quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Alargamento do prazo da dívida e a falácia do discurso do PS


Publico aqui um comentário de José Manuel Fernandes (ex-director do Público) , sobre o alargamento da maturidade da dívida e os discursos oportunistas dos socialistas:

Como tenho ouvido e lido muitos disparates, vou tentar explicar por partes, pois o tema é difícil.
Primeiro ponto: É verdade que Vítor Gaspar foi pedir a Bruxelas "mais tempo", como diz o líder do PS? Não, não é verdade. Quando o PS falava de "mais tempo", falava de mais tempo para baixar o défice orçamental, e não é isso que está em causa. Em 2013 o nosso défice terá de ser de 4%, conforme acordado com a troika, e aí não há novidades. Segundo ponto: Mas então Vítor Gaspar não pediu "mais tempo" para pagar os empréstimos? Pedir, pediu – é isso que significa "alargar a maturidade da dívida" –, mas isso não representa que vamos pagar a dívida em prestações mais suaves, como sucederia se estivéssemos a falar de um empréstimo à habitação. A triste verdade é que, apesar de todos os sacrifícios, nós não estamos a pagar nem grandes, nem pequenas, amortizações da nossa dívida, nós até continuamos a acrescentar dívida à dívida pois continuamos a gastar mais dinheiro do que aquele que temos (é isso o défice). Terceiro ponto: Para que serve então ter mais anos para pagar os empréstimos europeus? Para, como disse o ministro, "facilitar o regresso aos mercados". Vou tentar explicar. Ao contrário do que sucede com os nossos empréstimos particulares, quando uma das dívidas do Estado vence e tem de ser paga (o que está sempre a acontecer), o Estado vai aos mercados buscar dinheiro para pagar essa dívida mais o que necessita para financiar o défice corrente. Ou seja, substitui uma dívida antiga por uma dívida nova. Ora o que sucede nos próximos anos, sobretudo em 2016, é que há muita dívida para "trocar", logo uma enorme necessidade de "ir aos mercados". Ao ganhar tempo nos prazos de devolução dos empréstimos europeus, Portugal adia algumas idas ao mercado com a esperança de que, lá mais para o final desta década, já não exista a actual turbulência (o gráfico mostra as nossas necessidades de financiamento nos próximos anos). Quarto ponto: Mas não ganhamos mesmo nada em termos financeiros? Ganhar, ganhamos, mas não muito e espalhado no tempo. Como há inflação, quando pagarmos as dívidas que forem prolongadas no tempo, pagaremos menos em termos reais porque o dinheiro valerá menos. Como os montantes são muito grandes, ainda é um ganho que vale a pena. Mas não altera nada de essencial no que toca às actuais dificuldades orçamentais. Quinto ponto: Mesmo assim, Vítor Gaspar não se contradisse quando disse que não ia pedir as mesmas condições da Grécia? Para responder a esta pergunta, é preciso recordar as suas palavras exactas, quando esclareceu a posição portuguesa depois de toda a polémica e das contradições de Juncker. Que foram: "Portugal está atento a oportunidades nessa matéria e solicitará a discussão destas questões quando oportuno no contexto da sua estratégia global de regresso ao mercado" da dívida. Ou seja, foi exactamente isso que Portugal e Gaspar fizeram, numa jogada de mestre que nos permitiu aparecer ao lado da Irlanda e que talvez permita regressarmos já amanhã aos mercados. Internamente, Vítor Gaspar perdeu a opinião pública. Mas externamente, no que toca ao cumprimento dos objectivos portugueses, continua com uma folha de serviços impecável. Eu diria até que ele hoje começou a renascer das cinzas para o cidadão comum. Vamos ver o que nos reservam os próximos dias.




3 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Gostei de ler e ainda bem que o fiz mas isto ainda não responde à pergunta que ontem o meu filho e colocou. Regressar aos mercados.

Anónimo disse...

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Francisco Castelo Branco disse...

A popularidade de Passos Coelho também depende da imagem do ministro das finanças junto das pessoas

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