segunda-feira, 24 de março de 2014

O jornalista não tem de ser sempre independente e imparcial

Embora o jornalista tenha de guiar a sua profissão por deveres deontológicos acho que a questão da independência e imparcialidade não se coloca. Um pouco por todo o mundo, e isso é uma evidência em Inglaterra, os órgãos de comunicação social não têm medo de mostrar as suas preferências políticas, sociais e clubísticas. No entanto, em Portugal qualquer desvio à "independência" é censurado pela maior parte da opinião pública e quem mostra a sua cor é de imediato atacado. 

Na minha opinião, e já escrevi várias vezes sobre isso, um órgão de comunicação social só sobrevive se mostrar as suas preferências, porque assim não irá passar a sua mensagem. É importante que quem lê, ouve ou vê possa estar o mais informado possível mas tem de perceber a orientação que está por detrás das linhas editoriais, escolhas das peças e artigos de opinião. Existe em Portugal um enorme tabu em relação a esta questão, porque todos têm medo de assumir as suas orientações em nome de valores como a independência e imparcialidade. 

A conversa em torno dos dois princípios referidos é uma falsa questão porque quem analisa, informa ou opina não tem a obrigatoriedade de representar os interesses de todos os sectores. Isso é completamente impossível de fazer e vai acabar com uma das funções do jornalismo que é informar, mas não só. José Rodrigues dos Santos, enquanto entrevistador tem o direito de fazer as perguntas que entender e quem está a ser entrevistado não pode conhecer as perguntas, uma vez que isso é contra-natura. Isso é que é desprestigiar o jornalismo e toda uma classe que se esforça para informar as pessoas. O entrevistado tem de ir a uma entrevista sem saber o que lhe vai acontecer. No Reino Unido não vejo os PM´s incomodados com a escolha das perguntas, podem não concordar mas isso é outra questão. O mesmo se passa com Obama que dá inúmeras entrevistas e não se sente intimidado pelas perguntas. 

O que cativa o público é saber que por detrás de um jornalista está alguém com convicções, opções e que domina bem uma determinada matéria. Depois é o próprio público que faz a selecção daquilo que quer ler, ver e ouvir. Num mundo global e competitivo em que vivemos não podemos ter medo de assumir as nossas preferências e transmitir aos outros as opções, mas sempre com respeito pelo lado que não concordamos. As pessoas hoje pretendem que os jornalistas sejam também actores políticos para depois poderem optar por esta ou aquela solução. Aquele "jornalista" é a favor do tema x, e o jornal adopta a ideologia "y". 

É isto que torna interessante e fascinante o mundo "político" e do "debate" de ideias em que vivemos. Se estivermos apegados a conceitos que são mais importantes noutras profissões, a nossa tarefa deixa de ser recebida pelo público. Público esse que está agarrado com maior frequência à comunicação social, também por via das redes sociais. 

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