domingo, 9 de setembro de 2012

O Zénite?!



Em 2004, tive a oportunidade e a sorte de visitar S. Petersburgo. Sobre a cidade, sonhada por Pedro «O Grande», escreveu Dostoievski em «O Adolescente»: “(T)alvez tudo isto seja o sonho de alguém, e não haja aqui um único ser humano verdadeiro, autêntico, nem um só acto real? Alguém que vai acordar de repente, aquele que sonha tudo isto, e tudo desaparecerá de um golpe.”
A cidade, que Pedro quis tornar a porta da Rússia para a modernização do Ocidente (através do Báltico), foi fundada pelo Czar em território conquistado, a pulso, aos suecos. À primeira vista, quase todo o seu amplo centro histórico parece composto de palácios, uma vez que alguns edifícios são (ou eram…) de facto as colossais residências dos aristocratas que habitavam a nova capital do Império Russo – mas muitos outros são apenas prédios de habitação colectiva que possuem a aparência de palácios. A cidade dos operários, que Dostoievski tanto descreve na sua obra (com saliência para a S. Petersburgo do anti-herói Raskolnikov), esconde-se nos miolos dos quarteirões, habilmente dissimulada na rectaguarda dos palácios.
A cidade desenvolveu, ao longos dos séculos XVIII e XIX, com requinte e profusão, a «alta cultura» que ainda hoje podemos visitar: nas suas ruas; nos seus «Ballets» (um salto ao Mariinsky, por onde passaram incontáveis Czares, Rachmaninov, Tchaikovsky, Nureyiev, incontáveis dignitários bolcheviques, com Lenine e Stalin à cabeça, etc.); no palácio do Hérmitage – onde verificamos que a aristocracia russa, que vinha passar o Inverno a Paris, à Riviera ou ao Rialto, não somente era muito mais rica, como também muito mais cultivada que a aristocracia ibérica. Antes da tragédia de 1917, a nobreza russa comprava Picasso, quando em Lisboa, na Corte, do pintor espanhol nem a existência devia conhecer-se.
Infelizmente, a cidade está lá, mas as pessoas por quem, e para quem, foi construída, já não existe. Foram dizimados pelos Bolcheviques e os anos que se seguiram à Revolução de Outubro. Os que sobraram dispersaram-se, sobretudo pela Europa e Estados Unidos da América. É verdade que o Ballet e a Música sobraram, tal como o Hérmitage, conservados nos anos do comunismo para a Cultura, para a Propaganda, e agora também para o Turismo.
E quem sucedeu aos bolcheviques, que haviam dizimado aqueles que ergueram S.Petersburgo?! A oligarquia cleptocrata que se ergueu das cinzas do KGB no começo dos anos noventa, em redor de Ieltsin, e logo do sinistro Putin. Armados da disciplina, e das ferramentas, da polícia secreta soviética, tomaram de assalto as riquezas inesgotáveis da nação russa. Uma classe nefasta, à qual a decrépita União Europeia vai fazendo rapa-pés, silenciando o roubo escandaloso. Chama-se «realpolitik», mas também se pode chamar hipocrisia.
O filme «O Concerto», de Radu Mihaileanu (2009) caricatura muito bem essa realidade. Na semana passada, fizeram uma rapina em Portugal, e levaram para S. Petersburgo os dois melhores jogadores do futebol português. É melhor que nos vamos habituando à ideia de que um dia destes o Benfica e o Porto comecem a perder os melhores valores para uma cleptocracia mais austral, e não menos escandalosa, que tem por capital outro Santo: S.Paulo de Luanda.

Texto de José Luis Saldanha

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