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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Para nascer pouca terra, para morrer toda a terra - Diários de Estocolmo

Abro este espaço a convite do Francisco Castelo Branco. Espaço que se repetirá todas as segundas quartas-feiras do mês e que tem como intuito ilustrar a minha vida em Estocolmo. Ilustrar pois apesar da sempre tendencial tentativa de promover uma escrita realista, acaba o escritor sempre perdido na sua própria tendência; a mesma tendência que dá diferentes nomes consoante o ator e também consoante a disposição do mesmo, que por vezes acorda mal disposto ou vê no céu nuvens que interpreta como elo perdido de um qualquer estado depressivo. O próprio subtítulo, carinhosamente dedicado a Miguel Torga, Saramago e Wenceslau de Moraes, não é uma fórmula que se repetirá a cada segunda quarta-feira do mês; por vezes assemelhar-se-á ao que comummente se considera ser um diário, com estados de alma digitalmente impressos e segurados com datas como se se tratassem de caixas. No entanto, não deixará de ser uma tendência conquanto, mesmo não esperando, a não fórmula sempre se torna fórmula.

Dou agora um salto para o livro do atual ministro da economia Álvaro Santos Pereira - salto que espero não seja humanamente impossível. Entre as páginas 62 e 69, o autor discorre sobre a evolução da emigração portuguesa considerando que apesar de Portugal ter-se tornado destino de imigração a partir da segunda metade da década de 1980, nos últimos dez anos tem-se verificado uma alteração desse cenário com a saída de cerca de 700 mil portugueses. A atual emigração portuguesa, muito concentrada na Espanha e no Reino Unido, difere bastante daquela das décadas de 1960 e 1970, maioritariamente constituída por mão-de-obra não especializada que ajudou na construção da Europa central. Contrariamente a esta, o novo movimento inclui a fuga de cérebros que emprestam o seu conhecimento para o desenvolvimento do ocidente; buscam também espaços de evolução meritocrática e organizada, melhores salários e mobilidade. Buscam o que em Portugal pouco existe e este é talvez o que os une às gerações anteriores de portugueses que desde o século XV emigram pelo mundo.

É também esta a ideia essencial do português: ser peregrino. Nascendo logo se vê crescer e para o fazer, nada mais que o mundo como espelho desse crescimento. Para nascer pouca terra, para morrer toda a terra; assim encerrou António Vieira o sermão que deu na igreja de Santo António de Portugal em Roma. E assim iniciei eu a viagem da peregrinação. Viagem que vai contar agora no primeiro mês e que, para lá da busca de uma outra vida, que de Portugal já estava cansado, procura ser uma investigação sobre as mesmas palavras de Vieira. Será o português peregrino? Será a necessidade que aguçou o engenho? Ou terá sido engenho natural a fabricar tal necessidade? É nesta conversa de galinha e ovo que procuro reinventar-me. E nada melhor que respirar um ar diferente para o fazer.

Não quedo na melancolia, que da melancolia quedam os homens. Procuro saber se o chilrear dos pássaros aqui me soa diferente; se as crianças que agora brincam no parque da escola junto à minha janela, de cabelos amarelos e fala ainda estranha, se portam como crianças diferentes – e que diferentes, pelo menos considero agora, pois que o parque público é ao mesmo tempo parque da escola e então correm e brincam sem muros ao seu redor e lhes dão confiança total. Procuro também saber como se encaixa um português na multiplicidade de diferença culturais e educacionais que fazem da Suécia o oito do nosso oitenta e o oitenta do nosso oito.

7 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

aproveita a estadia ai para tirares lições de como governar um país e depois aplicar cá no burgo.

e já agora, porque a suecia? o tempo que se faz ai nao é inibitório?

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

é bastante inibitório e já começou a sê-lo; está a ficar como o inverno de Portugal;
simplesmente quis experimentar viver num espaço organizado...veremos

Francisco Castelo Branco disse...

e onde há pouca corrupção lol

expressodalinha disse...

A corrupção na Suécia é a sério. Não é como cá que é a brincar:)) Não sabia que estavas por aí. Aulas? Boa estadia.

Fatyly disse...

Não só de passeios vive o homem, porque ficam a conhecer superficialmente por onde andam. Agora ficar, tentar compreender e integrar-se é e será sempre uma mais valia.

Também sou emigrante e digo-te sinceramente que se pudesse ia-me embora deste país que me acolheu - Portugal, porque está a voltar às tonalidades cinzentas que odeio, às lamechices de sempre e sobretudo numa...de...não digo por respeito, onde se valoriza o que jamais deveria ser valorizado!

Adorei o texto!

daga disse...

Para se "reinventar" o ser humano precisa mesmo de conhecer a diferença, de viver a diferença (conhecer na teoria não chega).
Desejo Boa Sorte e Felicidade nesse novo ambiente :)
ps: sim acho que o português é "peregrino", procura o Longe, e como diz Torga: "O que importa é partir, não é chegar."

Bruno Gonçalves Bernardes disse...

Muito obrigado a todos pelos comentários
Fatyly: o português sempre viajou, talvez para fugir da Europa, um pouco como na ideia do Agostinho da Silva
Daga: outra qualidade do português, daquele dos séculos XV e XVI foi o de ter entendido o mundo sem nunca antes ter lido, por ser analfabeto, as patetices do Aristóteles
Jorge: sim, estou em aulas e um forte abraço!

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