quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Para nascer pouca terra, para morrer toda a terra: Cadernos de Estocolmo

O tempo não tem solução, dirá quem por ele sacrifica a cabeça e as mãos, as pernas que se cansam. Não tendo solução, o tempo ultrapassa-se a si mesmo e deixa de haver tempo com que contar.

Diremos destes que é pelo tempo que vivem. Tempo que dividem em pré-determinadas linhas de agenda “8 acordar e pequeno-almoço” das “9” às “12” uma carta de amor diagonal “planear dossier e ligar a” (letra ilegível) “13 voltar”, espaço vazio para “18 partir”. Para casa corre-se e uma vez aí chegados divide-se o tempo pelo número de divisões e pisos. Uma elogia em dois atos bem divididos em que duas pessoas, suando pelo mesmo método, surgem no lugar de uma. Ou direi elegia?

Mas nas jigajogas da vida, nas maquinações do presente, há ainda quem deixe correr o tempo e nele viva. Pode bem ser objeto de satisfação. Pode bem ser elemento presente mas de nós independente. Um tempo que nos permita, como no último álbum de Leonard Cohen, visitarmos o lugar onde o sofrimento começou.

8 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

essa dos 18 partir é um habito dos povos nórdicos.

é saudável e só mostra bem o avanço civilizacional do norte da europa.

Cá em baixo continuamos a sair as 21 e depois não se faz mais nada

e quem sai mais cedo é mal visto.

Por exemplo, os meus colegas de trabalho estão o dia todo no escritório. Saem por volta das 21. Não fazem mais nada. Até roupa têm guardada no office.
é um habito muito portugues ou latino?

expressodalinha disse...

Nunca se devem revisitar os lugares em que se sofreu.

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

Francisco: isso não tem nada a ver com cultura mas sim com a organização do trabalho;

Jorge: se bem entendi o que soletrou o Cohen, isto é, o que entendo do que o Cohen soletrou, visitarmos o lugar onde o sofrimento começou é um mero exercício psicanalítico

Fatyly disse...

Muito interessante e a diferença por cá é abismal, porque ao contrário de milhares eu sempre dei tempo ao tempo para que fosse tempo e tive tempo para tudo. Começava às 5........e saia sempre às 18 e em casa era tudo automático e fechava os estores dos meus olhos por volta das 22h.

e continuo a dar tempo ao tempo...mas muito raramente vou, ao "lugar onde o sofrimento começou" nem como "um mero exercício psicanalítico" porque passado é passado e já não há volta a dar.

Gostei Bruno e volta mais vezes:) e a foto é fascinante!

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

fazer o tal "exercício psicanalítico" ou como quiserem chamar, é realmente puder estar perante nós mesmos; não será por acaso que hoje se fala tanto de si próprio...com o tempo que conquistámos para nós próprios enquanto projeto civilizacional, podemos voltar ao lugar onde o sofrimento começou para sermos melhor e inteiros

Francisco Castelo Branco disse...

a organizaçao do trabalho tem a ver com a cultura tb...

daga disse...

O sofrimento faz parte da vida e, por isso é importante "visitar o lugar onde o sofrimento começou", para não nos tornarmos autómatos de "8 acordar e pequeno almoço", para nos conhecermos melhor...
bonito texto e linda foto :)

Fatyly disse...

Bruno
Sim, sim...mais numa de auto análise do nosso eu, onde errei? perdi tempo naquilo para quê? ou seja tentar largar o umbigo ou sairmos da redoma e quando já em estado de bem, então sim podemos ser "melhores e inteiros"! Julgo que seja essa a tua ideia e olha que tens razão!

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