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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Como o jornalismo se põe "a jeito"... ou a "jeitinho".

Declaração de interesses I: não sou socialista, não votei PS, não elegi José Sócrates nos seus dois mandatos.
Declaração de interesses II: o ex primeiro-ministro está em prisão preventiva como medida de coação aplicada na sequência do processo de investigação e como indiciado nos crimes de branqueamento de capitais, fraude fiscal e corrupção.
Nota: depois da investigação e da fase de inquérito, segue-se a fase de instrução e o julgamento. Até ao final deste, a José Sócrates (como qualquer outro cidadão) é-lhe reconhecida a presunção da inocência até prova em contrário.
Posto isto...
Não é tarefa fácil, como muitos saberão por experiência (mesmo os mais críticos), o acompanhamento jornalístico de um caso exponencialmente mediático como este processo "Marquês" que envolve José Sócrates. Principalmente entre a passada sexta-feira e a noite de segunda-feira, em que os acontecimentos foram claramente surpreendentes e deixou todo o país suspenso e boquiaberto. Esta é a realidade. Daí que são perfeitamente entendíveis e desculpáveis muitas das situações que encontrámos nos directos e nos espaços informativos em estúdio.
Mas, como em tudo na vida, no jornalismo, e por maioria de razões óbvias, muito mais no jornalismo, há limites, há fronteiras, há rigor profissional, há os factos e a verdade, há a ética e a deontologia.
Mesmo assim, ainda dou de "mão beijada", até por eventual responsabilidade do sistema educativo/formativo, que se atropelem conceitos e princípios jurídicos do processo: confusão entre indiciado e acusado, a não percepção das fases do processo, etc. A este propósito, e passe a publicidade, aconselho vivamente a frequência do Curso de Direito da Comunicação, do Instituto Jurídico da Comunicação da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (simplesmente, soberbo).
Sabe-se, por formação e ensino, que não há jornalismo bom e jornalismo mau. Ou há jornalismo ou não há jornalismo. Pela sua natureza e princípios, ou existe ou não existe.
Pela mesma razão de valores ou há jornais ou há, simplesmente, um conjunto de folhas impressas com caracteres e fotografias; ou há informação em televisão ou há espaços de entretenimento (mais ou menos conseguidos). Por isso, o que surpreende não é o aparecimento, num determinado conjunto de papéis impressos, de relatos sobre o número prisional de José Sócrates (pelos vistos, 44) ou se comeu cozido à portuguesa ao almoço e peixe ao jantar; só faltava mesmo saber a côr dos lençóis e das toalhas. O que surpreende, e, principalmente, preocupa significativamente é ver o Diário de Notícias "preocupado" com o 'design de interiores' do espaço prisional («José Sócrates está numa cela com pátio privativo mas sem banho quente. O preso nº. 44 ficou na cela onde esteve o ex-director do SEF. E pode usar o ginásio ou o pátio para jogging».) ou a TVI24 "preocupada" com o tempo de lazer e ocupação de tempos livres, vulgo ATL, de José Sócrates («Sócrates: cadeia com ginásio e workshops de tapeçaria de Arraiolos»). Não desculpando, nem deixando de criticar, ainda se poderá dar o "benefício da dúvida" dado o mediatismo dos acontecimentos e a necessidade de se produzir trabalho.
O que não pode ficar impune (relembro as declarações de interesses e a nota iniciais), deixar de ser criticado e registado publicamente, é a forma inqualificável, indigna e revoltante, com que se pretende fazer (suposto) jornalismo sem o mínimo respeito pelo rigor, pela verdade, pela deontologia, pela não observância de juízos de valor (claramente manifestados e expressados), como o descrevem estes dois textos ("o recluso 44, segundo o CM" e «A verdade dos factos»), os quais comparando com mais recente artigo de opinião de José Manuel Fernandes, este, quase que se afiguraria como um hino de louvor ao ex primeiro-ministro.
É a negação do jornalismo; é algo de inqualificável. E ainda há quem se queixa das "acusações" de Mário Soares. Enfim...
A saber: onde anda a ERC? onde anda o Sindicato? onde anda a Comissão da Carteira?

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