segunda-feira, 16 de abril de 2012

14 - As Invasões Francesas

Em 1793 começou a crise europeia, que se seguiu à Revolução Francesa. Depois da morte de Luís XVI, as velhas monarquias sentiram-se em perigo e coligaram-se contra a França. Nesse ano esteve em Portugal um representante da Convenção, que vinha disposto a fazer ver ao Governo português as vantagens de se manter fora do conflito. Porém, o Governo recusou escuta-lo e ordenou-lhe a saída do país. Unido à Inglaterra, Portugal entrou na primeira Coligação. As consequências foram desastrosas. Espanha passou para o lado francês e deixou-nos isolados perante o poderoso inimigo.

A situação portuguesa foi, a partir de então, muito difícil. A Europa encontrava-se separada por dois grupos, liderados por França e pela Inglaterra. Se Portugal aderisse ao bloco gaulês, teria a Inglaterra como inimiga e isso representaria a ruína económica, visto que a riqueza que possuíamos estava no Brasil, e quem controlava o Oceano Atlântico era a armada inglesa. O alinhamento com a Inglaterra manteria o mar aberto, mas expunha-se à invasão espanhola, dado que a Espanha era aliada da França e o fruto que contava colher dessa aliança era a anexação de Portugal, recuperando o tempo vivido entre 1580 e 1640.

Desde a chegada de Napoleão ao poder, em finais do século XVIII, até 1807 os enviados diplomáticos do Reino de Portugal tudo fizeram para manter o país neutro, mas essa neutralidade era um objectivo muito difícil de conseguir num clima tão beligerante em que se encontrava o velho continente.

Os franceses aceitavam a neutralidade portuguesa, desde que esta fosse feita de forma integral, ou seja, desde que os portos portugueses não servissem de base aos navios da esquadra inglesa com quem estavam em guerra. Os ingleses serviram-se das águas nacionais como se fossem suas por direito, mas o Governo português não estava munido de argumentos para contrarias tal facto.

Apesar da situação particularmente delicada em que se encontrava o país, encurralado entre a ameaça terrestre e a ameaça marítima, Portugal foi aguentando a inviolabilidade das suas fronteiras, bem como da sua soberania.

A paz firmada com a Inglaterra durou pouco. Em 1803, a Inglaterra aliou-se à Rússia e à Áustria para combater a França. Dois anos depois, Napoleão organizou uma grande expedição para invadir o território inglês, mas as forças navais foram derrotadas na batalha de Trafalgar. Em terra, porém, o exército francês venceu as forças russas e austríacas em Austerlitz (1806).

As guerras napoleónicas geraram numerosas mudanças no mapa da Europa, com o fim do Sacro Império Romano Germânico, que existia desde o século X. Em seu lugar, Napoleão instituiu a Confederação do Reno.

Em geral, nas regiões dominadas por Napoleão acabavam por se formar governos fiéis ao imperador. Assim, a área de influência tornava-se cada vez maior.

A Inglaterra, por sua vez, continuava a ser o principal oponente da França. Com uma poderosa marinha e uma economia desenvolvida, resistia aos ataques de Napoleão, fazendo tentativas para minar as forças do maior adversário.

No início do Século XIX os exércitos napoleónicos invadem a Europa. Dominados por novos sentimentos imperialistas, tinham como objectivo o domínio da grande potência opositora: a Inglaterra. Com a superioridade naval Britânica a desaconselhar o desembarque em Inglaterra, Napoleão opta por outras frentes de batalha e decreta, em Novembro de 1806, o Bloqueio Continental, impondo o encerramento dos portos europeus aos navios ingleses.

A França dominava toda a Europa continental, à excepção da Península Ibérica. Face ao conflito, Portugal procurava conseguir uma difícil situação de neutralidade. Com o objectivo de salvaguardar o Porto de Lisboa, que era uma excelente base de operações para a esquadra naval britânica, a Inglaterra ameaça Portugal com a usurpação das colónias.

