quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O balde europeu gelado

Temos sempre a tendência natural e genética para nos focarmos apenas num ponto da agenda mediática, seja política ou não, sendo que esse mesmo foco serve ainda para desviar a atenção de outras temáticas tão ou mais relevantes. Aliás, do ponto de vista político essa é uma técnica comunicacional recorrente: lançar para a opinião pública o acessório para desviar eventuais polémicas sobre o essencial.
Sendo certo que as primárias socialistas têm impacto directo no futuro político e governativo do país, mesmo que assunto interno do PS, passou completamente ao lado, ofuscada pelos resultados das federações socialistas e pela realização dos dois debates televisivos (TVI e SIC) entre António José Seguro e António Costa, a nomeação do comissário europeu português, Carlos Moedas, para a pasta da Investigação, Ciência e Inovação. Excepção para algumas notícias na “hora”, duas ou três declarações políticas e pouco mais, excluindo um rol significativo de piadas/anedotas envolvendo “moedas” e “notas”.
Deixo, por enquanto, a análise às primárias para o Francisco, que tão bem tem acompanhado o desenrolar dos acontecimentos, reservando mais para o aproximar do dia da decisão socialista algumas palavras. Até porque entre a política e o futebol há uma ou outra semelhança: no fim é que se fazem as contas.
Assim sendo, a nomeação do Eng. Carlos Moedas, até então Adjunto do Primeiro-ministro, merece algumas considerações de forma muito telegráfica.
A indicação, por parte de Pedro Passos Coelho, de um nome para Comissário Europeu não foi de todo nem pacífica, nem clara, pelo menos para a opinião pública. Quando tudo indicava a saída do Governo de Maria Luís Albuquerque ou a indicação de alguém que tivesse estado ligado à oposição (o que não seria novidade), a primeira surpresa surge com a indicação do nome de Carlos Moedas. E surpresa porque não era expectável que Passos Coelho abrisse mão do que foi até agora (e juntamente com Miguel Relvas) o braço direito do Primeiro-ministro e muito do mentor político da actuação deste Governo.
Por outro lado, surge a segunda surpresa. Afigurava-se, mesmo que difícil, alguma capacidade de negociação em relação à pasta a atribuir ao comissário português. Daí que não seria de estranhar a saída da Ministra das Finanças com a perspectiva de uma pasta na área económica, fiscal, financeira e orçamental, ou na área social (emprego, por exemplo). Isto para não falar nas importantes pastas nacionais como a agricultura e as pescas ou o desenvolvimento regional. Mas por mais esforço que o Governo, a posição (PSD e CDS) e Carlos Moedas façam, saiu-nos o tiro pela culatra.
Não vale a pena querermos tapar o sol com a peneira. Tal como os ministérios nacionais, há pastas na Comissão Europeia com um peso económico, político e social mais relevante que outras. Para além disso, há pastas europeias que têm uma importância acrescida para o desenvolvimento nacional e que Portugal só teria, em teoria, a ganhar com a nomeação de um comissário europeu português para essas áreas. Basta recordar as mais recentes afirmações da directora do FMI, Christine Lagarde, indicando a Espanha como “o único país da zona euro a progredir devido às reformas estruturais”. Não por acaso, o espanhol  Joaquín Almunia foi, durante vários anos, comissário europeu da “era Durão Barroso” para os assuntos Económicos e Monetários. Nós nem a presidência da Comissão Europeia soubemos aproveitar, mesmo que agora venha aí “uma pipa de massa”.
Calhou-nos, desta vez, uma pasta sem tradição em Portugal, numa área tão mal tratada e abandonada pelas políticas nacionais, uma pasta claramente muito mais técnica que política, sem capacidade de pressão europeia. Um balde de água fria que o facto de Carlos Moeda ir gerir um dos maiores orçamentos europeus disfarça ou aquece.

2 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

A nomeação de Moedas para uma pasta insignificante pode ter duas leituras:

Ou Portugal não está interessado em ter um papel importante nesta comissão

Ou a Europa não ficou contente com o trabalho de Barroso, em particular neste segundo mandato.

migas (miguel araújo) disse...

claramente... a segunda hipótese.

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