terça-feira, 1 de outubro de 2013

A caixa de Pandora de Espanha Parte I



Esta é a primeira parte de um artigo meu que saiu no Jornal I


Quando se soube que Barcelona e Athletic Bilbao se iriam defrontar na final da Taça de Espanha do ano passado, já se previa que o desafio era mais do que um embate entre duas equipas que queriam vencer a mítica competição desportiva. Os acontecimentos extrafutebol foram uma repetição do que sucedera em 2009, quando os adeptos catalães e bascos se uniram para uma assobiadela ensurdecedora ao hino espanhol, tendo além disso insultado o rei de Espanha. Os incidentes foram, na altura, tão graves que a TVE interrompeu a emissão do jogo, tendo passado o hino com imagens editadas ao intervalo. Três anos depois, os nacionalistas catalães e bascos aproveitaram mais uma oportunidade para protestar, no entanto em 2012 o palco da final era especial. Em Madrid, no mítico Vicente Calderón, os adeptos dos dois conjuntos voltaram a reivindicar a independência, causando de novo desconforto à família real espanhola. O jogo esteve para ser jogado à porta fechada ou nem sequer ser disputado. Temiam-se confrontos entre os adeptos, ou melhor, entre cidadãos. Alguns movimentos independentistas pediram que o hino nacional de Espanha fosse assobiado por todos. O slogan do movimento "Catalunya Acció" não podia ser mais esclarecedor: "Assobia com a língua, assobia pela liberdade, assobia pelas eleições, assobia contra o roubo e assobia pelo novo Estado catalão." No momento em que o hino se ouviu no Estádio Vicente Calderón, e com o príncipe Filipe na tribuna real, os nacionalistas fizeram ouvir alto e bom som o seu protesto. Embora o Código Penal proíba este tipo de manifestações, ninguém se sentiu impedido de, naquele momento, mostrar o seu nacionalismo em plena capital.
Os episódios relatados confirmam o desejo de mudança por parte de bascos e catalães. Por tudo isto, não é de admirar que em 2014 o desafio ao poder de Madrid saia dos estádios, perspectivando-se a realização de um referendo sobre a independência da Catalunha. Nos últimos dois anos, a população catalã vem reclamando o direito a pronunciar-se relativamente à sua autonomia. As manifestações no dia da independência, conhecido como Diada, dos últimos dois anos revelam o estado de espírito dos catalães. Artur Mas, o líder da Generalitat (governo regional) tem sido o rosto principal de um movimento que exige um referendo. Depois será a vontade popular que determinará o futuro da região, mas por agora o mais importante, segundo os nacionalistas catalães, é que as pessoas possam decidir que caminho querem escolher. No entanto, o governo de Madrid não aceita a realização dessa consulta porque a Constituição espanhola estabelece que a Espanha é una e indivisível, por isso não pode haver qualquer processo que possa conduzir à independência. O que separa Madrid de Barcelona é a realização do referendo e não tanto a questão da autonomia. É um facto que na Catalunha, como nas restantes regiões de Espanha, existe um nacionalismo exacerbado, bem como um sentimento político contra o governo central. Para as populações da Catalunha, do País Basco, da Galiza ou mesmo da Andaluzia, o território de Espanha resume-se a Madrid e pouco mais, sendo o resto nações sem Estado com língua nacional e uma cultura própria, além de outros indicadores essenciais que estabelecem a diferença entre as diversas regiões. Não é só por nacionalismo que os catalães pretendem a autonomia. Há uma série de factores que estão por detrás da pressão exercida pelos responsáveis políticos que depois é transportada para a população. A principal razão dos protestos está relacionada com a questão financeira. Madrid quer receber os impostos dos contribuintes catalães, que no entanto não estão dispostos a continuar a ajudar o governo central, ainda por cima no actual cenário de crise que Espanha vive. Além do mais, a Catalunha tem sido discriminada em diversas situações, nomeadamente nos tratados internacionais que proíbem a utilização do aeroporto de Barcelona por aviões provenientes do México, de Miami, Banguecoque e Kuala Lumpur. Um ponto importante tem a ver com não existir ligação ferroviária com a Europa, seja através de um porto, seja por TGV. Contudo, o principal argumento para requerer a autonomia é o factor económico. No entanto, não é certo que com a desagregação de Espanha a Catalunha manteria o crescimento que tem vindo a ter nos últimos anos, contrastando com a crise que se vive no resto do país. Para a revista "The Economist", a receita fiscal seria maior, no entanto a dívida também aumentaria caso não fizesse parte do restante território. No mesmo sentido aponta Mikel Buesa, professor catedrático da Universidade Complutense de Madrid, que diz que o PIB catalão cairia 23% a 50%, até porque actualmente 50% das exportações catalãs se dirigem a outras regiões de Espanha, e com a autonomia não haveria oportunidades para a Catalunha continuar a crescer economicamente à custa de regiões que fazem parte do território nacional. A saída da Catalunha de Espanha teria como consequência a expulsão da Europa, logo a região poderia não continuar no euro, o que em termos económicos era bastante problemático. Ou seja, com a independência, a Catalunha deixaria de ser a região mais rica de Espanha para se tornar uma região mais pobre que a média actual. A independência catalã custaria 7800 euros a cada catalão e 5 mil a cada cidadão espanhol. Perante esta análise, podemos concluir que não haveria vantagens para a Catalunha em termos económicos, já que seriam maiores as perdas que propriamente os benefícios fiscais. Preservar em território catalão as contribuições fiscais não chega para manter a economia da região no topo.


(continua amanhã)

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