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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Para nascer pouca terra, para morrer toda a terra - Cadernos de Estocolmo

Não é do meu hábito revelar o que ando a escrevinhar, no entanto, aqui vai uma luz, talvez porque este mês acabei por sofrer do mesmo problema do poeta da seguinte história:
“Logo à noite peço-te para me beijares, canto-te uma canção de embalar.” Já fala Carla Maria ao telemóvel e o que diz demora-se nas antenas que a separam de Francisco José. Carla Maria no café à beira da estrada pedindo “bola de Berlim”, Francisco José, por sua vez, reclama do tráfego na cidade longínqua. É outro tipo de encontro que por aqui se dá, um que contrasta com os carros que passam ordeiros e paralelos em faixas diferentes sem que nunca os respetivos condutores se olhem ou troquem duas palavras de delicadeza. O mundo é este contínuo de momentos paralelos que não se repetem, paradoxos tantos que o mundo parece ser obra de criatura responsável que ordena milhões de irresponsáveis através dum remoto código de condução.

Num dos cantos do café, virado para a janela, como que assistindo ao espetáculo do mundo, está Eduardo Feliciano sentado. Sabe que a descrição que se acabou de fazer representa apenas uma pequena parte do mundo. Dirá, se é que já não disse, que mundo inteiro não existe, que o homem sozinho ao inteiro não chega. Seria preciso reunir todos os homens e mulheres numa longa fila, os mortos, os vivos e os que estão para vir, e juntá-los pelas mãos e bocas. Mas não é por causa destas frases que tem a alcunha de poeta. A sua barba imponente, umas ramelas, o blazer velho, a camisola verde e por isso um dia emprestou-se a si mesmo o cognome de Dinis. Entre risos e acreditando na brincadeira, Maria Tarecos assim o chamou para sempre. Quando morreu, levou com ela o nome e a fé. Esta sim, a verdadeira essência do eterno.

Eduardo Feliciano pede o mesmo café queimado e repleto de borra. Não é por ele que aparece. Vem para ver o mundo. Como sempre e como agora, Eduardo senta-se à mesa, pega no bloco mas não escreve. O mesmo bloco fará vinte anos a coisa de algumas semanas e não tem sequer uma réstia de tinta. Por vezes basta encostar a caneta e logo esta deixa um rabisco ou um ponto sem qualquer sentido. Mas destes hieróglifos nem sinal. Um bloco puro como pedra bruta, insensível e agreste. Quem disse que virgindade é sinónimo de beleza?

“O poeta não escreve há vinte anos”. Conclusão do estudo científico realizado pelo grupo de tagarelice que todos os dias faz peregrinação aos bolos.

- Também vi.

-Viste?

A caneta suspensa. O bloco deitado na mesa já sabe que aquele amor é platónico. Os dois dedos que em seguida seguram a pequena chávena numa antecipação de cafeína, o segundo suficiente para imaginarmos que é agora, é agora que ele vai escrever. Se pudéssemos parar o tempo e sobrevoar o café para melhor ver a cena, ou seja, se inventássemos forma de controlar este tempo e inventar outro, veríamos que Eduardo está separado do mundo por um silêncio material. Uma cortina invisível que nele habita e que finalmente o carateriza, afinal o desejo de ver o mundo passar-lhe nas mãos sem o tocar. Escrever é querer o eterno e Eduardo não tem essa pretensão. Ultrapassado momento ofegante, o mundo finalmente relaxa. É chegada altura de prosseguir com as formas de entrevista de emprego que o mundo nos arranjou: doenças, guerras e sofrimentos. “É mais do que certo que lá em cima nos guardam um dia e uma hora.”

11 comentários:

daga disse...

que lindo texto! obrigada :)

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

muito obrigado!

Francisco Castelo Branco disse...

está muito bom sem duvida.

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

também obrigado Francisco! abc

Francisco Castelo Branco disse...

Podias construir uma historia a partir daqui.

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

é isso que estou a fazer; isto é um excerto

Francisco Castelo Branco disse...

boa!

expressodalinha disse...

Um excerto que merece o todo.

Francisco Castelo Branco disse...

continua e participa mais!

Fatyly disse...

Fabuloso e obrigado pela partilha...mas deixaste-me curiosa e vá lá, participa/partilha mais!:)

Um abraço

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

obrigado! tentarei estar mais activo...é o problema de não conseguir dizer não a muita coisa

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