Etiquetas

terça-feira, 29 de maio de 2012

A História de Lula, Gilmar, Cachoeira e o Mensalão


Quem será que está falando a verdade? 
Fonte da foto: Jornal O Globo

Hoje, a principal machete nos jornais brasileiros retrata mais um escândalo de corrupção neste país. Este tipo de notícia é tão corriqueira que normalmente eu não trataria disto em meus posts.

Entretanto, faço uma exceção não apenas porque desta vez o personagem principal é o ex-presidente Lula, mas também porque envolve dois dos maiores escândalos políticos que já aconteceram na história do Brasil.

A denúncia feita na reportagem de sábado da Revista Veja diz que o ex-presidente Lula teria, supostamente, se reunido com o ministro do STF, Gilmar Mendes, e proposto que o ministro adiasse o julgamento do Mensalão em troca blindá-lo na CPI do Cachoeira.

O Mensalão foi o nome dado à maior crise política que aconteceu durante o governo Lula nos anos de 2005 e 2006. Tudo começou quando vazaram gravações de um dos diretores dos Correios do Brasil (empresa pública federal), no qual recebia propinas para favorecer empresários. Nesta gravação, o diretor explicou, com riquezas de detalhes, o esquema de corrupção nos Correios e citou que, o então deputado federal, Roberto Jefferson era o chefe do esquema.

Acuado, Jefferson acabou revelando, em entrevista à Folha de São Paulo, um esquema corrupção bem maior  no Congresso Nacional, conhecido como Mensalão, cujo o suposto mentor era o então Ministro da Casa Civil, o ex-deputado José Dirceu.

Resumidamente, os deputados da base aliada do governo recebiam uma “mesada” para votar nos projetos de interesse do Poder Executivo, que era bancada por empresários e chegava até eles através de desvios feitos pela agência de publicidade do empresário Marcos Valério.

Interessantemente, na época, mesmo tendo o seu governo sido beneficiado pelo esquema, que supostamente era liderado por José Dirceu, o seu homem forte, Lula declarou que não nunca viu e nunca soube de nada.

Em 2007, o STF iniciou o julgamento dos 40 acusados (que coincidência com o conto de Ali Babá e os 40 ladrões) por crimes de formação de quadrilha, peculato, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, gestão fraudulenta e evasão de divisas.

Já a CPI do Cachoeira é um escândalo datado de 2012, deflagrado pela Operação Monte Carlo da Polícia Federal para desarticular uma organização criminosa que explorava máquinas caça-níqueis e jogos de azar, ambos proibidos pela legislação brasileira, no Estado de Goiás.

Entretanto, a investigação da PF teve desdobramentos bem maiores do que se previa, pois as escutas telefônicas revelaram que o chefe da organização criminosa, o bicheiro Carlinhos Cachoeira, comandava muito mais do que a simples exploração de jogos ilegais.

Na verdade, descobriu-se que Cachoeira tinha ligações com vários políticos como o senador Demóstenes Torres, o governador de Goiás, Marconi Perillo, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz.

As investigações também apontaram que o bicheiro tinha ligações com a construtora Delta, do empresário Fernando Cavendish, responsável pela construção de várias obras públicas, dentre elas a reforma do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014, sendo esta a empreiteira que mais recebeu recursos do governo federal nos últimos 03 anos.

Curiosamente, segundo relatórios da Operação Monte Carlo, há indícios “de que a maior parte dos valores que ‘entram’ nas contas das empresas fantasmas [ligadas à Cachoeira] são oriundos da Delta Construções”.

Pois bem, diante da gravidade e repercussão do caso, o Congresso Nacional criou a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar as operações de Cachoeira, sendo esta popularmente conhecida como a CPI do Cachoeira.

Uma vez explicados ambos os escândalos, voltamos para o suposto pedido de Lula para o ministro Gilmar Mendes, para situá-los em seu contexto.

Apesar do processo do Mensalão ter sido iniciado em 2007, apenas agora em 2012, o seu julgamento se aproxima. Atualmente, o processo, que já foi relatado, encontra-se na mesa de seu revisor, o ministro Ricardo Lewandowski, faltando apenas que ele termine de ser revisado para ser posto na pauta de julgamento.

Ocorre que o ano de 2012 é bastante importante para a política nacional, porque é ano de eleições municipais, sendo esta a eleição na qual é feita a base política que servirá de apoio para as eleições presidenciais e estaduais, em 2014.

O julgamento do Mensalão antes da eleição pode causar prejuízos muito grandes ao PT, partido de Lula, envolvido até o pescoço no esquema das mesadas, de modo que a ressurreição do escândalo poderia custar-lhe a perda de prefeituras estratégicas no país.

Por sua vez, o ministro Gilmar Mendes foi citado em uma das conversas gravadas entre Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres, na qual o senador afirma que o ministro do STF o ajudou com uma ação judicial bilionária de interesse de Cachoeira.

Então, a suposta proposta de Lula para Gilmar Mendes foi de o ministro adiar o julgamento do Mensalão para depois das eleições, em troca de que ele fosse preservado na CPI do Cachoeira. Uma mão lavaria a outra e ambos sairiam limpos.

É obvio que Lula nega que tenha feito tal proposta, contudo Gilmar Mendes não só confirma a mesma, mas também se diz perplexo com o “comportamento e as insinuações despropositadas do presidente”.

Em quem acreditar? Não sei, nenhum dos dois é santo. O certo é que um deles está mentindo e que um deles cometeu um crime. E quanto a nós, brasileiros, só nos resta cantar a música de Cazuza: “Brasil, mostra tua cara, quero ver quem paga para a gente ficar assim. Brasil, qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim...”.

Larissa Bona

Sem comentários:

Share Button