segunda-feira, 16 de maio de 2011

8.8 - HISTÓRIA DE PORTUGAL - A QUEDA DO IMPÉRIO



1 - A globalização começou com Portugal. O Império Marítimo de português foi o primeiro a nível mundial. Começou em 1415, com a tomada de Ceuta e acabou em 1825, com o reconhecimento da independência do Brasil. Quatro séculos de aventuras e desventuras. Primeiro foi o comércio de escravos e o ouro da Guiné. Depois as especiarias do oriente. As madeiras e o açúcar do Brasil. Finalmente, o ouro e os diamantes de Minas Gerais.
Foi, acima de tudo, uma expansão económica, mascarada com um álibi religioso, como convinha na época. O Papado apoiou e a evangelização fez-se “a bem da nação e a bem de deus” (que era praticamente a mesma coisa). A cobiça pelas almas era igual à cobiça pelas especiarias. O primeiro impulso foi do Infante D. Henrique. D. João II planeou o Império. D. Manuel foi o executor. O apogeu veio com D. João III. O desastre começou com D. Sebastião. O sonho acabou com as invasões napoleónicas e a fuga de D. João VI para o Brasil.

2 – O Império português é um dos maiores enigmas da História. Foi o primeiro e é o último. Um país pequeno, com pouca gente, pobre, com poucos recursos e culturalmente atrasado. E, no entanto… Em meados do século XVI, Portugal estava presente em Goa, em Ormuz, em Ceilão, na Indonésia, na China, no Japão, no Brasil, na Terra Nova, em toda a África Ocidental, em Moçambique, na costa oriental africana, no Magrebe, nas Ilhas Atlânticas. Faltou a América do Norte, que Colombo levou para a coroa espanhola, talvez por engano ou talvez não. O Império português coloca uma série de questões embaraçosas para qualquer historiador: para além da falta de dimensão crítica para abarcar tantos territórios, porque razão essa pequena nação foi tão bem sucedido a partir de 1440? E porque razão, quando finalmente acabou o Império, se tornou uma sombra de si mesmo, em apenas 50 anos? E porque a posse de um Império nunca actuou como catalisador económico e cultural para Portugal, ao contrário das outras nações da Europa?

3 – Há nos Descobrimentos portugueses (e também nos espanhóis) um misto de cobiça e devoção, que constitui a força motora principal. Os Descobrimentos são uma sucessão de actos de ferocidade e selvajaria, praticados por homens impiedosos que bombardeavam, sem apelo, os portos asiáticos e os barcos de mercadores. Degolavam, sem piedade as tripulações dos pangaios islâmicos, cortavam mãos e pés e enviavam de volta ao chefe local, com uma nota a recomendar que os utilizassem para fazer caril. Inicialmente roubavam, mais do que comerciavam e a pirataria era uma indústria florescente. Os negros, os turcos, os mouros, eram “infiéis” e, como tal, possuíam “a maldade de todos os homens maus”. Podiam ser mortos e torturados, porque “deles não era o reino dos céus”. Hoje, Vasco da Gama e Albuquerque estariam na lista dos mais procurados do Tribunal Penal Internacional.
Os Portugueses abriram uma brecha no Oriente. Um ataque que destruiu as redes comerciais até então nas mãos de mouros e venezianos. Um ataque que teve consequências culturais, políticas e sociais enormes: reinos desapareceram; outros foram divididos; a China e o Japão foram arremessados para um isolamento hostil, de que só há poucas décadas estão a sair. O mundo globalizou-se à força de canhão.

4 – Acabado o Império, poucos benefícios sobraram para Portugal. Enriqueceu a monarquia e a alta nobreza. Lisboa atingiu uma certa prosperidade que ainda conserva. Depois dos primeiros e heróicos tempos de aventura e pilhagem, sucederam-se os tempos de exploração ineficaz, cada vez mais inerte, à medida que as décadas passavam. Os portugueses foram ultrapassados pelos holandeses e ingleses, até na arte de navegar. Portugal, apesar de ter dado ”novos mundos ao mundo”, deu pouco mundo a si mesmo. Manteve-se conservadoramente velho e católico. Um Império rígido, ortodoxo e decadente. Um Império que foi apodrecendo com o passar dos séculos, até ao retorno definitivo ao velho continente. Parece que ficámos moribundos de tanto esforço feito… Continuamos aqui amarrados, agora sem norte e sem naus.

Jorge Pinheiro

20 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

Pois, parece que a queda do Império iria trazer uma crise.
Mas não. A partir daí foram tempos de prosperidade económica, social.

mas é pena que na India tenha ficado tão pouco, já que é este o nosso grande feito.

Agora já não temos nada lá fora.

Francisco Castelo Branco disse...

Nem sitio para onde fugir...

expressodalinha disse...

