quinta-feira, 22 de março de 2012

Causas & Coisas - a ultima aula

Hoje o Professor José Gonçalves Proença, ex Ministro do governo Salazar, lecciona a sua ultima aula da cadeira de Direito Internacional Privado. Os anos de ensino foram tantos que o Ilustre Professor conseguiu ser o docente de várias gerações da mesma familia. Não só teve o neto como aluno, mas também sua tia e avô.
De facto, não deve ser fácil atravessar estas gerações. Foram quase 80 anos......
Nas conversas sobre a competência e interesse das aulas deste Catedrático, há sem dúvida um aspecto que é comum : Apenas a primeira aula teve o privilégio de ter uma assistência digna de registo, porque no resto do período as salas estavam completamente vazias.
Não por culpa da qualidade de oratória do Ilustre, mas sim porque o escorço histórico não interessava muito numa cadeira desinteressante, complicada e sem qualquer utilidade para a vida prática.
No fundo, era importante marcar presença na aula de apresentação, mas depois havia coisas mais interessantes para fazer do que estar a ouvir o professor a citar o livro de cor e salteado....foram tantos anos!
E nem a obrigatoriedade nas aulas teóricos mudou a mentalidade dos alunos. Parecia que a mentalidade ia saltando de geração em geração de forma automática.
O pior tormento para os alunos eram as orais. Quando o Ilustre chegava à sala, os alunos tremiam de medo. Muitos no dia anterior, rezavam para que a oral fosse dirigida pelos professores assistentes. Volta e meia, o Ilustre Professor aparecia para "queimar" alguns alunos. No exame oral era complicado convencer que a matéria estava a ser bem dita, até porque ao entrar na sala o sentimento de receio era uma realidade. A preocupação não era com a oral, mas com quem iamos calhar.
O mais normal era 90% dos alunos chumbaram, e os restantes 10% passarem mas com o dezito e com uma "dádiva do Ilustre Professor", mas no fim o alívio era enorme porque a cadeira do Ilustre já tinha sido feita. E não esquecer, que mesmo quando a oral corria bem, os alunos corriam o risco de serem mandados embora da oral a meio por deficiência de compreensão do Ilustre Professor e não por culpa do aluno que até sabia bem a matéria. Este ultimo não sabia porque havia chumbado.
No dia de hoje, muitas destas histórias acabam. Não sabemos se as orais continuam mas em relação ás aulas é definitivo. No entanto, fica na história da Universidade Portuguesa, e em especial de Coimbra, a imagem de um grande homem e de um Professor genial, não obstante os relatos e as intrigas de quem foi ensinado.
De certeza, que o Ilustre Professor sairá sob uma enorme salva de palmas, apesar dos presentes na cerimónia também partilharem do mesmo sentimento que estas palavras tão bem expressaram.

1 comentário:

Fatyly disse...

mas sim porque o escorço histórico não interessava muito numa cadeira desinteressante, complicada e sem qualquer utilidade para a vida prática.
..........
são coisas destas (e haverá muitas mais) que me tiram do sério

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