segunda-feira, 28 de maio de 2012

2 anos no Parlamento Europeu

Entre Março de 1995 e Março de 1997 desempenhei as funções no Parlamento Europeu, sediado em Bruxelas, onde aliás nasceu o meu primeiro filho (na Clinique Baron Lambert), deslocando-me todos os meses durante uma semana a Estrasburgo para a sessão plenária, independentemente de também haver por vezes mini plenárias na capital do Reino Belga.

Mais propriamente, integrei a "Aliança dos Democratas Europeus" (ADE) e, depois, com a fusão (sim, também há fusões em política e não apenas no domínio das empresas) deste grupo parlamentar - onde estavam os franceses do RPR, os irlandeses do "Fianna Fail", os gregos da "Primavera Política" e os portugueses do CDS/PP - com os italianos da Forza Europa, no grupo "União para a Europa" (UPE).

E lembro-me bem que era com alguma estranheza, que constatava que os partidos políticos portugueses que integravam e integram (incluindo actualmente o CDS) os dois maiores grupos políticos do Parlamento Europeu, defendendo em Portugal determinado tipo de posições quanto ao processo da integração europeia, nomeadamente em períodos eleitorais, contradiziam depois com a grande ligeireza essas mesmas teses, votando ao lado dos defensores das proposições mais pró federalistas, sabe-se lá se por real convicção, se por mera falta de coragem para divergirem daqueles que efectivamente mandavam e mandam nesses agrupamentos políticos.

E sabe-se quem conduz o PPE e o PSE, sabe-se os propósitos que têm, sabe-se inclusivamente e eu testemunho-o pela prática que vivi, que faziam aprovar textos, com os votos do PS e PSD que, se do conhecimento dos portugueses, na sua verdadeira dimensão e significado, grande estupefacção, no mínimo, causariam ao grosso dos votantes destas duas formações partidárias em Portugal.

É que, com o seu voto (nominal e registado e portanto sem margem para equívocos), na grande maioria dos documentos sufragados pelo Parlamento Europeu, os deputados do PS e do PSD deram um contributo determinante para que fosse, por exemplo, adoptado o mecanismo do voto por maioria em inúmeras matérias, em detrimento da unanimidade, invocando para isso a operacionalidade do funcionamento interno da União.

Com as suas reiteradas atitudes, esses parlamentares estavam, ainda hoje me interrogo se conscientemente, a dar uma ajuda decisiva para a edificação da Europa do directório, para a Europa dirigida por meia dúzia de Estados, defensora dos interesses opostos aos de uma Europa das Nações, assente na igualdade jurídica de todos os Estados.

Surppreendo-me por isso com o espanto que hoje muitos dos dirigentes políticos expressam quanto à evolução da União Europeia.

Qual então espanto? O que é espantoso é que esta gente se espante com as consequências das posturas que eles próprios assumiram e seguramente continuam a defender e que, passo a passo, vão consolidando aquilo com que agora se espantam.

O que é verdadeiramente espantoso é que os que atempadamente chamaram a atenção para o rumo que a evolução do processo de construção europeia estava a ter, alertando para os perigos da introdução do voto por simples maioria, no processo decisório, tenham sido mimoseados com o epítetos que todos seguramente se recordarão.

Texto de Miguel Felix António - escreve em http://www.forteapache.blogs.sapo.pt/

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