terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A violência e a revolta da Polícia




Muito se fala sobre o enriquecimento do Brasil, como o país cresce e torna-se uma das grandes potências econômicas do mundo. Entretanto, este tipo de “propaganda”, que não é de todo enganosa, mas superestimada, encobre problemas que, apesar do crescimento econômico, não deixaram de existir.

O Lula não foi um gênio da lâmpada que, com um piscar de olhos, revolucionou o Brasil e acabou com todos os problemas da nação, como alguns tentam fazer crer. O ex-presidente desenvolveu muito bem o papel que cabia a si: promover o desenvolvimento social depois que os dois governos anteriores resolveram o pior dos problemas do Brasil nas décadas de 80 e 90, a hiperinflação.

E se, no passado, o nosso maior problema era a hiperinflação, hoje o nosso maior calo é a segurança pública, pois, apesar dos números mostrarem que milhões de pessoas saíram da pobreza, a criminalidade só aumenta, principalmente por sermos o principal entreposto do tráfico internacional de drogas.

Para se ter ideia da violência, só na região Nordeste, a segunda mais populosa do país, com cerca de 53 milhões de habitantes, foram contabilizados 18.073 homicídios só em 2010. No mesmo ano, no Iraque, país no qual ocorre uma guerra civil, morreram 4.000 pessoas.

Basicamente, no Brasil existem quatro tipos de Polícia: a Civil (responsável pela investigação de crimes comuns), a Militar (responsável pelo policiamento ostensivo nas cidades e Estados), a Federal (responsável pela investigação de crimes federais) e a Rodoviária Federal (responsável pelo patrulhamento das estradas interestaduais).

As duas primeiras Polícias, a Civil e a Militar, popularmente conhecida como PM, são sustentadas pelos Estados, e as Polícias Federais pela União. Logicamente, que as Polícias Civil e Militar são as mais pobres e despreparadas, não só no quesito de treinamento, mas também de equipamentos e salários.

Por exemplo, ano passado, o estabelecimento comercial de meu tio foi assaltado e ele foi obrigado a ir a várias delegacias fazer o boletim de ocorrência, não porque tivesse a esperança que o crime fosse investigado, mas porque precisava daquele documento para protocolar o pedido de ressarcimento perante o seguro, e quase não o conseguiu porque nenhuma das delegacias tinha tinta nas impressoras. E isso não é exceção, é mais comum do que se imagina.

Desde outubro do ano passado, policiais militares de vários Estados começaram a entrar em greve, pedindo melhorias nas condições de trabalho, pois possuem salários baixos (algo como 700€ mensais no Estado do Ceará, onde vivo), armas e coletes a prova de bala de péssima qualidade e jornadas de trabalho extenuantes. Começou com a PM do Piauí, depois veio a PM do Ceará, na época do Réveillon, e agora está em greve a PM da Bahia.

Eu não tive acesso aos dados da greve do Piauí, mas no Ceará, a PM ficou 05 dias de greve e neste período foram registrados 50 homicídios na grande Fortaleza. Agora, foram registradas 70 mortes em apenas 03 dias de greve na grande Salvador.

Aliás, a situação da Bahia é crítica porque, além disso, se aproxima o Carnaval e é justamente em Salvador que é realizada a maior festa popular de rua do mundo. Milhões vão para as ruas todos os dias do Carnaval e, se a greve continuar, o principal evento turístico do Estado corre o risco de não ser realizado, logo o prejuízo financeiro vai ser enorme.

Os policiais militares ocuparam a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia e o prédio está cercado pelo exército que, até pouco tempo, ameaçava invadi-lo e sem luz. E, para piorar o cenário, mulheres e filhos dos policiais também estão lá dentro.

Tirando o fato de que eu acho uma irresponsabilidade levar crianças para uma ocupação de prédio público (colocar vidas de seus próprios filhos em risco para reivindicar o que quer que seja é um absurdo) e condeno não deixarem um efetivo mínimo nas ruas (assim como não é justo que policiais morram por falta de condições de trabalho, não é justo que a população pague com a vida também), acredito que os policiais têm razão de sobra para fazer greve.

Larissa Bona

18 comentários:

expressodalinha disse...

Não concordo com essa greve, por mais justos que sejam os propósitos. Os fins não justificam os meios.

Larissa Bona disse...

