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domingo, 17 de março de 2013

"E o burro sou eu?"


Giorgios Katidis foi esta semana banido da selecção de futebol pela Federação Grega de Futebol, depois de uma assembleia-geral extraordinária. 

Admito que quando li esta notícia – e fi-lo em vários jornais – cheguei logo à conclusão de que tinha de escrever sobre ela. Sucedeu que fiquei na dúvida sobre por onde começar, tal foi a burrice de todos os intervenientes nesta história, desde o próprio Katidis até à leitura dos meios de comunicação social portugueses (olhem que surpresa hein!).


Comecemos pelo fim, os meios de comunicação social portugueses. Dos jornais que li, entre desportivos e não desportivos, todos eles fizeram referência a uma “saudação nazi” feita pelo jogador grego. Se tivesse sido um jornalista a dizê-lo eu deixava passar sem dar importância, mas como todos os que escreveram sobre o assunto fizeram essa referência o que penso é que, de duas uma (ou talvez as duas), ou (a) temos jornalistas sem cultura histórica ou (b) escrevem-no porque “nazi” é sempre uma palavra que chama a atenção e deve vender e aumentar as visualizações nos jornais online. 

A “saudação nazi” “sempre” foi conhecida como saudação romana, saudação de Bellamy, saudação Olímpica, entre outros poucos nomes que teve, Só passou a ser chamada e conhecida por saudação nazi aquando do desenvolvimento e erguer do Nazismo e do partido de Hitler na Alemanha.
Pensa-se que a saudação – na altura, a saudação romana – tenha surgido pela altura da Res Publica. Existem algumas dúvidas, mas pensa-se que a fizessem como forma de cortesia militar ou simples aclamação do seu líder. Só muito mais tarde, já no Séc.XVIII, é que se voltou a utilizar este gesto, desta feita em França, por alguns movimentos contra regime (há até várias pinturas de artistas franceses que demonstram bem esse gesto).

A saudação de Bellamy, que surge quase no fim do Séc.XIX nos EUA, era feita pelos cidadãos como mostra de fidelidade ao seu Presidente. Era também feita com o objectivo de mostrar juramento a algo, à semelhança do que se pensa que era já feito em França com Bonaparte.

Só depois destes séculos todos – portanto, da Res Pública ao Séc. XX – é que passa a ser conhecido como saudação Nazi quando Hitler e o seu partido adoptam a antiga saudação romana, introduzindo-lhe algumas pequenas modificações. É também por esta altura que o PNF, liderado por Mussolini, adopta a saudação romana com o intuito de ressuscitar o antigo Império Romano.

É, então, depois de estes dois regimes – Nazismo e Fascismo – terem adoptado a saudação romana que, nos EUA, através de Roosevelt, se estabelece o gesto de levar a mão ao coração ao invés do antigo gesto. Isto, pelo simples facto de, como é óbvio, não quererem ficar conotados àqueles regimes! Como curiosidade, havia também organizações religiosas em algumas zonas da Europa que utilizavam a saudação romana e, pela mesma razão, deixaram de a utilizar. Havia até registo de algumas fotografias com padres fazendo a saudação romana o que, com o aparecimento destes regimes, poderia ser visto da forma errada. 


Dito isto, é engraçado pensar-se que se (assim vemos o valor dos “ses”) estes regimes não se tivessem erguido talvez ainda hoje, quem sabe, se utilizasse este gesto de forma quase universal aquando do trautear do Hino Nacional ou aquando da passagem do respectivo Chefe de Estado.


Passemos agora ao personagem principal nesta história toda, o grego Katidis.
Este, depois do gesto que fez durante o festejo do seu golo, veio dizer, e passo a citar, “Não sou um fascista e não o faria se soubesse o que significava. Conheço as consequências e nunca o teria feito”.

Em relação às declarações do mesmo e relacionando isso com o que foi escrito:

Em primeiro lugar, Katidis é, aparentemente, como uma criança. Vê algo e repete para ver a reacção das pessoas. Ora aí tens a reacção do pessoal…

Em segundo lugar, “ (…)não o faria se soubesse o que significava”, “Conheço as consequências”. Hein???

E em terceiro lugar, para terminar (Deixei para o fim o mais interessante), Katidis diz nas declarações que não é fascista. Com isto, depreendo que se fosse era o gesto que fazia. Ora, a ser assim, qual a lógica dos jornalistas virem escrever que Katidis tinha feito a saudação nazi? Quando muito tinha feito a saudação fascista ou até mesmo romana, para sermos mais precisos!
Mas não, falar de nazismo ainda vende mais que fascismo, aparentemente. Estranho, tendo em conta o país em que vivemos…



Para terminar, e sabendo de antemão que o Comunismo não é ainda proibido e condenável, tenho a impressão que se um episódio destes se passasse em Portugal, o autor seria igualmente punido. “Que seria, admitir cá essas coisas, é um atentado aos mais básicos direitos e garantias do cidadão português. Já bastou Salazar” diriam os do costume. Mas, se também em Portugal, um qualquer jogador jogasse para o alto o braço com o punho fechado em forma de festejo nada seria feito. “Meu Deus, condenar alguém por exortar a ideologia que tanto se preocupa com os cidadãos, em especial com os mais pobres.”

Assim vão os nossos meios de comunicação social...

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