segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Pensar o País(I): Carta aberta aos políticos deste país

Neste momento difícil na vida do nosso país preocupamo-nos muito em como podemos mudar o que está mal. Perdemos no entanto noção do que foi feito nos últimos 40 anos. E perdemos noção porque parece que esquecemos que algum mérito deverá ter existido para transformar um país do terceiro mundo num que está relativamente perto do primeiro. E não tenhamos dúvidas que em 1974 eramos um país do terceiro mundo: basta irem às estatísticas e consultarem todos os indicadores relevantes: literacia, esperança de vida, mortalidade infantil só para citar alguns exemplos.
Ataca-se a classe politica como um todo esquecendo que a base de partida era na verdade a de um país parado no fim da segunda guerra mundial estagnado em ideias e conceitos do inicio do século.
A classe politica que tanto atacamos trouxe-nos até aqui. Com algum mérito diria. Com muitos defeitos é verdade. Defeitos que hoje nos parecem maiores face às dificuldades que nos assaltam e às benesses que se outorgam. Imorais. Injustas.
Pior ainda aceitam questionar o fundamento de evolução do país sobre o pretexto de uma necessidade económica prevalecente. Pois eu digo o seguinte: Não aceito que os tratem como incompetentes porque não o foram mas também não aceito que nos tratem como idiotas que também não somos.
Atrevam-se a discutir as ideias claramente, discutam os modelos de sociedade que pretendem com clareza e deixem-se de tentar esconder os vossos desígnios só porque sabem que dessa forma nunca vencerão umas eleições.  Se não o fizeram irão reduzir sistematicamente a discussão politica a uma espécie de novela mexicana sem substancia.  
Se são liberais assumam, se são sociais democratas demonstrem-no, se são socialistas mostrem-no. Não se escondam no meio de uma pseudo racionalidade técnica porque da mesma forma que não se elege quem pilota o avião nós também não votamos na capacidade técnica: Votamos nas escolhas políticas. Não retirem essas escolhas do sistema porque essa escolha é o sistema.  Sem essa verdadeira escolha a democracia nada mais é do que número de circo em que a transformaram.
Admiram-se que vos chamemos palhaços, que demonstremos asco pela vossa profissão? Hoje em dia para alguém que não esteja na política chegar a casa e dizer decidi filiar-me no partido x é o equivalente à lama atirada à honra da família. Têm noção disso? Acham que a responsabilidade é de quem? É vossa pela vossa falta de respeito mutua, pela vossa falta de compreensão do mundo real.  Havei-vos isolado em torres de marfim e não tendes a mínima ideia do que realmente se pensa de vós. Pensam que é exagero que são apenas uns exaltados manipulados. Também há isso, também há isso mas receio que estejais a confundir a árvore com a floresta.

Desçam à realidade do nosso dia a dia, das nossas dificuldades, privem-se dos vossos indevidos privilégios e falem-nos com verdade, mas com verdade mesmo não com aquele “ersatz” vazio de opções. Quando o fizerem (se o fizerem) verão que somos muito mais governáveis do que parecemos.

Texto de Fernando Vasconcelos, que assim inaugura a rubrica "Pensar o País"

1 comentário:

Fatyly disse...

A clareza com que escreves sobre a realidade nua e crua do país, fico sem palavras, porque como simples cidadã atenta, que procura saber e perceber um pouco mais e não falar por falar, tiro-te o meu chapéu e é precisamente isso que me causa uma "dor inimaginável" e realço esta parte:


"Admiram-se que vos chamemos palhaços, que demonstremos asco pela vossa profissão? Hoje em dia para alguém que não esteja na política chegar a casa e dizer decidi filiar-me no partido x é o equivalente à lama atirada à honra da família. Têm noção disso? Acham que a responsabilidade é de quem? É vossa pela vossa falta de respeito mutua, pela vossa falta de compreensão do mundo real. Havei-vos isolado em torres de marfim e não tendes a mínima ideia do que realmente se pensa de vós. Pensam que é exagero que são apenas uns exaltados manipulados. Também há isso, também há isso mas receio que estejais a confundir a árvore com a floresta."

Já agora, a dois meses das eleições autárquicas, como é que uma Lei em tribunais diferentes ou até no mesmo originam "sentenças" diferentes sobre "dinossauros de sempre?" dá ou não para ficar completamente baralhada para não dizer aparvalhada, não neste circo mas numa arena onde vencerá sempre o compadrio e os...não digo!

Um abraço Fernando e nunca deixes de escrever

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