sexta-feira, 19 de abril de 2013

O peido fundador

Um beduíno afortunado, que se chamava Abdul-Hossein, decidiu um dia, a conselho dos seus amigos, tomar mulher. Escolheu uma donzela linda como a lua cheia e, para o dia das núpcias, abriu de par em par as portas da sua casa e mandou servir um esplêndido festim. Todos os convidados comeram e beberam com alegria. Passearam  a esposa por toda a casa, vestida com roupas que eram mudadas a cada passagem. No fim, as mulheres introduziram-na no quarto nupcial e prepararam-na para a entrada do esposo.

Abdul-Hossein entrou no meio de um cortejo. Sentou-se um instante no divã, com dignidade. Depois levantou-se para agradecer às mulheres e dispensá-las quando subitamente - calamidade das calamidades - soltou um traque que é descrito, mas Mil e uma Noites, como "terrível e grandioso". 

Todas as mulheres fizeram menção de falar ao mesmo tempo, como se não tivessem ouvido nada, e a esposa, rindo, fez tinir os seus braceletes. Mas Abdul-Hossein, com a vergonha no coração, saiu para o pátio, selou a sua jumenta e fugiu para as trevas nocturnas. Chegou à beira-mar, viu um barco que partia para a Índia e embarcou. Tinha decidido fazer-se esquecer na sua terra. Deixava para trás toda uma vida. 

Na India, como era um individuo com qualidades, refez a vida de um modo brilhante, tornou-se o homem de confiança de um rei. Envelheceu rico e respeitado. 

Passados mais de dez anos foi possuído pelas saudades. Suspirava incessantemente pensando na sua cidade, na sua casa. Um dia fugiu, disfarçado de dervixe, e acabou por chegar à colina que dominava a sua cidade. Com lágrimas nos olhos, reconheceu o terraço da sua velha casa e as casas vizinhas. 

Desceu a colina e tomou caminhos escusos para chegar a casa. Ao caminhar por uma rua, o coração agitado pelas emoções, viu uma velha a catar uma menina dos seus dez anos. E de passagem, sem querer, ouviu a menina perguntar:

- Em que ano nasci eu?
- Nasceste - respondeu a velha - dois anos depois do ano em que Abdul-Hossein se peidou. 

Abdul-Hossein quedou-se. o seu traque tinha-se tornado uma data importante para os anais da cidade. Tinha entrado para a história. E o infeliz disse para si mesmo: "o meu traque transmitir-se-à pelas eras enquanto as flores nascerem nas palmeiras".

Então, deu meia volta a correr, fugiu para não mais voltar, regressou à India e, para sempre marcado pelo tempo, viveu triste até morrer.

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