segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

SAUDADES DA EUROPA


Lembram-se daquelas reuniões em Bruxelas? O Edifício Berlaymont. Corredores infinitos. Funcionários impecavelmente vestidos. Francês com sotaque. Inglês com acento. Uma Babilónia de línguas. As senhoras eram suecas, dinamarquesas, alemãs. Todas muito loiras, com ar independente e activo. Os problemas do universo resolviam-se entre duas reuniões e um almoço na Grand Place. Moules mariniere com batatas fritas. Um frio civilizadamente europeu. Beethoven cantava heroicamente num fundo azul polvilhado de estrelas. Éramos jovens e a Europa tinha o mundo a seus pés. Tudo parecia resolver-se com mais um Regulamento ou mais uma Directiva. Os Fundos Comunitários corriam a jorros. Ninguém sabia de onde vinha o capital. Não interessava. Não era dinheiro. Afinal eram só euros. Saíamos de Lisboa manhã cedo. À noite já cá estávamos. Íamos em classe executiva nos aviões da falecida Sabena. Trazíamos chocolates e trufas “pour épater les burgeois”. Bruxelas era a capital da Europa. Uma cidade sem passaportes. Uma moeda única que não precisava de trocos. Passávamos ufanos pela fronteira exibindo o livre-trânsito comunitário. Ao lado, despeitados estrangeiros do resto mundo faziam filas para entrar na “fortaleza Europa”. Eram tempos sem crise. Tempos de abundância. De despesa afrodisíaca. Gastava-se dinheiro pelo prazer de gastar. Exibiam-se cartões de crédito em letras douradas. Pensava-se que a economia estava em permanente expansão. Que o crédito era ilimitado. Naquele tempo ninguém sabia o que era dívida soberana, nem onde ficavam as medidas de austeridade. A política era feita de demagogia e de promessas aliciantes. O povo queria ser enganado. Fazíamos todos parte do mesmo embuste. Uma utopia desmedida. Uma ilusão sem fronteiras. Eram tempos felizes. Lembram-se?

7 comentários:

Anónimo disse...

Expresso
li e reli o texto.
....afinal o velho Alan Grennspan tinha razão quando afirmou que o Euro era uma moeda vaidosa,sem base economico financeira que a sustentasse e que era fruto de politicos vaidosos, com um fim a prazo?!
A meu ver, Grenspan, não contou ou, se o fez não publicou que o modelo social europeu é insustentavel não importa quão rica seja uma economia!O estado não pode ser o maior empregador de cada país ou....o resultado é que se viu nos países que o fizeram.
Bom texto, com umas pinceladas de humor. Gostei.

DCS (retired atp)

Francisco Castelo Branco disse...

concordo

o estado nunca pode ser o maior empregador do país.

então e o euro com federalismo? resultava?
lanço a questão

Anónimo disse...

Francisco
....uma federação tem vantagens. O maior problema é pô-lá a funcionar. E aqui vou ter que me repetir ou repetir Grennspan, à Europa falta-lhe a argamassa agregadora de uma federação ou seja a lingua unica que é tào ou mais import ante que uma vontade única.
E aqui surge ou reaparece um outro problema que por muito "politicamente correctos" que queiramos ser, não podemos ignorar um nórdico ou centro
europeu não tem nem de longe a mesma personalidade ou maneira de encarar os problemas que nós meridionais temos! Não há volta a dar. Esta é a realidade. Solução? Então não vivemos até aqui ? A comunidade Europeia nasceu só com uma finalidade, vós os mais novos desconhecem( ?!) mas, digo-vos, foi só para manietar o instinto bélico Alemão. Nada mais. O resto veio por acréscimo artificial. Mantenha-se a Alemanha desarmada
e sem acesso ao nuclear e a solução está aí!

Abraço

DCS ( retire ATP)

Francisco Castelo Branco disse...

caro dcs

lembro perfeitamente que o era sonho de churchill era construir os Estados Unidos da Europa.

mas então cada Estado norte-americano não é diferente dos outros?

é um problema de falta de lideres mas também de construção acelerada, p ex o numero de estados de leste que vieram a entrar n UE.
e posteriormente no euro.

É aqui que reside o problema para os Estados do Sul. Não é por acaso que a cris está a atingir o sul da europa.
A crise despoletou no dia 1 de Maio de 2004 com a entrada de dez novos países.

futuro?

vamos ter um país normal mas com regras muito apertadas em matéria orçamental. E na minha opinião muito bem.
Desde que isso não retire soberania

Anónimo disse...

