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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

40 depoimentos sobre 40 anos do 25 de Abril (1)

Um dia acordei muito cedo, cedo demais.

Cedo demais para entender, o que se estava a passar, as palavras com que era bombardeada, os gestos, as bandeiras, os cravos vermelhos, os gritos que, surgidos do nada, rodopiavam à minha volta como um carrossel avariado que recusava parar.

Foram anos inesquecíveis e irrepetíveis, não só na minha vida, como também na história.

Imaginem o que é acordar um dia e constatar que, graças a uma revolução que não percebes, saíste de uma ditadura de que pouco sabias e ganhas uma liberdade desconhecida, assustadora e irresistivelmente  atrativa.

Tinha 13 anos e passaram 40 Anos.

E estes 40 anos coincidem inexoravelmente com a minha vida.  Estudar, namorar,  trabalhar, casar, ter filhos...

Os amores e desamores, os primeiros cigarros, as primeiras tantas coisas, passaram por comícios, rga’s(1) , rge’s (2) ou manifestações.  Momentos vividos intensamente, dos quais ficam as memórias, e alguma réstia de saudade, de tempos irremediavelmente pertencentes a um passado único.

A descolonização, os retornados, o PREC (3), a reforma agrária, a democracia, arrancada a ferros no 25 de Novembro, as campanhas eleitorais, a nacionalização de empresas e Bancos, as campanhas de alfabetização, as cantigas de intervenção, a morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa, a loucura de uma inflação elevadíssima, as intervenções do FMI, o 13º mês que o Mário Soares optou por retirar aos funcionários públicos, a recuperação económica, os governos do Cavaco, as privatizações, a entrada na CEE, o Euro e o passado recente fazem parte nas minhas memórias destes 40 anos.

A história parece repetir-se, mas não se repete a evolução de Portugal que tive a oportunidade e o privilégio de vivenciar; o desenvolvimento de um país empobrecido, a melhoria das condições de vida, a criação de um estado social, a diminuição drástica da taxa de mortalidade infantil, a educação, a cultura e, o mais importante, a Liberdade.

Liberdade... o bem mais precioso que associo à revolução de Abril e a estes 40 anos e, como bem precioso o seu preço é elevado. Saibamos manter e cultivar este bem, custe o que custar.

As nossas recordações podem trair-nos, aqui e ali, pelas crenças políticas, pelas  nossas vivências, pelo momento presente e, também, pelos media, que recorrentemente fazem as estórias da História.

É cedo para escrever a História; este é, e apenas pretende ser, um brevíssimo testemunho das memórias desta alma, cuja vida se entrelaça com estes 40 anos.


Texto de Maria Otília Casquilho

2 comentários:

pi disse...

Fantástico olhar - para mim, tão mais precioso por ser o «olhar do lado» - dos olhos que viram, e cresceram, ao lado dos meus. E reconheço-os na objectividade, no rigor, na emoção que se adivinha e só descobre quem está perto. Muito bom.

Francisco Castelo Branco disse...

excelente depoimento. Portugal mudou muito em 40 anos, embora muitos ainda gostem de olhar para baixo.

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