domingo, 3 de julho de 2011

OLHAR A SEMANA - DIVIDOCRACIA

Nunca ouvimos falar tanto de economia. Toda a gente dá palpites. Aparecem filmes conspirativos. Entrevistas sensacionalistas. Teses mirabolantes. A verdade é que a crise continua. O FMI intervém. Bruxelas incomoda-se. O rating desce. A bancarrota adivinha-se. A Grécia está em caos. A Europa treme. Os USA estão à beira do colapso. Afinal o que se passa?

1 – Nos primeiros 25 anos do pós-guerra, a taxa de crescimento foi alta. O rendimento real aumentou, tal como o consumo e bens. Foram circunstâncias inéditas e, quiçá, irrepetíveis no capitalismo. A verdade é que o capitalismo não existe sem crises. Este período feliz acabou em meados dos anos 70.
O segundo período começa a partir dos anos 80 e é tudo menos feliz. Menor crescimento e crises cíclicas; pequenos aumentos de salários; níveis altos de desemprego. Os países mais desenvolvidos começam a ter dificuldades em acumular riqueza. A crise foi, em grande parte, consequência do poder do trabalho, das organizações sindicais, fortemente implantadas nos USA e na Europa. Um grande peso nos salários, nas exigências e no poder político em termos eleitorais. Tudo isto era um problema para o capital. Um problema que o capital tinha de resolver. E ao resolver, caiu em nova crise.
O capital promoveu a abertura das economias nacionais à competição global, ganhando o acesso aos recursos de mão-de-obra mundiais. E, ao fazê-lo, abriu caminho à China.

2 – Este segundo período caracterizou-se por um enorme crescimento do sistema financeiro, a que se chamou “financeirização”. Este sistema provocou e intensificou as crises. Agora o capital podia deslocar-se livremente para onde quisesse. Para onde tivesse melhores condições salariais. À mão-de-obra mais barata. Mas, surgiu um “ligeiro” problema. Como os salários estavam a baixar por todo o lado, não havia poder de compra para adquirir os bens e mercadorias que as empresas produziam. A economia ressentiu-se. A recessão ameaçou. Então, inventou-se a “economia de crédito”. Era preciso dar crédito a toda a gente. A economia crescia artificialmente. Este sistema expandiu-se a níveis inimagináveis nos anos 80 e 90.
Cobrir a diferença entre o que os trabalhadores recebiam e aquilo que era necessário que eles comprassem, era objectivo da “economia de crédito”. No final dos anos 90 e 2000, surgiu a insustentabilidade do sistema. Era impossível manter níveis de individamento crescentes, sem sustentação na economia real.

3 – A “bolha imobiliária” que rebentou nos USA quase fez colapsar o sistema financeiro e afectou fortemente a economia global, que já tinha os seus problemas estruturais. Os USA recorreram, então, ao dinheiro dos contribuintes para salvar os bancos. E foi assim que a crise financeira se tornou fiscal. Tudo se agravou quando os bancos, salvos pelo dinheiro dos contribuintes, resolveram morder na mão de quem os ajudou e começaram a fazer apostas com a bancarrota dos Estados, através da especulação dos títulos de dívida pública, apoiada pelas agências de “rating”, dominadas por esses bancos.

4 – No meio de tudo isto, o Euro está totalmente desprotegido. É um rei sem Estado. E não há moeda sem Estado. Hoje sabemos que foi um erro criar a Zona Euro. A Europa política não existe. Não tem legitimidade. A Zona Euro não é viável. Nos USA a Reserva Federal intervém para diminuir as desigualdades entre Estados. Na UE, a moeda única acentua as desigualdades. De um lado a Alemanha e os Estados da Europa Central. Do outro, os Estados periféricos. A fusão é impossível. A harmonização económica irrealizável. A crise faz-se sentir com muito maior intensidade nos “periféricos”. A quebra de competitividade entre os dois blocos deve-se, precisamente, à implantação do Euro. Juntar gigantes com anões e pedir-lhes para lutar com as mesmas armas, foi o fracasso da UE. Há um mito de “periferia preguiçosa” e “Alemanha esforçada”. É um mito. A verdade é que o governo alemão declarou guerra aos próprios trabalhadores, congelando-lhes os salários na última década. Em termos nominais, os salários alemães aumentaram, em média, apenas 7%, enquanto no resto da Europa aumentaram, em média, 27%. A Alemanha ganhou em produtividade. Exportou e ao mesmo tempo concedeu crédito. Acentuou as desigualdades europeias. Os países da Zona Euro não podem desvalorizar a moeda. A perda de competitividade é brutal. Os dois efeitos combinados levaram à crise do euro. Os países periféricos passaram a ter enormes défices nas transacções correntes. A balança de pagamentos desequilibra-se estruturalmente. Os empréstimos servem, exclusivamente, para pagar os juros da dívida pública. As medidas de austeridade sucedem-se. A tensão social sobe. A democracia está em perigo.

Jorge Pinheiro

6 comentários:

Eduardo P.L disse...

Antes da Democracia acabar, alguns "erros" serão corrigidos, e tudo vai dar certo!

Francisco Castelo Branco disse...

a democracia não vai acabar, jamé!

Francisco Castelo Branco disse...

O alargamento aos Estados da Europa central foi a morte económica de Portugal

daga disse...

Já sabia que havia sempre crises cíclicas no capitalismo, mas esta explicação sobre a crise específica do Euro está tão bem feita que até eu (um zero à esquerda em economia) percebi!
Infelizmente é verdade - quando há miséria, a democracia está em perigo...

Fatyly disse...

Tiro o meu chapeú a Jorge Pinheiro e é precisamente esta realidade sobre o maldito do Euro! Só acrescentaria que a corrupção também contribuiu para isso e mais alguma coisa!

"Hoje sabemos que foi um erro criar a Zona Euro." e eu, um mero peão deste xadrez, perguntaram-me se queria o Euro? O Pai Santo Mário Soares teve esse cuidado? népias...e nem o Tratado de Lisboa, um monte de esterco de 400 páginas nos vai tirar dos "coitadinhos". Coitadinhos? o caraças...porque havemos de encontrar o caminho e dar a volta!

e concordo com FCB a democracia não irá acabar...mas mais ano, menos ano teremos o euro forte (nórdico) e e euro fraco (sul) e depois quero ver Durão Barroso que fez o que fez, foi o que foi...volta a dizer...carreguem neles.

Uma vergonha o que fizeram deste país, que nem o ouro escapou! Enfim!

Helena Oneto disse...

Brilhante! Jorge, brilhante!

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