Eu até entendo o porquê da greve e tudo mais. Realmente, ser policial no Brasil é complicado. Mas não gosto nem um pouco do show de horrores que os policiais promovem ao retirar todo o efetivo das ruas, para depois usar as mortes que eles sabem que acontecerão contra os governantes, dizendo que os governantes são os responsáveis por elas. Tive até uma mini discussão com uma amiga minha no Facebook, que é policial, porque eu afirmei que os policiais também eram responsáveis pelas mortes. Mas acho um absurdo utilizar a vida humana como método de pressão social. Os policiais, como qualquer outro profissional, tem direito a greve, mas eles devem ter em mente que eles não são profissionais quaisquer, até para fazer greve eles devem ter mais responsabilidade.

Francisco Castelo Branco disse...

existem muitos policias corruptos no brasil. É uma praga.

O combate ao crime deve começar por aí

Larissa Bona disse...

Sim, a corrupção é um grande problema na Polícia. Inclusive, no Rio de Janeiro, já há milícias. Além do mais, com o baixo salário que recebem, os policiais ficam mais propensos à corrupção. A grande maioria dos policiais, quando estão de folga vão fazer o que chamamos de "bico", isto é, vão trabalhar como freelancers fazendo serviços de segurança privada, para complementar a renda.

Francisco Castelo Branco disse...

o tropa de elite mostra bem isso. bom exemplo

Larissa Bona disse...

Você já assistiu ao Tropa de Elite II, Francisco? Ele fala das milícias.

Fatyly disse...

Um problema terrível e ao ler-te sinceramente vi também a realidade portuguesa: policias muito mal pagos, que têm de comprar os seus próprios coletes à prova de balas, algemas e com armas e automóveis completamente desajustados à criminalidade que aumenta de dia para dia. Numa rusga ou numa luta de corpo-a-corpo rasga a farda e tem que pagar do seu bolso? Para não falar também da corrupção que existe que é mais do que se julga.

Quer aí, quer cá, "Têm razão de sobre para fazer greve" mas como profissionais que são e do que são, perdem a razão por "não assegurarem um efectivo mínimo nas ruas" (cá já fizerem mas asseguraram esse mínimo).

Aí quando prendem "os assassinos, vândalos, ladrões etc" ficam mesmo presos e se é preciso matar, matam numa defesa da população, mas cá prendem-presentes a um juiz-são soltos com apresentações periódicas nas esquadras...e voltam a fazer e voltam a sair...e muitos mais coisas e o que me leva a pensar: valerá a pena abraçar um profissão dando o corpo ao manifesto com uma justiça que não funciona?

Resultado? quem aguenta é o povo que sofre na pele tudo que "pilantra faz" e andar de comboio na linha de Sintra, a mais perigosa de todas...é Larissa...proclamam para andarmos de transportes públicos...mas segurança zero!

Oxalá que encontrem uma solução para não haver mais mortos e que a segurança volte.

expressodalinha disse...

Eu tenho muito medo dos polícias. Tem armas legalmente e podem disparar preventivamente. Nunca gostei.

Larissa Bona disse...

Fatyly, isso do bandido ser solto minutos depois de ser preso acontece bastante no Brasil também, aliás é o que mais acontece, desde que se tenha um bom advogado, é claro.

Às vezes nem precisa quando é menor de idade, tampouco vai preso.

E os que são mortos geralmente são pobres, consequentemente, pretos.

Larissa Bona disse...

Expresso, quando você falou sobre o seu medo dos policiais e suas armas, eu me lembrei de uma pesquisa que saiu semana passada na Folha de São Paulo.


Segundo esta pesquisa, 1 em 5 cada assassinatos na cidade de São Paulo, no ano passado, foi cometido por um policial militar.

"Em 2011, 1.299 pessoas assassinadas na capital, 290 o foram pelas mãos de policiais; 22,3% do total.

Desses 290 assassinados por policiais, 229 são crimes com a identificação de "resistência seguida de morte" e 61 homicídios dolosos (com intenção de matar) fora do trabalho."

E sabe por que a maioria destes crimes é identificada como resistência seguida de morte?

Porque o Código penal diz que matar alguém é crime. Mas se a pessoa que está cometendo um crime resiste à ordem legal do agente de segurança do Estado está cometendo outro tipo de crime, a resistência.

Por isso, os boletins de ocorrência são feitos como resistência seguida de morte, ou seja, a vítima morre e ainda é a culpada de morrer, porque resistiu e o agente não teve outra opção senão matá-la. É um mecanismo para poder arquivar os processos dos policiais.

