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sábado, 3 de setembro de 2011

9.4 -AS MINAS DE MINAS GERAIS - O CICLO DO OURO


1 – No fim do século XVII e início do século XVIII, a Colónia Brasileira deu as costas ao litoral e começou a entranhar-se sertões adentro. A busca do ouro seria responsável por alterações de fundo, a vários níveis:
- a procura do ouro fez ampliar o território do Brasil para além dos limites do Tratado de Tordesilhas;
- deu-se uma alteração de ordem geo-administrativa. O centro da actividade económica e o aparelho político-administrativo passam definitivamente para o eixo centro/sul do país. O Rio de Janeiro tornou-se, em 1763, a capital do Vice-Reino;
- estimulou-se a fixação da população, que até então vivia presa ao litoral, no interior. Minas Gerais tornou-se um ponto de partida para a ocupação de outras regiões até então desertas de civilização, como o Goiás e o Mato Grosso;
 - surgiram novos complexos urbanos, compostos pelas vilas auríferas e diamantíferas, fazendo nascer uma sociedade diferenciada da que existia no Nordeste ou em São Paulo. Demograficamente, deu-se o maior salto populacional até então visto: de 300 mil habitantes em 1690, para 3.250.000 em 1798;
- surgiu uma sociedade nova, com alteração dos padrões rígidos da “sociedade dos engenhos”. Deu-se a miscigenação de paulistas, portugueses e estrangeiros (os emboabas), índios e africanos. Apareceram novos ofícios. Gerou-se o embrião de uma classe média;
- como o transporte de alimentos custava fortunas, estimulou-se a criação de gado para corte e para carga, fazendo com que vastas regiões fossem transformadas em estâncias de criação, desde Campinas, em São Paulo, até Vacaria e Soledade no Rio Grande do Sul. Foi também para abastecer as minas que surgiu a indústria do charque.

2 - Com a quebra do preço do açúcar nos mercados internacionais, paulistas e reinois (vindos de Portugal) interessaram-se pelo sertão. A busca do ouro e da mítica “serra das esmeraldas” (serra de Sabarabuçu), leva os homens a vasculhar os vales dos rios. Desde o São Francisco, ao Amazonas, à margem esquerda do Rio da Prata. Os cursos de água eram estradas do ouro. Um dos primeiros exploradores foi Fernão Dias. Iniciou-se uma rápida expansão aos chapadões mineiros. Em breve haveria uma verdadeira “corrida ao ouro”. Levas de homens começam a deslocar-se em direcção aos vales e serras mineiras. Deixam tudo para trás, inclusive as mulheres que são obrigadas a substituir os homens nas actividades agrícolas e no comércio. Os bandos de homens organizam-se numa base militar. São as “bandeiras”. Os bandeirantes são os responsáveis por esta expansão territorial. Surgem novos caminhos. Embriões de cidade e vilas. Um mundo novo. A tensão entre paulistas e forasteiros, os emboabas, acaba em conflito aberto. É a Guerra dos Emboabas, que termina com a derrota dos paulistas. Perdem os privilégios de exploração. É criada a Capitania de Minas, desmembrada de São Paulo. Passa a ser cobrado o quinto, um imposto em favor da coroa portuguesa.
3 – Bem pouco desse ouro sobrou para o Brasil. Restaram “pedras e templos”. Gastou-se em escravos e oferendas religiosas, capelinhas e igrejas. No Brasil, o ouro veio e foi-se com o vento. Alguns responsabilizam o Tratado de Methuen, assinado por Portugal com a Inglaterra em 1703. Outros, ainda, o decreto anti-industrial da rainha D. Maria I, de 1785, que vedava a instalação de manufacturas na colónia. A resposta a essas questões encontra-se em Portugal e não só no Brasil.

A verdade é que o rei D. João V esbanjou ouro em fausto religioso e monumentos inconsequentes. A sociedade portuguesa seguiu-lhe o exemplo. Incapaz de criar uma verdadeira indústria, Portugal deixou que a riqueza escapasse para Inglaterra. Na sequência da assinatura do Tratado de Methuen, Portugal tornou-se vassalo económico da Inglaterra. O resultado é que o déficit da balança comercial com a Inglaterra fez com que o ouro terminasse nas mãos dos seus banqueiros. Calcula-se que para uma produção aurífera registada entre 1735-39, numa média de 14 toneladas anuais, os ingleses ficaram com 60% dela. Estes sim deram um fim útil aquela riqueza toda: financiaram com o ouro extraído do Brasil a Revolução Industrial do século XVIII.

Jorge Pinheiro





2 comentários:

Eduardo P.L disse...

Um profundo olhar na história do Brasil.

daga disse...

sempre "incapazes de criar uma verdadeira indústria" - é esse o nosso verdadeiro problema :p
sempre à procura de enriquecimento rápido,sem produzir, sem trabalhar...

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