Estabelecida a aliança francesa com Espanha, os exércitos napoleónicos invadem Portugal, único país que assume a aliança com a Inglaterra. É neste contexto que Portugal sofre as três invasões francesas.

A primeira invasão ocorre entre 1807 e 1808 e é executada numa acção conjunta de França e Espanha, tendo a comandar o general Junot.

Junot promete vir libertar Portugal da tutela britânica, inicia a invasão ocupando Lisboa no dia 30 de Novembro e toma a presidência do conselho do Governo. Um dia antes, D. João parte com a corte para o Brasil nomeando um conselho de regência e mandando afixar avisos a aconselhar o povo a receber os franceses como amigos para evitar represálias.

Junot comandou a primeira invasão francesa a Portugal (1807-08) à frente de um contingente militar composto por 25 000 homens divididos em três divisões de infantaria e uma de cavalaria. Partiu de Baiona e entrou em Portugal pela Beira Interior, com a missão de alcançar Lisboa no mais curto espaço de tempo possível. Passando por Idanha-a-nova, Castelo Branco, Abrantes, Golegã e Santarém, as tropas francesas chegam a Lisboa a 30 de Novembro de 1807. Tinham por objectivo deter a família real e a corte, o que não chegou a acontecer porque D. João tinha já embarcado e saía da barra de Cascais escoltado por uma esquadra inglesa.Com um exército reduzido a menos de metade pela ocorrência de 15 mil baixas, Junot lançou uma proclamação em que se apresentava Portugal sob a protecção francesa e sob o domínio de Bonaparte. As reacções de protesto patriótico por parte dos portugueses, organizados em milícias populares com grande expansão no norte do país, conduziram a vários confrontos que contavam com a colaboração e o apoio militar dos ingleses a favor de Portugal. No Verão de 1808 começam as rebeliões contra o invasor e em Agosto desembarcam as forças inglesas comandadas pelo General Wellesley que será o futuro duque de Wellington. Sucedem-se as Batalhas de Roliça (17 de Agosto) e do Vimeiro (21 de Agosto) e a rendição francesa é firmada na Convenção de Sintra a 30 de Agosto, obrigando os invasores a abandonar Portugal.

Esta Convenção ficou muito aquém daquilo que deveria ser dado a Portugal. A rendição francesa foi feita a favor do exército inglês ao qual eram entregues os equipamentos militares ocupados, em troca a Inglaterra providenciava o transporte das tropas napoleónicas para fora de Portugal e apoiava, em termos logísticos, o envio dos materiais e bens para França, o que permitiu um autêntico saque generalizado sobre o património português

A segunda invasão, em 1809,resultou de um desdobramento das tropas napoleónicas contra a resistência espanhola a qual se começava a fazer sentir fortemente.

Em Janeiro de 1809 o marechal francês Soult vence na Corunha os contingentes britânicos. O plano de Napoleão era entrar em Portugal pelo Norte, descer pelo litoral e tomar Lisboa. Assim, Soult invade o país pelo Norte ocupando a cidade do Porto. Dois meses depois as tropas de Wellesley e do general Beresford chegaram para dirigir o exército português e vencem a Batalha do Douro, obrigando Soult a sair de Portugal.

Esta invasão acaba por ser, das três que sucederam, aquela que fica marcado por ter um menor período de duração e também a que deixa menos contributos para os anais da história.

As Linhas de Torres Vedras são o conjunto de linhas fortificadas que o General Wellington concebeu para a defesa de Lisboa às invasões francesas. Os trabalhos de construção iniciaram-se no Outono de 1809 e, num período inferior a um ano, construíram-se no maior segredo, 126 obras, entre fortificações permanentes e outras, de carácter temporário. Construíram-se barricadas e paliçadas, abriram-se fossos, covas de lobo, trincheiras e cortaduras, foram limpos os campos de tiro e, em certos pontos, aumentou-se mesmo o declive do terreno (escarpamentos). À retaguarda das Linhas, seguindo a crista das elevações e ao longo das posições fortificadas, construíram-se estradas militares, para ligação das várias obras, levantam-se pontes e calcetaram-se caminhos.