Apesar de não existir pena de morte no Brasil, pessoas são executadas nas ruas apenas por serem suspeitas de algum crime.

expressodalinha disse...

Não tenho dúvidas. O único caso sério que tive com um polícia foi no Gabão, Libreville. A ideia é intimidadar para estorquir. Ainda por cima a pressão era sobre um colega bem gira e loira (íamos em trabalho). Consigui negociar o preço para nos deixarem dair. Não há embaixada portugusa no Gabão, mas a sensação é de sequestro e potenciais perigos acssórios esteve presente. Entreguei 300 francos ao polícia (el queria mil) ao fim de uma tremenda discussão diplomáticamente bem coduzida.Um susto que virou anedota. Sobre os meus incidente e gaffes em Africqa farei uma série de pots...

Francisco Castelo Branco disse...

Em Portugal os policias não disparam. É muito raro e acontece em situações excepcionais.

Não comparem as duas realidades. Até porque as nossas polícias são do melhor que há.

Quanto a essa questão de eles prenderam e minutos depois serem soltos, isso vai acabar com a nova reforma do Processo Penal.

Larissa Bona disse...

Tenho a impressão de que a Polícia de Portugal é infinitamente melhor (ou menos pior) e menos corrupta que a brasileira.

A nova moda no Brasil é colocar crianças para cometerem crimes, porque elas não podem ser presas, são inimputáveis. Outro dia, quase ia sendo assaltada por um menino de uns 8 ou 10 anos, com uma arma na mão.

Acabei de saber que a Polícia do Rio de Janeiro, "capital mundial dos traficantes de droga", também entrará em greve amanhã. Se isso acontecer, não espero menos que um genocídio. Os traficantes estão com sede de vingança depois que alguns morros foram ocupados pela Polícia. Mais mortes... mais mortes...

Francisco Castelo Branco disse...

qual é o verdadeiro problema de segurança do brasil?

o que é preciso mudar? fazer melhor?

Larissa Bona disse...

O verdadeiro problema da segurança chama-se FALTA DE EDUCAÇÃO!

O Estado não dá educação de qualidade para as pessoas, que por sua vez sem qualificação não conseguem empregos e dinheiro.

Empregos há, tanto que este ano houve um recorde de emissão de vistos de trabalhos para estrangeiros, porque os brasileiros qualificados são minoria, pois nem todo mundo tem condição de pagar escola privada cara a vida toda.

Então, para estes marginalizados, o que resta é roubar e traficar drogas, porque eles não tem perspectiva nenhuma de vida.

Solução para o problema do Brasil chama-se investimento em educação e pronto. Com o tempo, a violência diminuiria.

Francisco Castelo Branco disse...

é estranho o Brasil continuar a ter este problema quando é umas potências mundiais.

Larissa Bona disse...

Francisco, mas o problema é que o Brasil não é uma potência mundial.

Isso é uma falácia espalhada pela mídia. Como é que somos uma potência e o nosso IDH está atrás do México, Argentina (país em bancarrota) e Chile? De que adianta ser rico no PIB, mas miserável na qualidade de vida?

Na verdade, o país produz muito porque tem muitos recursos naturais e um mercado consumidor grande. Mas os nossos problemas sociais são gravíssimos.

Não fomos afetados pela crise porque tudo o que está passando agora no mundo nós já vivemos na década de 80/90. Então soubemos nos proteger.

Até comida em Portugal, que produz muito pouco em relação ao que produzimos, é mais barata. E pior, os salários são baixíssimos por aqui.

Eu encaro o crescimento do Brasil não como algo sólido, mas sim uma grande bolha, pois enquanto não investirmos em educação, não vamos ter algo concreto.

Fatyly disse...

FCB
"Quanto a essa questão de eles prenderam e minutos depois serem soltos, isso vai acabar com a nova reforma do Processo Penal."

oxalá que sim, uma vez que a alteração de Laborinho Lúcio era excelente...mas como a justiça não era célere batíamos o recorde na coação "preventiva", levámos nas orelhas e alteraram para pior...todos ou quase todos aguardam julgamento em liberdade!

Sim a nossa policia é EXCELENTE, mas sabes melhor do que eu que esta "porta giratória", o facto de serem destacados para outras zonas onde vivem em instalações péssimas, mas péssimas mesmo e outros factores "gritantes" que já referi levam a uma frustração e consequente suicídio!

Larissa
Vi agora na TVRecord o descalabro...e a coisa tá preta mesmo...e longe de estar para breve a resolução e acalmia! Minha nossa!!!

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