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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

40 depoimentos sobre os 40 anos do 25 de Abril (2)

Ao ver que tinha que escrever sobre este tema a primeira coisa que me veio à cabeça foi a  palavra utilizada para fazer a conjugação dos termos  "40 anos" e o facto histórico que foi, é e será o "25 de Abril" na História de Portugal!

Inevitável ? Fundamental? Aljubarrota? Batalha de S. Mamede? Conquista do Algarve? Nuno Alvares Pereira e tantos outros.... Ate mesmo o nosso assumir dos limites como a tentativa de conquista de Ceuta!

Poderemos, nós, sem perspectiva histórica tão distante considerar desde já o 25 de Abril um marco na nossa História, como os referidos? Claro que sim... bem ou mal foi o “berço da nossa democracia”.

Parece estranho mas para mim o facto de dizer "40 anos"...
- de 25 de Abril ou,
- com 25 de Abril ou,
- no 25 de Abril ou,
- para o 25 de Abril ou,
- em 25 de Abril

É completamente diferente. Fazer a "união" com uma ou outra palavra pode revelar a vivencia que cada um teve do evento em particular e dos anos subsequentes.

Podemos evoluir, é certo... Passar de um estado ao outro. Do de ao com, ou mesmo do no ao para o... Para cada uma dessas palavras teremos uma história para contar!

Há os que se identificam com uma e outros com outra!

Eu escolho quase todas! Todas parecem o mesmo mas não... Escolho umas por uma razão e outras por outra. As que não escolho deixo para o fim para vos explicar!!

Eu, enquanto jovem de 15 anos, sentia-me "no" 25 Abril! Vivi neste espirito até aos meus 21 anos aproximadamente! 

- de RGA em RGA pelos liceus e faculdades
- Meeting no intervalo grande
- reuniões partidárias
- listas negras para os que não eram da cor
- retornados
- primeira experiencia do ano propedêutico
- lutas de campanha
- Campo Pequeno e Pavilhão dos desportos
- sedes queimadas, com correrias sem nexo
- congressos bloqueados
- a saída aos “empurrões” do Portugal Ultramarino
- Reforma Agraria
- nacionalização da banca (implicações familiares directas)
- Frank Carlucci

Nesta fase, muitos prometiam… Era a fase do Slogan. Mais importante que um texto bem escrito era um bom Slogan! Propaganda!

Importante dizer que nesta fase se fazia e vivia política em todas as esquinas do país. As ideologias estavam à flor da pele e a pólvora parecia a qualquer momento vir a rebentar. Bons políticos encabeçavam cada teoria.

Dos 21 aos meus 28 anos tudo foi, calmamente, mudando!

Olhando para trás passei à fase do "em" 25 de Abril.
Faculdade ainda em estado vermelho mas mudando a olhos vistos. Objectivos a ser conseguidos. Passagens administrativas a começarem a acabar. Tudo ia mudando, sentia-se isso no dia a dia pois era vontade do povo que isso acontecesse. Nada mais simples do que o povo querer para que a mudança comece.
Isso sentia nessa altura. A tropa aparece e não se permitia os cabelos compridos como alguns anos atrás, nem barbas por fazer,… a ordem militar voltava a ser o que era. Doa a quem doer.
Ou seja, vivíamos um “em” 25 de Abril com o melhor que à época se poderia ter. Aceitar esquerdas e direitas começava a ser possível, não só a nível constitucional mas também no espírito interiorizado pelo povo.

Não esquecer que neste período…

Começa a fase em que se vivia a alegria dos fundos estruturais, o aparecimentos os yuppies, das noitadas à porta das instituições bancárias para subscrever mais acções das que poderia pagar apostando no rateio, bolsa a aumentar aos 15% por dia, venda de cautelas a preço de títulos definitivos, aparecimento da fungibilidade, brokers desmedidos e gananciosos… tudo parecia fácil.
Primeiro carro que aparece. Oportunidades de emprego acontecem. Tecnologicamente avançamos e podemos mesmo comparar-nos com os melhores… A Europa estava já ali.

Dos 28 anos de idade em diante foi um viver “de” 25 de Abril. Infelizmente não sabendo aproveitar as medidas que nos foram propostas, os fundos que nos foram disponibilizados, as vantagens de termos sido “irmãos” durante anos dos países descolonizados. Creio por vezes, olhando para trás que tivemos um 25 de Abril para acabar simplesmente com a Guerra Colonial. Tudo o resto não estava minimamente pensado nem sabíamos para onde ir.

Tudo isto representou e continua a representar custos enormes para o país. Faltou a clareza que outros demostraram quando largaram as suas colónias… ter que absorver, naturalmente, todos os retornados, numa fase onde a luta partidária era mais importante que qualquer coisa de futuro para o país era uma tarefa muito difícil. Poderemos evocar poucos os que, fazendo política, se lembravam do impacto que esse estado “revolucionário” de governação, a falta de controlo nos fundos e a má gestão na descolonização iriam provocar nas gerações seguintes…

Por fim refiro que nestes meus 55 anos, 40 deles foram “no” 25 de Abril; “em” 25 de Abril; “de” 25 de Abril. Nunca me senti “para o“ 25 de Abril nem mesmo “com” o 25 de Abril.

Claro que o 25 de Abril trouxe coisas boas, mas no processo da minha evolução de conhecimentos políticos nunca me foi possível considerar que vivia “para o” 25 de Abril nem muito menos “com” 25 de Abril.
Será por certo um erro de análise histórico meu mas sempre vi as politicas resultantes e ligadas ao 25 de Abril como muito longe do que eu queria para o meu país.
E as consequências ainda as temos à vista…

Viva a Democracia.


 Texto de Manuel Marques Guedes

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