Uma extensa rede de estradas e caminhos militares, aliada às obras de hidráulica que permitiram submergir a Estrada Real que conduzia a Lisboa, cortando o acesso ao inimigo francês, complementou e conferiu grande flexibilidade a este sistema defensivo, ligando as fortificações entre si e permitindo uma rápida deslocação das tropas, no interior das Linhas.

A eficiência deste sistema defensivo baseou-se em cinco pilares fundamentais:

As Linhas de redutos encontravam-se munidas de peças de artilharia, que submetiam a fogo de flanco todas as entradas e desfiladeiros de aproximação do inimigo;

A construção das estradas militares que ligavam as fortificações entre si, permitindo uma rápida deslocação das tropas, no interior das Linhas;

A introdução de um sistema de comunicações telegráficas, adaptado ao da marinha, que permitia transmitir rapidamente mensagens entre as duas primeiras Linhas;

A construção das fortificações em segredo absoluto. Nem Massena, nem o Exército Francês tinham conhecimento destas fortificações. Mas também o Governo Britânico, a quase totalidade dos Oficiais do Estado-Maior do Exército Inglês e o Ministro Britânico em Lisboa, desconheciam a sua existência;

A associação de uma política de terra queimada e de desertificação, a Norte das Linhas, que levou à deslocação de cerca de 300 000 habitantes dos distritos vizinhos para dentro das Linhas, apoiando a sua defesa.

No dia 11 de Outubro de 1810, o exército francês chegou às Linhas de Torres Vedras. Após alguns combates de pouca monta, Massena reconheceu que, sem receber reforços, não tinha condições para ultrapassar este forte obstáculo. A sua progressão para Lisboa teria de esperar que a ajuda viesse de outras tropas francesas, em Espanha.Contudo, essa ajuda não chegou e Massena não podia permanecer indefinidamente nas posições que ocupava entre as Linhas de Torres e a constante acção de milícias e camponeses que cercavam a retaguarda do seu exército.

Os franceses enfrentavam um problema que punha em causa a sua capacidade de sobrevivência: a falta de recursos alimentares. O exército francês, para além de uma dotação base com que partia para cada campanha, abastecia-se nos territórios por onde passava. Essa experiência tinha dado bons resultados nas terras ricas da Europa Central mas as condições da Península Ibérica eram, em geral, diferentes. Além da relativa pobreza de muitos territórios, Wellington tinha ordenado que se retirasse do percurso a ser seguido pelo exército invasor tudo o que poderia abastecê-lo. Em grande parte essa ordem foi cumprida e, algum tempo depois de chegarem às Linhas de Torres, as tropas francesas enfrentavam a fome e o consequente aumento de doenças, o que provocou numerosas baixas nos seus efectivos.

Assim, a meados de Novembro, os franceses efectuam o primeiro movimento para a retaguarda indo ocupar uma região definida por Leiria, Rio Maior, Santarém e Tomar. A possibilidade de alimentar as tropas era aí maior mas não isenta de dificuldades pois estavam no início do Inverno. Podiam, no entanto, procurar alimentos na margem sul do Tejo mas as tentativas feitas para atravessar este rio fracassaram devido à acção de uma força militar que Wellington para ali enviara. Depressa se esgotaram os escassos recursos da região que então ocupavam e Massena não teve outra solução que iniciar a retirada.

O exército de Massena iniciou a sua marcha em direcção ao vale do Mondego no dia 4 de Março. Foi constituída em Leiria uma Guarda da Retaguarda para proteger o movimento do resto das tropas. Até ao dia 5 de noite permaneceram algumas unidades nos mesmos locais para iludir a vigilância das tropas Anglo-portuguesas. Quando, no dia 6, Wellington teve conhecimento que os franceses tinham retirado de Santarém, foi iniciada a perseguição. O objectivo era atacar continuamente os franceses para provocar o maior número de baixas, fazer prisioneiros e impedir que eles conseguissem reorganizar-se e ocupar uma boa posição defensiva. Assim nunca estariam em condições de enfrentar as tropas perseguidoras e seriam obrigados a continuar a retirada até território seguro, que seria, com toda a certeza, Espanha.

