terça-feira, 20 de março de 2012

Brasil vs. Thor, o deus do trovão


Thor Batista. Fonte: divulgação.

Imagine que Américo Amorim, o homem mais rico de Portugal, tivesse um filho de 20 anos (eu não sei se ele tem) e que este filho, ao voltar de Coimbra para Lisboa, em seu carrão esporte, atropelasse e matasse um ciclista na autoestrada. Haveria clamor público a respeito disto em Portugal?

Pergunto isso, porque foi exatamente o que aconteceu no último sábado aqui no Brasil: Thor Batista - filho de Eike Batista, o homem mais rico do Brasil e sétimo mais rico do mundo - atropelou e matou um ajudante de caminhoneiro na autoestrada que liga Petrópolis ao Rio de Janeiro.

Thor, herdeiro de um bilionário com uma glamorosa modelo e símbolo sexual, branco, musculoso, loiro e com o nome de um deus nórdico, recém saído da adolescência, vinha de Petrópolis, localizada a 66 km do Rio de Janeiro, em seu Mercedes-Benz SLR McLaren, quando atropelou e matou, em circunstâncias ainda não esclarecidas, Wanderson Pereira dos Santos, preto, pobre, filho de pai desconhecido e abandonado pela mãe, que vinha em sua bicicleta velha de volta para a sua casa na favela.

Estes dois homens, apesar de viverem vidas opostas social, racial, cultural, familiar e, principalmente, financeiramente, uniram-se em um evento macabro no qual um deles perdeu a vida e o outro vai carregar em sua consciência, até o fim dos seus dias, o peso de uma morte.

Para a opinião pública brasileira, tão acostumada às novelas das 2h, 17h, 16h, 19h, 21h e 23h, mais do que um acidente, isso se tornou uma história de bandido e mocinho.

A grande maioria deu a Thor Batista o papel de vilão, pelo simples fato de que é um privilegiado, ou, usando o palavreado que li na internet, “um plaboyzinho filhinho de papai inconsequente”, e o mocinho é Wanderson, trabalhador, pobre, abandonado pelos pais e mártir.

Tal fato revela um traço muito importante da cultura brasileira: aqui não se admira aqueles que vencem na vida, ser rico e bem sucedido não é virtude, mas sim defeito e dos graves.

O brasileiro, com o seu histórico de escravidão e pobreza, sempre viu os ricos como os inimigos, pois muitos deles chegaram ao topo usando a violência, corrupção e abusando da impunidade. É uma inveja misturada com indignação, até justificável, pois, infelizmente, são poucos os que conseguem enriquecer de maneira honesta neste país.

Então, Thor foi eleito o vilão não porque se comprovou que ele foi o culpado pelo acidente, mas sim porque é filho de Eike, aliás, é assim que os jornais o chamam em suas manchetes.

Neste caso específico, li muitos comentários que diziam: “ele é filho de bilionário, isso não vai dar em nada, ele vai comprar a polícia e a Justiça, daqui a pouco vão processar a família do morto para pagar o conserto do carro do Thor”.

Teve outro que disse: “para mim, só porque é filho de quem é já está errado”. E o mais engraçado é que, em resposta a este comentário, outro disse: “O que é isso rapaz? Não pense assim, ele é filho de um trabalhador, não é filho de político”. Confesso que nesta parte eu ri, ser político é pior do que ser rico.

O Wanderson, por outro lado, apesar de ter sido alçado ao posto de mártir, quase não é citado, ninguém tem compaixão dele ou da família, ninguém usa a internet para dedicar-lhes palavras de conforto por conta de seu brutal falecimento, ele é apenas o símbolo da luta do bem contra o mal. Ninguém se importa com ele enquanto ser humano!

E, para ser sincera, acredito que, no fundo, as pessoas tampouco se importam com o Thor, porque as pessoas não o odeiam, mas sim o seu pai, pelo simples fato de que Eike é o homem mais rico do Brasil.

Antes que algum maluco brasileiro leia este post e ache que eu estou defendendo o Thor, porque o analfabetismo funcional é também algo grave em meu país (não estou sendo presunçosa, é que eu conheço o meu povo), esclareço que apenas estou analisando o comportamento da opinião pública brasileira diante da notícia. .

Dos fatos concretos, tudo o que se sabe é que Thor Batista não estava alcoolizado, que prestou socorro, mas que não houve muito a fazer, pois o corpo de Wanderson ficou completamente dilacerado, o que pode dar margem a suspeitas de que o jovem estivesse acima da velocidade permitida, o que será comprovado pela perícia.

Ontem, Thor deu sua versão dos fatos no Twitter, disse que Wanderson atravessou inadvertidamente a autoestrada e causou o acidente. Infelizmente, Wanderson já não está aqui para dar a sua versão, mas o advogado da família alega que houve irregularidades na perícia do automóvel, que o atropelamento se deu no acostamento e não na pista.

De fato, faço um adendo em relação ao advogado, pois me chamou bastante atenção que uma família sem recursos como a de Wanderson já tivesse um advogado particular tão rápido, sendo que este deu declarações na imprensa de que entraria com uma ação de danos morais e materiais contra Thor e que só depois avaliaria se era o caso de dar início a um processo criminal. Ou seja, pensa-se primeiro em arrancar dinheiro dos ricaços e só depois vamos ver se clamamos por Justiça. Não deveria ser o oposto?