Nem lá fora, nem cá dentro. Esse é o meu ponto. O desastre do Império.

expressodalinha disse...

... A partir daí não foram tempos
de prosperidade. Só houve um arremedo disso com a entrdad na UE.

Eduardo P.L disse...

Portugal, por certo encontrará seu rumo. Quem parece ter perdido todos os rumos é o Dominique Strauss-Kahn...para se ver que na vida tudo é relativo. Tanta mulher querendo um homem, e o Presidente do FMI, querendo um boquete de uma camareira! Ela agora vai ficar rica, escreverá um livro, que vai virar filme, e as novelas humanas e dos Impérios continuam.

Francisco Castelo Branco disse...

se a estupidez pagasse imposto...

Fatyly disse...

"Continuamos aqui amarrados, agora sem norte e sem naus" porquê? Porque os políticos eleitos pelo povo, que respeito e tenho que aguentar, mas que 99,9% não tenta perceber um pouco de política e nem para aí estão virados, os da minha geração não souberam transmitir aos seguintes, valores de "economia, solidariedade, psicologia, competitividade saudável, família, etc." mas sim "o tudo de mão beijada, o máximo do descartável, cunhas e beija mãos, vénias e sacos azuis etc. etc. etc. "! Portugal vai encontrar SIM, o NORTE e vai sair mais uma vez da crise iguais a tantas outras. Mas para isso há que apostar na formação séria, no abrir os olhos ao mundo e se for preciso seguir as pegadas dos cento e oitenta e tal mil que já rumaram, porque quem é bom, empenhado e trabalhador é em qualquer parte do mundo, só não é aqui porque...ganham pouco, sem verem que esse pouco daria para viver não fosse os hábitos com que foram educados.

O voto em Portugal deveria ser obrigatório, porque quando é que aprendem que o cumprimento de um "dado conquistado" é chave mestra? Porque será que votam sempre nos mesmos? O actual PR o que foi como 1º.Ministro? e fulano e sicrano e beltrano?...e quando questiono...pois é, aí a nau mete água por tudo que é lugar!

Neste momento troveja como na minha terra vermelha e tenho pena que um dos vários raios...não seja certeiro, tal... "o raio que os parta à maioria dos actuais políticos"!:)

expressodalinha disse...

Fatuly: um desabafo que podia ser meu. Parece que História nada ensinou. Se calhar eles não estudaram História.

expressodalinha disse...

Eduardo: já não digo nada. Isto está um bocadinho péssimo.

João Menéres disse...

Um texto incisivo que subscrevo QUASE na íntegra.

Um abraço.

Fatima Cristina disse...

Jorge,

Seu texto se resume em uma s´s frase, também sua: "Portugal, apesar de ter dado ”novos mundos ao mundo”, deu pouco mundo a si mesmo."

Talvez a história mostre que faltou um poder de administração dos "mundos" conquistados à Portugal. Por outro lado Portugal esbanjou iniciativa e coragem ao sair sempre confiante em desafios mar afora...
Um esforço mal administrado, mas com muitas glórias!

Nesse caso, o caminho foi a meta!

Beijos!

expressodalinha disse...

João: esse QUASE é um mistério... Talvez um Encobrimento :))

expressodalinha disse...

Fátima: e a meta será o estúpido Fado? Belo comentário.

João Menéres disse...

Fomos colonizadores ( conforme o conceito da época ), mas nunca fomos EXPLORADORES.
Fomos apenas DESCOBRIDORES, ou se preferir, ACHADORES.
Portugal teve sempre, e continuará a ter,
MENTES BRILHANTES.
A população é que aprecia a demagogia.
Não aprende nem à quinta facada !

expressodalinha disse...

Foi pena não termos explorado mais e melhor. Esse, como digo no texto, foi o mal.

Anónimo disse...

Expresso
Nota vinte!...como alguém aqui já frizou, tambem subscrevo quase tudo!
Não é dificil defender esta ideia sobre a colonização portuguesa tal como tão pouco é dificil defender o seu contrário. Tudo depende da nossa condição ideológica ou do lado que queiramos "defender" ou "atacar"
Nota máxima ao texto...um bom principio de tese!
Parabéns e um abraço.

DCS (retired ATP)

Francisco Castelo Branco disse...

Concordo com tudo.

Portugal não foi capaz de investir no futuro, após os descobrimentos.

Ficamos sempre á espera que algo nos caia no colo

é a eterna sina portuguesa

expressodalinha disse...

Obrigado DSC. Abraço.

daga disse...

"nem lei, nem paz nem guerra", estás a ficar percido com o poeta ;) Jorge(a escrever, claro ;)
realmente "Portugal" continua "a entristecer" e nunca mais chega "a hora!"
beijo

(peço desculpa do comentário vir atrasado,mas nem sempre posso...)

expressodalinha disse...

Vem sempre a tempo. Beijos.

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