1 – No fim do século
XVII e início do século XVIII, a Colónia Brasileira deu as costas ao litoral e
começou a entranhar-se sertões adentro. A busca do ouro seria responsável por
alterações de fundo, a vários níveis:
- a procura do ouro fez
ampliar o território do Brasil para além dos limites do Tratado de Tordesilhas;
- deu-se uma alteração
de ordem geo-administrativa. O centro da actividade económica e o aparelho
político-administrativo passam definitivamente para o eixo centro/sul do país. O
Rio de Janeiro tornou-se, em 1763, a capital do Vice-Reino;
- estimulou-se a
fixação da população, que até então vivia presa ao litoral, no interior. Minas
Gerais tornou-se um ponto de partida para a ocupação de outras regiões até
então desertas de civilização, como o Goiás e o Mato Grosso;
- surgiram novos complexos urbanos, compostos
pelas vilas auríferas e diamantíferas, fazendo nascer uma sociedade
diferenciada da que existia no Nordeste ou em São Paulo. Demograficamente, deu-se
o maior salto populacional até então visto: de 300 mil habitantes em 1690, para
3.250.000 em 1798;
- surgiu uma sociedade
nova, com alteração dos padrões rígidos da “sociedade dos engenhos”. Deu-se a
miscigenação de paulistas, portugueses e estrangeiros (os emboabas), índios e africanos. Apareceram novos ofícios. Gerou-se o
embrião de uma classe média;
- como o transporte de
alimentos custava fortunas, estimulou-se a criação de gado para corte e para
carga, fazendo com que vastas regiões fossem transformadas em estâncias de
criação, desde Campinas, em São Paulo, até Vacaria e Soledade no Rio Grande do
Sul. Foi também para abastecer as minas que surgiu a indústria do charque.
2 - Com a quebra do preço
do açúcar nos mercados internacionais, paulistas e reinois (vindos de Portugal)
interessaram-se pelo sertão. A busca do ouro e da mítica “serra das esmeraldas”
(serra de Sabarabuçu), leva os homens a vasculhar os vales dos rios. Desde o
São Francisco, ao Amazonas, à margem esquerda do Rio da Prata. Os cursos de água
eram estradas do ouro. Um dos primeiros exploradores foi Fernão Dias. Iniciou-se
uma rápida expansão aos chapadões mineiros. Em breve haveria uma verdadeira “corrida
ao ouro”. Levas de homens começam a deslocar-se em direcção aos vales e serras
mineiras. Deixam tudo para trás, inclusive as mulheres que são obrigadas a substituir
os homens nas actividades agrícolas e no comércio. Os bandos de homens
organizam-se numa base militar. São as “bandeiras”. Os bandeirantes são os
responsáveis por esta expansão territorial. Surgem novos caminhos. Embriões de
cidade e vilas. Um mundo novo. A tensão entre paulistas e forasteiros, os emboabas, acaba em conflito aberto. É a
Guerra dos Emboabas, que termina com a derrota dos paulistas. Perdem os
privilégios de exploração. É criada a Capitania de Minas, desmembrada de São
Paulo. Passa a ser cobrado o quinto,
um imposto em favor da coroa portuguesa.
3 – Bem pouco desse
ouro sobrou para o Brasil. Restaram “pedras e templos”. Gastou-se em escravos e
oferendas religiosas, capelinhas e igrejas. No Brasil, o ouro veio e foi-se com
o vento. Alguns responsabilizam o Tratado de Methuen, assinado por Portugal com
a Inglaterra em 1703. Outros, ainda, o decreto anti-industrial da rainha D.
Maria I, de 1785, que vedava a instalação de manufacturas na colónia. A
resposta a essas questões encontra-se em Portugal e não só no Brasil.
A verdade é que o rei
D. João V esbanjou ouro em fausto religioso e monumentos inconsequentes. A
sociedade portuguesa seguiu-lhe o exemplo. Incapaz de criar uma verdadeira
indústria, Portugal deixou que a riqueza escapasse para Inglaterra. Na
sequência da assinatura do Tratado de Methuen, Portugal tornou-se vassalo
económico da Inglaterra. O resultado é que o déficit
da balança comercial com a Inglaterra fez com que o ouro terminasse nas mãos
dos seus banqueiros. Calcula-se que para uma produção aurífera registada entre
1735-39, numa média de 14 toneladas anuais, os ingleses ficaram com 60% dela.
Estes sim deram um fim útil aquela riqueza toda: financiaram com o ouro
extraído do Brasil a Revolução Industrial do século XVIII.
Jorge Pinheiro


2 comentários:
Um profundo olhar na história do Brasil.
sempre "incapazes de criar uma verdadeira indústria" - é esse o nosso verdadeiro problema :p
sempre à procura de enriquecimento rápido,sem produzir, sem trabalhar...
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