Não critico a família por ter um advogado, muito pelo contrário, é essencial que tenham um em uma situação como esta, apenas acho triste essa inversão de valores feita por meu colega de profissão, que soou um tanto quanto oportunista de sua parte, pois duvido muito que uma família enlutada tenha outra prioridade senão a de fazer Justiça.  

Quanto ao acidente, eu me abstenho de opinar, porque não estava lá e não presenciei os fatos, como que vou emitir um juízo de valor sobre algo que não sei? Ademais, até o momento, não saiu nenhum laudo pericial e a investigação da polícia ainda não terminou.

Diferente de grande parte dos meus compatriotas, não vou prejulgar ninguém. Discordo do clichê que diz que não devemos julgar ninguém, muito pelo contrário, até entendo que todos temos o direito de julgar todo mundo, afinal todos temos direito a ter uma opinião. E o que é ter opinião senão julgar? O que não temos é direito de prejulgar, isso sim é perigoso e mesquinho.

Entendo que o trânsito no Brasil é uma selva mais perigosa que a Amazônia e tanto os motoristas, quanto pedestres, motociclistas (estes são os que mais fazem loucuras) e ciclistas são potenciais causadores de acidentes.

Logo, vou esperar a Polícia dar o seu parecer final antes de emitir opinião e aproveito para prestar meus sentimentos a ambas as famílias, especialmente, a de Wanderson, pois perder um ente querido, desta maneira, é extremamente doloroso.

Larissa Bona

7 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

Essa é uma discussão ridicula.

Ninguem tem de ser olhado de lado porque é rico ou pobre. As pessoas são como são e o facto é que quem trabalha e sua muito tem direito áquilo que entender....

Quanto aos mais pobres devem ser ajudados.....

não me lembro de nenhum caso semelhante em Portugal.

Larissa Bona disse...

Pois, aqui no Brasil estão crucificando o Thor Batista, por puro preconceito social, sem uma análise fria dos fatos. Enquanto que nos EUA há a segregação racial, aqui há a social. Há tanto preconceito dos ricos para com os pobres, quanto o contrário. É um dos defeito dos brasileiros.

Fatyly disse...

São os famosos julgamentos populares contra os quais sou totalmente contra, e até cá acontece isso por vezes em acidentes ou outra coisa qualquer do género, há sempre a tendência de ir contra o filho(a) de pais ricos e ou famosos em detrimento dos mais pobres ou desconhecidos, quando por vezes a culpa está no pobre e não no rico. Também os jornalistas são peças fundamentais em como dão a notícia...enfim!

Pelo menos Thor não estava alcoolizado e prestou socorro, ao contrário de muitos que fogem sejam ricos ou pobres.

O "adendo" que fazes em relação ao advogado "tão rápido" da família de Wanderson, a meu ver Larrissa é o que eu chamo "o oportunismo de alguns advogados" que não cobram nada à família mas vêm no caso um "filão". Estarei errada?
É que por cá, que também não primamos pela perfeição, há determinados advogados mais que conhecidos que estão em quase em todos os processos mediáticos, alguns - segundo os seus constituintes- a custo zero...mas lá está a realidade perversa, a televisão dá uma visibilidade e notoriedade que não é para todos.

As minhas condolências aos familiares de Wanderson e que Thor seja ilibidado ou condenado conforme a situação, já que na sua cabeça ficará esta marca para sempre.

Um abraço

Larissa Bona disse...

Concordo com você Fatyly, o oportunismo do advogado é desprezível. Aproveitar-se de uma família humilde, que sofre a dor de uma perda ente de maneira brutal, não só para aparecer, mas também para ter a chance de sugar o máximo que puder pessoas que ele sabe que tem muito dinheiro. Isto é simplesmente nojento, tanto quanto um abutre que cerca um cadáver.

Francisco Castelo Branco disse...

O caso mais notorio do que estão a falar foi o caso maddie, em que o advogado dos pais só queria mesmo aparecer nos media.

Larissa Bona disse...

Lembro-me bem deste caso, morava na Inglaterra quando ocorreu. Aquilo foi um verdadeiro circo feito pela mídia britanica.

Denilton Santos disse...

Parabéns a essa notável blogueira. Acessei este blog por acaso e logo tive a infelicidade de me deparar com essa postagem.

Lendo o inicio desta postagem (pois nem tive coragem de terminar) vi que a influência burguesia portuguesa aflorou em todas as linhas.

Mas é isso mesmo que eu brasileiro, negro, pobre, alfabetizado e bem letrado, vivencio todos os dias: príncipes loiros e quase "gregos" matam todos os dias gente do meu povo e ainda são os mocinhos da história!

Essa é novela que o brasileiro gosta, escrita por gente como você, que expressa tão sutilmente seu racismo velado, que transpassa nojo para quem esta do outro lado.

Mas eu e meu povo (os negros e pobres) estamos aqui, acessando, entrando em blogs como estes para dizer que você e suas ideias de defesa branca opressora estão em constante e demasiado atraso histórico e mental.

Bom... Acho melhor você rever o termo ignorantes... Já que ignorante é quem desconhece ou critica algo sem conhecer. Portugueses não conhecem o povo brasileiro, principalmente você...

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