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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Entrevista a Fátima Araújo - Jornalista da RTP






1- Tendo em conta a sua actividade como jornalista porque decidiu escrever este livro?

Porque entendo que todos os cidadãos, independentemente da sua actividade profissional, têm um dever de intervenção cívica, de contributo social e de envolvimento nas questões que, directa ou indirectamente, acabam por implicar a sociedade e o país como um todo. É o caso das questões da deficiência.

O convite para eu passar para o papel esta reportagem em forma de livro surgiu no âmbito duma colaboração entre a Associação do Porto de Paralisia Cerebral e a empresa IMOA - Cloathing for All, que produz roupa inclusiva, para deficientes, acamados e pessoas com necessidades especiais, mas que também pode ser usada por qualquer pessoa sem qualquer problema físico. Essa empresa testou modelos de roupa em voluntários da Associação e quis dar visibilidade à causa da Paralisia Cerebral e aos projectos sociais e profissionais em que alguns portugueses com Paralisia Cerebral estão envolvidos.

Desafiaram-me, eu escolhi 5 jovens portugueses com Paralisia Cerebral (um bailarino, uma socióloga, uma professora e dois informáticos)  e conto, nestas 142 páginas, que, não obstante as suas limitações físicas, eles são casos de sucesso, de empreendedorismo social e laboral, de integração social bem sucedida, de auto-aceitação e de auto-superação, jovens exemplos de perseverança, exemplos de pessoas úteis e válidas, jovens exemplos de interacção para desmistificar clichés e preconceitos que a sociedade continua a ter em relação aos deficientes,
exemplos de pessoas que ajudam a descontruir imagens erradas que muita gente poderá ter sobre a deficiência e que ajudam a contrariar os rótulos que muitas pessoas atribuem aos deficientes, quando pensam ou dizem que são "uns coitadinhos", "uns infelizes" ou "um fardo".

Para demonstrar que esses clichés estão errados e por que razão estão errados, neste "Por acaso", falo de questões relacionadas com os projectos em que esses cinco jovens portugueses com Paralisia Cerebral estão envolvidos, questões relacionadas com os seus afectos, as suas relações pessoais e a sua sexualidade, questões associadas à sua fé e à forma como a prática desportiva é determinante para a sua auto-aceitação e superação.

2- Acha que a profissão de jornalista é um bom veículo para iniciar uma carreira de escritora?

Tenho muitas reservas em relação à moda a que temos assistido, nos últimos anos, de os jornalistas publicarem livros... Eu própria questionei-me se, ao lançar este texto jornalístico em forma de livro, não estaria a arriscar ser rotulada com aquela frase que tantas vezes ouvimos do "olha mais uma armada em escritora". Apesar de eu considerar que os jornalistas são contadores de histórias por natureza, entendo que a Literatura, a narrativa literária, a linguagem metaforizada da Literatura e rica em figuras de estilo têm uma essência própria que não encontro em muitas publicações que surgem no mercado. Daí, eu própria também não considerar este "Por acaso" um livro. Este é um texto jornalístico, uma reportagem em forma de livro, não é um romance, uma ficção, um conto ou qualquer outro género literário que siga as características literárias que admiro nos verdadeiros e bons escritores. Eu não sou escrtitora, sou jornalista, e "Por acaso" não é um livro, é uma reportagem impressa em forma de livro.

3- Porque razão escolheu este título para a sua obra?
 
Porque, quando convivi com os jovens com Paralisia Cerebral que são os protagonistas destes livros, um dia, um deles, diz-me "Eu sou a Ana Catarina, que por acaso tem Paralisia Cerebral". Quando a ouvi dizer "por acaso", tive aquele "clic" que os jornalistas têm muitas vezes, quando andam no terreno em reportagem, e disse a mim mesma que estava ali o título da minha reportagem.
 
O que esse título "Por acaso" pretende transmitir é a ideia de que, por acaso, somos todos fruto de algum acaso, tenha sido ele mais ou menos feliz, mas que não é, nem pode ser essa circunstância mais ou menos afortunada a definir quem somos, o que somos e o que somos capazes de fazer e que a diferença daqueles que, por acaso, são diferentes não tem de e não pode condená-los ao silêncio, ao desprezo, à vergonha, ao isolamento ou à discriminação.
 
4- Pode desvendar um pouco da história que esteve por detrás da obra?
 
O que esteve na origem desta obra foi a necessidade de dar voz e visibilidade às questões da deficiência, neste caso em particular, da Paralisia Cerebral e foi o sentido de responsabilidade social que assiste a todos nós, individual e colectivamente.
 
A empresa IMOA - Clothing for all tentou criar uma resposta social para um problema que não tinha respostas (roupa adaptada a pessoas com necessidades especiais), testou essa roupa nos voluntários da Associação do Porto de Paralisia Cerebral e passou a desenvolver uma actividade que, apesar de privada, enquadra-se no modelo do chamado empreendedorismo social. A Associação do Porto de Paralisia Cerebral, por sua vez, é especialista na prestação de serviços de excelência pela diversidade humana e apoia projetos de vida, pelo que este género de parcerias e de dialécticas sociais são contributos necessários para tentarmos melhorar um bocadinho o actual estado das coisas.  

5- Na sua opinião, as situações na vida acontecem por acaso ou não é bem assim?
 
A grande maioria dos "acasos" tem uma explicação (seja ela de que natureza for), embora muitas vezes não a compreendamos ou não a percepcionemos de imediato. Não acredito que as coisas da vida ou as situações da vida aconteçam por obra e graça do nada. Em quase tudo, há uma razão de ser e uma explicação, apesar de podermos demorar uma infinidade até chegarmos a essa razão ou explicação e apesar de querermos, ou não, de conseguirmos, ou não, aceitar essa razão/explicação e viver com ela.

6- O seu próximo desafio é perder o medo de andar de avião?
 
Não!! Esse medo nunca vai deixar de me acompanhar!! Nunca!! Apesar de eu viajar muito de avião e de já ter viajado para 32 países diferentes, perco anos de juventude, cada vez que entro dentro de um avião!!!!! Quando estou dentro daqueles "monstros", não consigo abstrair-me, um instante que seja, da possibilidade de eles cairem. As horas de viagens são sempre horas de ansiedade, de tensão e de nervoso miudinho, mas eu vou sempre e estou sempre pronta para ir... Viajar é o meu maior prazer da vida, apesar do medo que tenho de andar de avião e dos mil e um sustos e episódios alarmantes que já vivi nos aviões.

7- Qual o género do seu próximo livro?
 
Eu escrevo muito, embora não tenha nada publicado. Um dia, gostava de ter coragem de publicar duas coisas inacabadas que tenho no meu portátil: uma compilação de crónicas alusivas aos rostos do mundo com quem me cruzei nas dezenas de viagens que já fiz e uma tentativa de romance baseado numa conspiração política que é um misto de ficção com acontecimentos reais. Mas, como digo, não me considero escritora, tenho muito respeito pelos verdadeiros escritores e pela Literatura e, como tal, tenho receio de arriscar meter-me nessa aventura!

1 comentário:

João Fael disse...

A Fátima Araújo, alem de ser uma excelente profissional, e um belo ser humano. é muito bonita, charmosa, glamourosa, fotogénica, elegante, com forte personalidade e super inteligente.

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