quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Para nascer pouca terra, para morrer toda a terra: Cadernos de Estocolmo

Quando se dá o encontro entre duas almas logo as outras que as rodeiam se dispersam e desviam numa dança que é de corpos, mas que atinge o espírito. Uma vez atingido o espírito, o corpo lhe cede e a dança é por este ditado. Do corpo se esvai a vontade espasmódica e nele se imbui a vontade espiritual - imperador logo que cai república. Apenas subsiste o instinto espiritual, essa ânsia de ter o amanhã que o espírito dita e o instinto corporal nele se integra para que desse objetivo se inteire o corpo. Mas o espírito também aprisiona a mente; tornando-a servil, transforma a sua missão, transformando a sua missão logo lhe parece que tudo comanda não vendo nem reconhecendo os fios de marioneta que o ligam a algo que se supõe mais alto, mais sublime e matricial. É aí que a vida se confunde com o espírito e o espírito dela tudo faz. Nesta confusão de existências vive o indivíduo que se vê sublimado, de missão em punho, pé e cabeça, mãos, dedos e olhos. A nenhum meio se exclui para atingir tal fim mas nenhum fim, finalmente, o firma na terra.

Lá começou a nevar, se bem que timidamente. Às escondidas, só os amantes noctívagos são sua testemunha.

12 comentários:

expressodalinha disse...

Um texto profundo e espiritual. Por cá não temos neve. Talvez por isso a missão ande mais material.

Francisco Castelo Branco disse...

em Ponte de Lima nevou este fim de semana

Anónimo disse...

Tirando o título do padre António Vieira, espremi, espremi e....nada! Só pode ser o meu intelecto não dilatado até estas zonas transcendentais que não alcança! Paciencia!

DCS ( retired ATP)

daga disse...

Também tentei compreender... mas está difícil! Primeiro a diferença entre "espírito" e "alma", "duas almas" serão dois "espíritos"? Parece que não... depois "espírito" e "mente", pensei que o "espírito aprisiona a mente" significava que aprisionava a vontade, mas depois também há "vontade es´piritual"... desisto!

Francisco Castelo Branco disse...

isto é filosófico

expressodalinha disse...

O Bruno que explique :))

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

Olá a todos! Não esperava que fizesse confusão. Talvez valha a pena começar por explicar que é um texto baseado na leitura de uma biografia do Espinosa, mas também tem algumas pitadas auto-biográficas.
Reconheço que este texto, apesar de pequeno levou-me 3 dias seguidos a completar, apesar de não ter sido assim TÃO pensado como parece.
Quando se dá o encontro de duas almas, refiro-me ao amor (que não é auto-biográfico), aquele que tudo paralisa mas que é platónico. E platónico também podem ser outras coisas, como os objectivos, as ambições que nos tornam cegos; daí que o espírito ou a essência se passa a confundir com a existência, ou seja, se tenho um objectivo logo me confundo com esse objectivo e deixo de ser eu na totalidade (mente, espírito, alma e corpo) e é nesse momento que a vida se confunde com o espírito e o espírito dela tudo faz. E é também por isso que nunca pousa os pés no chão, porque se voa, voa tão alto que deixa de ver linha de terra e se perde.
abraços e beijinhos!

Francisco Castelo Branco disse...

eu bem disse que tinhamos filosofo por estas bandas

daga disse...

Trata-se então do amor platónico, da união de duas almas, bom, até aí tudo bem - o dualismo essência/existência,predominando a essência. Gosto do Platão, o que não percebo é a diferença entre espírito e alma (para mim era tudo essência)...
[Já do Espinosa não gosto muito - "a liberdade é uma ilusão etc"]

Francisco Castelo Branco disse...

e o que tem a ver com Estocolmo e a suécia?

Anónimo disse...

Bruno ao citar António Vieira o senhor atirou-nos a todos ( creio eu ) para fora de bordo! De Vieira ao movimento dualista dos Cataros( catarismo) vai um mundo.....assim as almas eram criaturas do Bem, passíveis de sucumbir às tentações do Mal...............
Como diz FCB ...é filosófico!
Mas está bem, vou-me aproximando!

DCS ( retired ATP)

expressodalinha disse...

O "simples" amor por mim próprio confunde-me a alma com o espírito. O corpo, para mim, é a essência e o depuramento final. Uma demanda que ao acabar começa. A filosofia é a tentativa de compreender o incompreensível. O amor é o fim da compreensão. Um belo texto do Bruno.

Share Button