quarta-feira, 29 de junho de 2011

Cultura Democrática

A arrogância não é nenhum meio adequado para se chegar a qualquer forma de entendimento com as pessoas que nos rodeiam e que menosprezamos, pelo que nos são insuportáveis. Mas, se não tivéssemos a arrogância, estariamos perdidos, pois ela não é senão um meio de impormos a nossa vontade contra um mundo que de outro modo e, portanto, sem essa arrogância, nos devoraria por completo" - Thomas Bernhard, in "Extinção"

A nossa história é pródiga em acesos debates políticos, onde, por muitas vezes, impera o insulto e a calúnia pessoal. O debate de ideias é, nestes casos, substituído por fait-divers e a classe política sai dele bastante fragilizada

O ultimo ciclo político foi caracterizado por uma postura de extrema arrogância e prepotência. Esta atitude foi bem vísivel em questões como o novo aeroporto (relembro o famoso episódio "Alcochete Jamais"), TGV e, last but not the least, o pedido de ajuda externa.

Este fim-de-semana, deparei-me com uma notícia que (já) não julgava possível. O semanário "Expresso", que a ex-ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, recusara-se reunir como o novo Secretário de Estado da Cultura para a protocolar passagem de testemunha, com o argumento que "ministro não passa a pasta a secretário de estado".

Recentemente, à margem da cerimónio de deposição das cinzas do escritor José Saramago em Lisboa, Gabriela Canavilhas lamentara a extinção do Ministério da Cultura mas reconhecera mérito a Francisco José Viegas. Sobre o novo Secretário de Estado da Cultura, Canavilhas admitira a admiração por Francisco José Viegas, "uma pessoa de grande qualidade".

Embora tenha o direito de discordar da orgânica do novo Executivo, a passagem protocolar da pasta não pode ser colocada em causa. Ao integrar o anterior governo e tomar posse deveria estar consciente do sentido de Estado a que as funções iriam obrigar.

A falta de humildade pode ser considerada má educação e falta de cultura democrática. Atitude igualmente reprovável teve Fernando Nobre quando, em Abril, declarou que se não fosse nomeado Presidente da Assembleia da República renunciava ao cargo porque não seria "só um deputado".

Interessante é que, após as eleições legislativas e subsequente instalação da Assembleia da República, são ambos "só" deputados.

Portugal chegou a este estado, em grande parte, devido a políticas eleitoralistas de curto-prazo, clientelismo, despesimo, falta de coragem para reformas profundas e alguns políticos autistas.

A mudança, que se tornou um desígnio nacional, só poderá ser alcançada através do trabalho, competência, responsabilidade, humildade, austeridade, dedicação, sentido de Estado e um compromisso de verdade para com todos os portugueses e instituições que nos prestam ajuda.

Miguel Henriques, colaborador do blogue e Deputado Municipal como independente em lista do CDS-PP.

3 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

A Dra Canavilhas mostrou ser mal educada. Ao contrário do que parecia ser.

Então não é melhor a cultura ser uma secretaria de Estado? já agora, era bom também deixar os privados tomar conta do cultura.
pode ser que tenha mais sucesso.

Uma das razões para o baixo nivel de votação do BE este ano, foi os constantes insultos e ataques com que impregava no seu discurso. Daí que tenha baixado a votação

Anónimo disse...

Só há um pequeno senão - a "notícia" do Expresso é completamente falsa e inventada. Ouvi anteontem a ex-ministra na TVI24 a desmentir em absoluto qualquer fundamento para o que foi escrito. É triste que se inventem coisas que atacam o caracter das pessoas, sem sequer haver contraditório, e que os jornalistas depois fiquem impunes. E que ainda haja quem acredite e passe logo ao apoio ao ataque. Sei, por experiência, que depois de uma falsidade, bem pode o visado desmentir, que o mal está feito. E isso é muito injusto, deviamos exigir a punição publica, e não só, desta gente sem ponta de ética jornalista, como eles gostam de lhe chamar.

Francisco Castelo Branco disse...

Há muito que se perdeu a cultura democrática.

Veja-se o caso Nobre.

É da tradiçao o partido mais votado apresentar um candidato a Presidente da AR e o Parlamento acompanhar essa escolha

Desta vez isso não aconteceu

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