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domingo, 27 de março de 2011

ESTAMOS FODIDOS

1 – A demissão anunciada de José Sócrates e a consequente queda do Governo é mais um triste episódio desta “soap opera” que teimam em nos servir nos telejornais vespertinos. Os protagonistas são todos canastrões, a orquestra desafina E o maestro é surdo. Depois da demissão, os partidos preocupam-se se as eleições vão ser a 29 de Maio ou 5 de Junho!!! Extraordinária preocupação. Apetece dizer que a democracia é cara. Um luxo. Um bem raro que os partidos políticos esbanjam. Será assim? Porque não conseguem, então, os partidos regenerar-se, renovar-se?

2 – A verdade é que os partidos políticos, sem excepção, estão entregues a “apparatchicks” cujo único intento é perpetuarem-se no poder. A ideologia deixou de interessar. A ética foi substituída pelo marketing. O debate pela retórica. O bem comum, pelo interesse pessoal. Curiosamente, os partidos do leque governamental afirmam todos só terem uma preocupação: governar e defender o país. E fazem-no conforme entendem, contra tudo e contra todos, independentemente do pais querer ou não. Esta afirmação “patriótica” é o único objectivo ideológico desses partidos do Centro. Tudo o resto é absolutamente secundário.

3 – Como se chegou aqui? A direcção das máquinas dos grandes partidos vai sendo progressivamente açambarcada por uma classe profissional desejosa de poder e que vai afastando os militantes. Essa classe acaba por se tornar indispensável, na lógica da conquista do poder. Eles dominam o “aparelho”. Estão por dentro. Manipulam as regras. Eternizam-se no poder partidário. São inamovíveis. A renovação faz-se pela idade e, mesmo essa, é controlada e circunscrita parcimoniosamente. As oposições internas são absorvidas, com cargos e promessas, perdendo rapidamente a credibilidade como facções. Resta-lhes aderir ao “establishement”. A democracia desaparece no interior dos partidos. Deixa de haver “estímulos ideológicos”. A mudança é mera adaptação. Um reposicionamento táctico para não perder o poder. As motivações patrimoniais sobrepõem-se a tudo. Os partidos passam a ser “agências de emprego”. Em breve surgirão os oportunistas que vêem na política um trampolim para multiplicar os seus proveitos pessoais. A política partidária deixa de ser um jogo ideológico, para ser um jogo de interesses pessoais. Trocam-se favores. Cede-se aqui, para se obter ali. O povo deixa de interessar. Já nem o voto assusta. Hoje um partido, amanhã o outro. Tanto faz. Partidos sem ideologia não conseguem formular propostas e políticas públicas consistentes e coerentes. Estes partidos são clientelares, nepóticos e patrimoniais. Há um total desprezo pelo serviço público, visto como um embaraço ao desenvolvimento dos interesses pessoais desmedidos. Há uma completa ausência de vontade para introduzir novos impulsos democráticos. Uma absoluta falta de apetência para renovar ideologias.

4- Os partidos do leque do poder evoluíram para o “centro do centro”. O centro inamovível, qual Motor Imóvel de Aristóteles. O centro quer chamar-se esquerda; a direita quer chamar-se centro; ninguém se quer chamar direita. Em Portugal o PS, o PSD e o CDS, todos querem estar no “centro”. Este é o território propício a todas as renúncias ideológicas. Tudo em nome dos superiores interesses da nação. A democracia requer luta entre forças políticas. Hoje a democracia estagnou. Os partidos socialistas e sociais-democratas identificam-se exclusivamente com a classe média. Deixaram de representar as classes populares. Vêem estas como um arcaísmo a ignorar, ou mesmo a combater. Os cidadãos sentem-se excluídos da democracia. Sentem-se desprotegidos. E estão. A soberania popular é considerada obsoleta. Os partidos não querem a participação popular, porque não se querem renovar. Estamos condenados a ser dirigidos por oligarquias partidárias que há muito se esqueceram onde está o povo. Essas oligarquias limitam-se a um arremedo canhestro de debate político, para consumo exclusivo dos comentadores de serviço, filhos e enteados que eles próprios puseram nas televisões e jornais. Estamos fodidos!

Jorge Pinheiro

14 comentários:

João Menéres disse...

Tradução lúcida da realidade portuguesa.
O item 3 é de uma VERDADE que dói.

Um abraço.

expressodalinha disse...

João: Mais que uma tradução da realidade portuguesa, é, infelizmente, assim em todas as democracias ocidentais (salvam-se poucas).

byTONHO disse...



Por aqui é a Lesma Lerda...

Caro Jorge:

Por falta de DEUS(?)
perDEU-Se
escafeDEU-Se
desentenDEU-Se
desaprenDEU-Se

fuDEU-Se!

:(:

Eduardo P.L disse...

E o PIOR, sem PARTIDOS não há DEMOCRACIA, não havendo alternância de poder, aí sim é que estamos irremediavelmente FODIDOS!!!!!

Francisco Castelo Branco disse...

Curioso e que Passos Coelho afirmou que iria apresentar uma Moção de censura, ptt so estava a epsera do tempo certo.

Tenho que para mim as proximas eleições vao ser como as do Sporting, vaõ ser necessárias muitas recontagens....

veremos, mas as pessoas estão cansadas, mas ha que continuar a pugnar pela democracia.

eu nao vivi o 25 de Abril, mas sei que o entusiamos das pessoas em relação a politicoa era muito maior do que nos dias de hoje

daga disse...

pois, Jorge, realmente estamos sem saídas, sem esperança, sem ideologia, sem ética...
excelente análise, não falta nada (infelizmente para nós :p )

Francisco Castelo Branco disse...

Temos de saber que vamos ter dificuldades durante alguns anos, agora certamente uns falarao verdade e outros nao..

tem tudo a ver com isto

Mena G disse...

Se as próximas eleições forem como as do Sporting, espero que haja muita porrada. No entanto, ainda não me apetece comparar o país a um campo de futebol. Pode ser que a "malta" se canse de ser fodida...

Helena Oneto disse...

Tens razão, Jorge!
Ter democracia é o unico luxo para alguns milhoes de portugueses e, naturalmente, eles não a querem perder e para poderem continuar a ter esse "privilégio" é necessario merece-lo...

expressodalinha disse...

Sei que o título foi forete. Mas estamos feitos?... Estamos lixados?... Acho que estamos mais do que isso.

Francisco Castelo Branco disse...

Lixado sim porque vem ai muita austeridade e contestação.

mas ha uma diferença : o falar verdade.

Socrates nao conseguiu isso, acho que PASSOS COELHO consegue ser mais verdadeiro.

as pessoas sabem o que as espera mas estão fartas do PM

expressodalinha disse...

Isto não é Benfica - Sporting.

Francisco Castelo Branco disse...

mas parece, e o fcp é a senhor merkel

daga disse...

Lol, os vossos dois últimos comentários são Lindos :) Infelizmente tenho observado que alguns (muitos:s ) protugueses parecem encarar os partidos como clubes de futebol (o que é uma tristeza)ou seja - nem que o "meu" partido faça uma enorme asneira continuo a votar nele pois é o "meu" partido! não sabem bem o que é democracia...

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