Na marcha até ao vale do Mondego, as tropas francesas foram continuamente pressionadas pelo exército de Wellington. Registavam-se alguns encontros entre as tropas dos dois exércitos. Destes são mais conhecidos os combates em Pombal e Redinha. Tendo encontrado forte resistência nas pontes que lhe possibilitavam a travessia do Mondego, Massena decidiu retirar em direcção a Espanha. Registaram-se mais combates em Condeixa, Casal Novo, Foz do Arouca e Ponte de Murcela. Entretanto, os franceses, com a finalidade de apressarem a marcha, começaram a desfazer-se de tudo o que não era essencial à sua sobrevivência: bagagens, carros de munições e até os próprios animais de carga.

Na noite de 18 para 19 de Março, os franceses fizeram, sem paragens, o trajecto de Ponte de Murcela à Chamusca (perto de Oliveira do Hospital). Foram 36 km percorridos com pouca visibilidade, por maus caminhos nas montanhas. As tropas anglo-lusas que os perseguiam fizeram cerca de 600 prisioneiros. Para tropas cansadas, esfomeadas e desmoralizadas, temos de reconhecer que este é um esforço notável. No dia 21 de Março chegaram a Celorico.

Massena continuava com a ideia de cumprir as ordens que tinha recebido de Napoleão: capturar Lisboa. Pensou em encaminhar as suas tropas para a Estremadura espanhola e, a partir daí, com o apoio de outras forças francesas, voltar a ameaçar Portugal. Mas as condições do seu exército eram já muito más e, nestes casos, as acções de insubordinação aparecem facilmente. Massena acabou por reconhecer a impossibilidade de concretizar aquele plano e, no dia 29 de Março, deu ordens para as forças se concentrarem na Guarda para daí seguirem para Ciudad Rodrigo.

Neste percurso para Ciudad Rodrigo, o exército francês fez uma paragem na região do Sabugal, perto da fronteira, na margem oriental do rio Côa. Aí foram atacados pelas tropas de Wellington e foi travada a batalha do Sabugal, sendo os franceses obrigados a retomar apressadamente a sua retirada, atravessando a fronteira no dia seguinte. Ficava em Portugal, na praça de Almeida, uma guarnição francesa que Massena não esqueceu e procurou libertar.

Wellington tinha posto cerco à praça de Almeida desde 7 de Abril mas o exército de Massena recompôs-se mais rapidamente que o esperado e, em breve, dirigia-se novamente naquela direcção. O cerco foi mantido com um número muito reduzido de tropas e Wellington tomou as disposições necessárias para impedir o avanço do seu inimigo. Os dois exércitos encontraram-se na região de Fuentes de Oñoro. Os combates tiveram início no dia 3 de Maio, foram quase interrompidos no dia 4 para reorganização dos dispositivos e o embate principal deu-se no dia 5. O exército de Massena sofreu outra importante derrota e ficava afastada, em definitivo, a possibilidade de socorrer Almeida.

Wellington voltou ao cerco daquela praça. Pensou que conseguiria obrigar a guarnição francesa a render-se pela fome pois eles não tinham possibilidades de serem abastecidos. Mas Massena conseguiu fazer chegar um correio ao interior da praça. Este correio continha instruções para uma tentativa de fuga da guarnição. Pouco antes da meia-noite do dia 10 de Maio, a guarnição francesa que se encontrava em Almeida saiu da praça pela porta norte e conseguiu abrir caminho pelo cordão de vigilância montado à volta da fortaleza. No dia seguinte de manhã, tinha-se reunido às tropas francesas que os esperavam do outro lado do rio Águeda. As últimas tropas francesas que tinham participado na terceira invasão saíram finalmente de Portugal.

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