segunda-feira, 14 de abril de 2014

A geração de Abril tomou conta do país

Daqui a poucos dias o país festeja 40 anos de 25 de Abril. Muitos recordam essa data com orgulho, felicidade e esperança, mas outros há que preferiam voltar ao antigo regime. 

Durante o período democrático tem-se ouvido a expressão "eu fiz o 25 de Abril" proferida por várias pessoas. E não falo só de políticos e militares, mas também de empresários, advogados, escritores e cantores. Todos eles reclamam para si uma parte da revolução, porque sentem que fizeram a história de um momento único no país. Ora, nem todos tiveram responsabilidade no conflito e Portugal já passou por períodos muito mais conturbados do que aquele que se verificou em 1974. O problema é que a última revolução antes do 25 de Abril (foi o 5 de Outubro 1910) já não tem ninguém para contar. 

Por estes motivos cada vez que se celebra Abril é feito uma retrospectiva e a pergunta mais colocada é a seguinte: onde estava no 25 de Abril de 1974. A maioria dos intervenientes que conta essas histórias faz parte de uma geração acima do autor destas linhas que nasceu 11 anos depois da revolução. Esta geração que tem a revolução dos cravos na cabeça tomou conta do país. 

Aqueles que hoje estão no poder político, social e empresarial de Portugal foram vítimas da revolução mas ganharam muito com a democracia. De facto, são eles que mandam nos partidos, empresas, justiça e também é por causa deles que a sociedade de hoje é injusta, desequilibrada e imoral, em particular para os que nasceram uma década depois e hoje querem vingar na vida. 

Alguém me disse uma vez que os mais novos nunca vão ter as oportunidades que a geração acima teve, por causa do estado do país. Mas quem é que deixou Portugal neste estado? Foram os que podem mas não pagam impostos ou os que com dificuldade cumprem as suas obrigações fiscais?

Não é por acaso que temos o país neste estado e não falo apenas das contas públicas, dos desequilíbrios orçamentais e tráfico de influências. Os mais novos estão a pagar décadas e décadas de aventureirismo, snobismo e novo riquismo de uma sociedade que aproveitou os anos de prosperidade económica para encher os bolsos sem fazer nenhum. E o pior é que essa geração é muito menos qualificada do que aqueles que hoje começam a sua vida profissional bem como responsabilidades pessoais. 

Quando hoje se fala em dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, criar uma família numerosa, ter oportunidades, tudo isso é culpa da geração que viveu Abril quando tinha 20/30 anos. Não é por acaso que se aborda muito o tempo daqueles que são mal remunerados ou explorados no trabalho, não porque não haja dinheiro mas porque a retribuição é injusta e desigual. Parece que muitos ficaram revoltados com o facto de terem perdido muito com Abril, ou então alguns aproveitaram a revolução como uma oportunidade única para enriquecer.

No meio disto tudo há um sinal importante que é o facto da geração que não viveu Abril não se deixar intimidar nem explorar pelos ressabiados da Revolução. Felizmente que a sociedade está a mudar e mais importante do que isso, os jovens de hoje lutam mais e os resultados do seu esforço são positivos. Os novos valores não vão deixar que Portugal fique na mesma e entregue aos velhos do Restelo que precisam de ser bajulados pelos mais novos. A renovação de geração vai ser feita lentamente e isso fará com que Portugal seja mais moderno e consciente das suas capacidades. 

A crise que vivemos é o resultado das más práticas sociais e não só de muitas pessoas que se acham importantes só por causa da sua condição social e financeira.  

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