e engenheiros
A chanceler alemã (e a Sra. da Europa) escandalizou a península ibérica ao afirmar que Portugal e Espanha têm licenciados a mais. E logo ela que, nos últimos anos, tem piscado o olho a um conjunto significativo de engenheiros portugueses. E se analisarmos as estatísticas, Portugal tem 19% da sua população licenciada, sendo que a média europeia é 25,3% e a Alemanha tem um valor a rondar os 25%. Grande marota esta chanceler, sempre a meter o bedelho onde não é chamada. Só que, apesar do número significativo de “virgens ofendidas” que saltaram logo para a praça pública exigindo a “fogueira inquisitória”, fica a questão: será que Merkel disse algum disparate? Basta olharmos com alguma frieza para a nossa realidade: número elevadíssimo de jovens licenciados no desemprego; excessivo número de recém-licenciados que emigraram; excesso de cursos desfasados da realidade económica, empresarial, científica, social e cultural portuguesa; desinvestimento nas áreas científicas e de investigação; desinvestimento no ensino superior e falta de estruturação do ensino intermédio e profissional (sendo que este é, infelizmente, visto como o ensino dos excluídos, dos pobres e dos coitadinhos); e já para não falarmos nas ruas da amargura em que se encontra a área da formação. Portanto, repete-se: Angela Merkel disse algum disparate?
4. O desrespeito institucional
Por fim, a semana fica ainda marcada por dois incidentes (ou ‘acidentes’, se quiserem) institucionais. O primeiro aponta para o fim do mito timorense. A “paixão” institucional e a ligação efectiva que unia Portugal e Timor parece ter chegado ao fim com a polémica que envolveu a Justiça, o Direito e a Investigação. Um eventual desfecho desfavorável num processo judicial ligado ao petróleo e que envolvia membros do governo de Xana Gusmão, fez com que este cedesse à pressão e expulsasse os magistrados e oficiais de justiça portugueses que se encontravam em Timor. Com uma forte ingerência do poder político na justiça, a pressão dos negócios do petróleo falou mais alto que o bom-senso e o valor do direito. Não vai ser fácil, face às críticas e às vozes que se levantaram contra esta situação, Portugal voltar a olhar para Timor com o mesmo “fogo da paixão” da sua libertação da Indonésia, da sua independência e da criação da mais jovem nação do mundo.
O segundo caso, nacional, leva-nos ao desrespeito pela democracia, pela política e pelo Parlamento, com a triste figura a que o ministro da Economia, Pires de Lima, se prestou na passada quinta-feira quando se dirigiu à Assembleia para explicar o orçamento do seu ministério para 2015. Quer a linguagem, quer a postura, quer o completo desacerto das informações prestadas, levaram a que, em menos de dois dias, o ministro e a política fossem alvo da maior chacota nacional. Lamentável. Por menos, um ex-ministro da economia do governo de Sócrates apresentou a demissão.

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