segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 DE ABRIL - MEDITAÇÃO

1 - O mundo mudou muito nestes 37 anos. 1974 é uma data mítica. Uma data que recordaremos como a fonte da liberdade. E foi obra. Derrubar um regime semi-ditatorial, velho de 40 anos. Foi obra. Sem tiros. Sem mortos. O regime caiu num dia. Espantoso. Nem sequer discuto se era melhor ou pior. Basta ver a saúde, a educação, as estradas… Mas há um indicador indiscutível: a democracia e a liberdade. Aliás, é impossível discutir indicadores entre um regime democrático e um regime ditatorial (se quiserem, de um único partido). É uma discussão vã, patética e saudosista. Mais, é irrelevante. A questão é o que fizemos nós da democracia. O que fizemos nós da liberdade.


2 – O mundo mudou muito. E nós mudámos com ele. Mudámos à nossa peculiar maneira. Tínhamos referências internacionais. As melhores práticas políticas e sociais. Uma Europa desejosa de nos integrar. Um mundo aberto para nos receber. Tínhamos tudo isso e, no entanto, algures a meio do caminho, perdemos o rumo. Quisemos passar de pobrezinhos, a novos-ricos. Tudo em 30 anos. Interiorizámos um passado hipócrita de riquezas roubadas. Invocámos uma missão “lusitana” que nos garantiria crédito histórico inesgotável. Os mundos novos que demos ao Mundo. Uma cristandade feita de massacres. Um devir glorioso feito de guerras santas. Um mercado de escravos sem sindicato, nem subsídio de Natal. Pensámos que havia uma reserva divina para aturar indefinidamente os nossos desmandos. Uma tolerância, “porque sim”. Imaginámos uma bancarrota deslizante. Dinheiro a rodos a cair do céu. E nós sentados à direita de deus pai… A verdade é que não pensámos em nada, não imaginámos nada, não previmos coisa alguma. Nada planeámos. Ficámos apenas deslumbrados. Boquiabertos. Pacóvios. Imbecis. A liberdade. As eleições. Os debates. Os comentadores. Os carros de cilindrada avançada. As férias no “Cu de Judas”. Os restaurantes “gourmet”… A vida passou a ser uma facilidade feita de cartões de crédito. Uma felicidade feita de crédito em cartões. E agora Portugal?

3 – A revolução social foi feita. Faltou fazer a revolução económica e financeira. E se não a fizermos muito rapidamente, corremos o risco de ficar sem o Estado Social. As conquistas do “25 de Abril” por cumprir. Corremos o risco de ficar sem nada. De ser os mendigos da Europa. Não basta votar. Não chega ter liberdade. Convém viver. E viver o melhor possível. Criar riqueza. Não podemos passar o ano a jantar fora e a torrar ao Sol. Esquecemos que o mundo mudou. Mudou muito. Hoje os Estados Unidos estão aflitos. Fabricam moeda para resistir aos chineses, esquecendo que estes absorvem a moeda e compram a dívida a preço da chuva. A União Europeia está sem rumo. Entregue a uma “clique” de burocratas ligados a “lap-tops” que há muito perderam o contacto com a vida. Uma União feita do calculismo de países que procuram afundar-se uns aos outros. Não aderimos ao Euro. Aderimos ao Marco alemão. Mas, um dia destes, os alemães vão acordar bem pior do que nós (são mais e mais exigentes). O mundo mudou muito. E, ou mudamos com ele, ou a liberdade e a democracia serão mitos que iremos incinerar no altar das oferendas, nos feriados crepusculares do regime apodrecido. 25 de Abril, sempre?

Jorge Pinheiro

2 comentários:

daga disse...

deste país onde a "felicidade é feita de crédito em cartões, num "feriado crepuscular do regime apodrecido", te saúdo mais uma vez e te felicito pelo texto que retrata tão bem a nossa triste realidade!

expressodalinha disse...

Pois...

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