Francisco
Não esqueça que Churchil foi um militar politizado e que assim que acabou a guerra.....viram-se livres dele. Quanto aos USA existe uma homogenidade sócio política com pequenas bolsas de diferenças e que no total são irrelevantes, juntam folclore nada mais que isso.
As crises soberanas ( que raio de nome) foram-se avolumando à medida que as sociedades europeias foram cedendo aos sindicatos que eram na sua quase totalidade correias de ligação entre os vários PCs europeus e deixaram-se levar para uma sociedade híbrida , nem socialista nem capitalista mas altamente despesista e sem compensação na produção! Uma sociedade assim não gera liders, bem ao contrário, destroi alguém que surja com uma ideia diferente mas necessária apodado-o de
reacionario fascista!Creio que se chegou ao fim da linha !
Agora vai doer e soberania com divida é um arremedo de soberania! Vamos fingindo que será o melhor remédio . Tenho pena mas é o que vejo no horizonte!

DCS ( retired ATP)

Francisco Castelo Branco disse...

como explica qe nos paises nordicos, centro e leste esteja tudo direitinho?

o problema não pode ser só da Europa.....
há factores internos graves que levaram a esta crise.

Não vejo os suecos ou polacos com medo e com falta de $

Fatyly disse...

Pois eu não me lembro porque nunca entrei nessa espiral que relatas mas que sabia ser verdade, daí nunca ter calçado sandálias de diamante quando só podia calçar chinelos. Depois as famosas cotas de produção impostas pelo raio que os parta, tudo em pousio e com o respectivo subsidio e nenhum politico vislumbrou esta armadilha? porquê? Felizes dos que mantiveram as suas pequenas culturas que ainda hoje abastecem as dispensas dos filhos que moram longe, mas que quando vão à terra vêm bem fornecidos. Eu sem-terra...olha compro tudo ou gamo dos quintas de casas totalmente ao abandono/ruinas e sem qualquer vedação!

já ai eramos lacaios dos outros e eu sempre a dizer...isto um dia vai dar um estouro! e agora também levo com os estilhaços?

Estive em Bruxelas antes do euro e achei um cidade horrível, feia...uma volta a um quarteirão eis la Grand Place, outra volta em sentido contrário e ou oposto eis la Grand Place e sinceramente o edificio do Parlamento Europeu onde estive ainda era mais frio, feio e gélido!
Na altura já circulavam os grandes carrões com os respectivos pavões e eu a pensar...mas é preciso tudo isto? Depois imensa gente "finex" e tanto queriam parecer o que não eram, que...enfim!
Adoro parar para apreciar e acreditas que distinguia os portugueses dos outros? Tal como num aeroporto qualquer ( e já estive em vários) nota-se bem quem é português!
Para vós que ainda tendes muitos anos pela frente...vai ser complicadex e destas vossas viagens ficarão as boas lembranças "de outros tempo, outros tempos", mas acredito que saberão dar a volta conforme eu já dei tantas e voltarão a fazer...mas noutros moldes: com os pés mais assentes na terra!
Gostei!

FCB
Como leio todos os comentários, fizeste-me rir com este último, e porque será que nos que referes esteja tudo direitinho, sem medos com $?
Porque lá ao contrário de cá:
- A justiça funciona, os impostos estão em dia, os corruptos contam-se pelos dedos e todos levaram pela medida grossa, trabalham e são bem remunerados, ninguém foge aos impostos e o nº de funcionários do governo é minimo que trabalham para o povo, ao contrário de cá que trabalhamos para eles, não existe compadrio politico e muito menos empresas com esse modelo.
Lá vão para a politica já com uma carreira profissional e nunca como cá que fazem da politica uma profissão e sabem lá eles o que é levar com um patrão, director, gestor, chefe ***
Ahhhh e só és reformado na idade certa onde todo o tempo é contabilizado, com uma única reforma e não recebem mais por terem estado ao serviço do governo versus país - um dever de cidadania, cultura, formação ou chamem-lhe o que quiserem!

Também por cá e nem imaginas as guerras que tive, mal entram numa universidade já querem o DR. antes do nome e só isto diz tudo!
Lá ou vindos de lá, deparei-me com catedráticos que...por favor DR. não!

Olha outro pormenor que sei queé verdadeiro: Numa Dinamarca os que cultivam montam a tabanca em frente à sua porta, tudo exposto, um cartaz: Sirva-se e ponha o dinheiro aqui (num recipiente) e no final do dia sobram poucos legumes e afins e a caixa tem o dinheiro certo!

Cá? era tudo gamado na hora e só não me gamam a mim porque estou fora da validade!

Saudades de uma Europa? Vim cá parar por engano e antes tivesse ido para os States ou ficado na minha terra, onde talvez tivesse levado com um panhard e não estivesse aqui a ver o desboroar vergonhoso de uma Europa...

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