sexta-feira, 11 de maio de 2012

O Desemprego, o Terramoto e Voltaire

Num dia trágico, absolutamente trágico em que soubemos do falecimento de um dos mais promissores (e não só) compositores e pianistas portugueses (Bernardo Sassetti), tivemos também direito a uma outra lição esta mais do tipo trágico-cómica. Hesitei pela primeira razão em escrever este post mas por fim decidi-me.

Diz o nosso primeiro que o desemprego pode ser uma oportunidade. Pois poder pode. Da mesma forma que o terramoto de 1755 foi uma oportunidade para reconstruir Lisboa. Poderão pensar que exagero mas nem por isso. Para alguém que fica desempregado nas circunstâncias actuais esse evento reveste-se da dimensão avassaladora de um terramoto sobretudo se como os prédios mais antigos tiver mais de 45 anos. Restam poucas oportunidades nas palavras do nosso primeiro para então se reerguer.

Aliás relembrando o terremoto essa frase do nosso primeiro evocame-me curiosamente um romance do contemporâneo (do terramoto claro está) Voltaire chamado Candide et L´Optimisme. Estou mesmo a ver o professor Pangloss susssurar a Passos Coelho antes de uma conferência de imprensa onde terá que anunciar que o desemprego atingiu 20%: "Não se esqueça de dizer aos srs. jornalistas que tudo está ao melhor no melhor dos mundos possíveis e que temos assim 20% de pessoas com novas oportunidades".

A bem dizer talvez Passos Coelho precise mesmo de um novo professor de lógica. Alguém que lhe explique o que é uma condição necessária e uma condição suficiente, a defeito de um pouco de bom senso estas primeiras poderiam ajudar um pouco. Na verdade é possível que o facto de estar desempregado possa constituir uma razão para procurar uma outra solução, uma vida melhor. Pode ser que seja, mas não é um condição necessária . Existem outras formas menos dramáticas e perturbadoras de atingir o mesmo objectivo. Não é tão pouco uma condição suficiente. Ou seja não chega estar desempregado para que isso seja só por si uma oportunidade, aliás a bem dizer essa será uma pequena parte - dá tempo e disponibilidade para procurar e pouco mais - porque para além disso cria isso sim uma pressão enorme que faz tudo menos catalisar oportunidades.

Diz o secretário geral do PCP que Passos Coelho não sabe o que é a vida. É verdade que até concordo com Passos Coelho quando refere que o desemprego não deveria ser estigmatizado. Essa parte positiva da mensagem é excelente. Entendo até o desafio e o gosto pelo risco que também transparecia das palavras que proferiu. Porém (e é um grande porém) ignorar o facto de que nas nossas condições de sociedade ser desempregado com mais de 45 anos (para já não falar de outras condições) é mais do que um estigma mas efectivamente uma tragédia pessoal é ignorar mesmo a realidade da vida.

Podem é verdade essas pessoas tentar dar a volta por cima, podem é verdade tentar encontrar soluções e batalhar. Podem sem dúvida. Não é necessário que cheguem a essa condição para o fazer e mais relevante do que isso não é suficiente que sejam desempregadas para que o consigam.

Em resumo Passos Coelho defendeu o terramoto para reconstruir uma vida. Pode ser uma solução da mesma forma que um canhão pode matar uma mosca. Existem é formas mais eficientes e mais eficazes mesmo em termos de custo por Euro investido e pelo menos a isso Passos Coelho deveria ser sensível.

1 comentário:

Francisco Castelo Branco disse...

O terramoto, neste caso o desemprego é uma inevitabilidade devido ás actuais circunstâncias. Ele nunca escondeu que o desemprego iria aumentar, o que só lhe fica bem.

Pode ser que depois desta tempestade venha a bonança.
Com ou sem subsidios

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