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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Um oásis de oportunidades


Ninguém esconde que a situação que vivemos no país se deve ao enorme despesismo que durante anos houve em Portugal. Não culpo os partidos ou o governo y e x porque a responsabilidade é de todos, contudo é óbvio que alguns governos tiveram uma quota maior porque das muitas decisões tomadas nem sempre pensaram no futuro do país. Ao ter assumido uma parte da responsabilidade, Guterres esteve muito bem. Tenho pena que nem Cavaco, Durão e em especial Sócrates não venham a público explicar a opção por determinadas políticas. Não vejo em que medida Durão e Santana Lopes possam ter contribuído para o descalabro, já que os dois tiveram muito pouco tempo de sequer convencer Jorge Sampaio de dar uma oportunidade à maioria de então. Por isto, acho que Cavaco e Sócrates foram em grande medida culpados pela situação que estamos a viver. O primeiro não soube aproveitar os fundos comunitários e o ex primeiro-ministro teve comportamentos no domínio da utilização dos dinheiros públicos no mínimo exagerados.


Apesar disso, foi a própria sociedade que aproveitou o crescimento económico bem como a entrada no Euro para endividar-se. É engraçado que com a entrada no Euro, muitos pensaram que Portugal ia ser um país desenvolvido e mais rico. Passados estes anos todos, não foi bem isso que aconteceu e a adesão à moeda única só nos trouxe dificuldade para competirmos com economias mais fortes. A saída de empresas internacionais de Portugal foi o primeiro sinal do atraso que iríamos ter em relação aos outros países, porque novas oportunidades se abririam nomeadamente no leste europeu. Isto não esquecendo o enorme rigor fiscal que faz pensar duas vezes qualquer investidor estrangeiro que queira colocar aqui a sua empresa, contudo podemos ter a favor o facto de a nossa mão-de-obra ser considerada barata, no entanto noutros lugares no mundo ainda há quem trabalhe por uns tostões.


Como dizia, o falso boom económico que o país viveu durante a década de 90 e os princípios do novo século, fez com que fossem as próprias famílias a criar uma dependência do acesso ao dinheiro fácil. Quem não se lembra dos tempos em que numa família, marido e mulher possuírem apenas um carro. Essa mentalidade mudou e até os cinco filhos que andam num colégio ou universidade privada têm a felicidade de terem um carro para cada um. O mesmo se passa em relação aos computadores e telemóveis. Para que não haja lutas lá em casa, o melhor é dar um computador a cada e o problema resolve-se, e há que ter em linha de conta a necessidade do casal ter um aparelho próprio para guardar informação só acessível aos mais adultos. E quantos miúdos que ainda andavam na primária e já possuíam telemóvel?
As necessidades das famílias eram mais vaidades do que prioridades básicas. Não havia mal nenhum em comer bifes todos os dias, contudo aqueles que não o podiam fazer não tinham de sentir vergonha porque não conseguiam atingir um certo estatuto social. Contudo, e para chegar mais alto alguns pediram a ajuda dos bancos que não torceram o nariz e desataram a dar cartões de crédito a todos. Era chique ter um cartão de crédito e o plafond era tão grande que ninguém iria ter a coragem de pedir o dinheiro de volta. Qual era a instituição que tinha o descaramento de deixar uma família inteira à beira da falência?


O acumular de dívidas foi tão grande que já ninguém sabia a quem é que devia.
Não se pode comparar as crises de 1977, 1983 com esta. A crise que vivemos tem outros contornos bem mais complicados do que as duas anteriores e por duas ordens de razões. A primeira está relacionada com a falta de competitividade do nosso país. Portugal e as suas empresas não produzem riqueza suficiente para que os seus produtos estejam no topo do mercado internacional. Não há uma única grande empresa portuguesa que seja líder naquilo que for, que com a sua marca traga o nome de Portugal como um excelente país para investir mas também para se comprarem produtos nacionais. Esta falta de competitividade resulta dos problemas que analisei atrás: a forca fiscal com que os sucessivos governos nos metem, a rígida legislação que obriga a uma burocracia desesperante e a mão do Estado que precisa de intervir em tudo o que diga respeito a negócios realizados no nosso país. É um vício irritante aquele que o Estado usa e abusa quando quer controlar tudo. Para além disto, o outro problema tem a ver com o facto de ser o próprio Estado a querer fazer todo o tipo de investimentos, deixando as contas públicas num autêntico pantanal. Se ninguém quiser investir no nosso país devido aos problemas referidos, é natural que seja o Estado a tomar a iniciativa, no entanto isso vai causar um descontrolo das contas porque há áreas que o Estado não “necessita” de intervir porque há quem faça mais e melhor e não seja preciso os contribuintes pagarem por isso.


Aproveitando a situação débil em que o país se encontra, esta pode ser a oportunidade para se investir no país. Como se tem visto nas privatizações interessados nas empresas portuguesas não faltam. Considero que é curioso o facto de num país à beira da bancarrota, quando chega a hora de comprar as melhores empresas aparecem propostas da China, Angola, Brasil, Alemanha and so on. Não deveríamos estar com dificuldade em injectar capital nessas mesmas empresas, já que a credibilidade está em baixo?
É aqui que surge o oásis de oportunidades aproveitado pelas melhores empresas de alguns dos países que há uns anos estavam numa situação económica débil mas que hoje estão a entrar em Portugal devido à situação de bancarrota. Para que isto esteja a acontecer é preciso que as empresas tenham qualidade e futuro, porque senão ninguém investia um dólar. Se as empresas têm sucesso, tal deve-se ao facto de serem bem geridas em termos financeiros mas também estratégicos. Perante isto, é caso para perguntar, porque razão o país está como está. Ironia das ironias, serão aqueles que hoje estão a ajudar Portugal através do seu capital que irão salvar o país e não qualquer aumento de impostos ou corte na despesa. Em meu entender, isso também ajuda mas não essencial porque trata-se de arrumar a casa e a partir daí, o país cumprindo o memorando fica novamente sozinho tendo apenas de apresentar resultados orçamentais equilibrados.


Não ficaremos sozinhos, mas com a companhia daqueles que neste momento estão a comprar as nossas empresas, e será aqui que as nossas vidas mudarão, porque tudo o que conhecemos até agora será diferente. Melhor ou pior não sei, o tempo o dirá, mas será certamente diferente. Com a entrada de capital estrangeiro empresas como a RTP, ANA, TAP, EDP oferecerão serviços diferentes integrados numa economia liberal em que o factor relevante será o custo. Alterando a economia, tudo o resto seguirá também um caminho de mudança. O memorando será apenas uma questão de cumprir calendário, porque as verdadeiras mudanças acontecerão após a saída da troika. Aí Portugal será um país diferente. 

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