sábado, 26 de fevereiro de 2011

A DESGRAÇA ÁRABE

1 - Não é agradável ser árabe nos dias de hoje. Depois dos dias de glória, dos califados e impérios transcontinentais, os árabes são vítimas de si próprios. Perseguições, ódio, condições económicas e sociais precárias, apelos ao terrorismo. Não é fácil ser árabe. Mesmo os sauditas dominantes e os ricos kuwaitianos deixaram de estar imunes desde o 11 de Setembro. Onde está o renascimento dos finais do século XIX, inícios do século XX? Onde está o movimento cultural da Nahda? Onde estão os pintores, poetas, músicos, dramaturgos e romancistas que contribuíram para reformular a cultura árabe no Cairo, Bagdad, Beirute e Casablanca? Hoje em dia caiu-se na ideologia da vitimização. Os árabes sentem-se vítimas de tudo e de todos. Povos bloqueados: analfabetismo; disparidade abissal entre ricos e pobres; sobrepovoamento das cidades; desertificação dos campos. Mas, acima de tudo, a desgraça árabe, mais do que nos números, reside nas percepções e nos sentimentos. Ela é sentida por aqueles que, noutro lado, poderiam seguramente escapar-lhe. Há um estigma entre os próprios árabes. Há uma comparação paralisante com o Ocidente, em termos de qualidade de vida, direitos humanos e sociais. Há uma menorização económica evidente com os “tigres orientais”. Há uma capitis diminutio em relação à transição democrática da América Latina. A revolução tecnológica não surge. O progresso político não existe. A economia não produz. Os direitos humanos estão ausentes. As mulheres são subservientes. A pobreza é uma constante. A demografia uma espiral. O petróleo beneficia sempre os mesmos. E os mesmos estão no poder político. O mundo árabe sofre uma carência cruel. Uma carência em todos os parâmetros ao mesmo tempo. A história não ajuda. A comparação com épocas remotas é inevitável. A impotência árabe é ainda mais dolorosa por nem sempre ter sido.
2 – Perante esta desgraça, há quem desespere e pense que o mundo árabe está num impasse. Ao pensar assim, agrava-se esse impasse. Aqui incluem-se os liberais, os iludidos do nacionalismo e os ex-militantes de esquerda. O nacionalismo só agravou o problema. Ele acabou por se afirmar numa cultura imperialista que, na esteira dos neoconservadores americanos, acredita que a mudança e a democratização só podem vir dessa dominação, sem verem que desse modo só agravam as frustrações e alimentam a vitimização e a cultura de morte, tornando perenes a desgraça árabe.
Ora, a vitimização árabe é pasto para as correntes islamistas jihadistas que, como bons messianistas, vêm na desgraça árabe um mau bocado a passar para atingir o Paraíso e as suas quarenta huris. Para eles tudo está bem quando tudo está mal. O Ocidente tende a confundir, na sua simplicidade comunicacional, o jihadismo como ideologia dominante, o que é de todo falso. No entanto, esta ideologia tem um efeito poderoso, já que propõe uma saída pela via da própria vitimização.
Este culto da vítima defende que os árabes são o principal alvo, senão o único, do Ocidente. Esquece que o Ocidente pilhou sucessiva e continuadamente África; esquece o genocídio quase total da América pré-colombiana; esquece a marginalização e subserviência de Indochina. É evidente que o Ocidente tem culpa. E muita. Mas uma coisa é tomar consciência disso. Outra é o comprazimento na vitimização.
3 – Para sair desta desgraça é preciso que sejam os próprios árabes a fazê-lo. Não podem esperar ajuda, nem arranjar álibis. E, acima de tudo, é indispensável que os árabes abandonem o fantasma de um passado inigualável para encarar a sua história de frente.
Jorge Pinheiro

22 comentários:

Eduardo P.L disse...

Como fazer? E esse é o grande problema árabe!

Mar de Bem disse...

Não é fácil.
Nós, nem os entendemos...

expressodalinha disse...

O que procuro dizer é que o grande problema árabe é acabar com a auto vitimização. O resto virá...

expressodalinha disse...

Não precisamos de os entender. Essa é uma visão errada e ocidental.

Helena Oneto disse...

Jorge,
O teu olhar é lucido, feroz e pessimista mas nem todos se comprazem na vitimização. La preuve! A democracia não é privilégio do mundo ocidental, a ver vamos se eles conseguem assumir o seu proprio destino. E porque não?

Francisco Castelo Branco disse...

excelente analise.

Não concordo que o Ocidente tenha culpa apesar de ter posto alguns ditadores lá. Se calhar na altura era necessária, mas um Mubarak não é Kadafi e Ben Ali de certo não será Bashir Al-Assad.

Não conheço muitos arabes e custa a entende-los.
Se por um lado existe um certo receio pelo fanatismo, por outro nota-se que há uma pessoa boa com medo da repressão.

Se calhar foram dos povos mais reprimidos e aquilo que se passa no Médio Oriente nem nas ditaduras mais severas da Europa e da America Latina acontece.
Eles não têm nada. Zero.
Enquanto que Mubarak, Kadafi, Bashir, os principes da Arabia, Bahrein são ricos e consomem tudo.
O mais preocupante é como se chegou a esta situação. É como uma familia tivesse fundido um país e deitado mão nele.

Espero que estas revoluções mudem isto, mas estou um pouco receoso porque acho que os arabes são mal organizados, não sabem o que é democracia e têm o tal fanatismo que pode deitar tudo a perder.
Nem tudo vão ser rosas nesta transição, porque a conquista do poder pelas armas é uma das caracteristicas do Mundo arabe. E o poder é muito corrompivel.

pergunto : será que os arabes sabem o que é uma ideologia? ter ideias politicas? não me parece mas deixo em aberto essa questão

angela disse...

Pensar que o ocidente não tem nada ou pouco a ver com a situação arabe atual é fechar os olhos para a história. Quem armou Bin Ladem? Quem criou o estado de Israel e tirou os palestinos? A questão toda do canal de Suez? Tinha tantos ingleses por lá epor aí a fora. No entanto concordo com a visão do Jorge que é preciso olhar para o que se tem e para o que é necessário construir pois se o olhar ficar naquilo que se foi perdido não se chegará em lugar nenhum.
abraços

myra disse...

grande e terrivel problema!
qdo terao fim as guerras e os ditadores?!!!
otimo texto,
um abraço

Francisco Castelo Branco disse...

cara angela, mas não se pode culpar sempre o ocidente. Lembro que os actuais kadafis, mubarak, bashir al assad, nasceram de revoluções dentro do próprio pais ou entaõ por morte de monarcas, como foi o caso de Mubarak no Egipto. Lá por terem dado apoio não quer dizer nada.

é a mesma questão africana. Existem milhares de ditadores em áfrica por causa dos colonizadores brancos....

myra

temo é que nasçam mais ditadores depois destes conflitos. E ditadores mais radicais do que estes

angela disse...

Caro Francisco este é o pedaço deles
concordo com você e espero que cuidem dee mehor dele dessa vez.

Francisco Castelo Branco disse...

culpam sempre o Ocidente pelo que de mal acontece, mas desta vez não vimos uma unica bandeira americana ou inglesa queimada.

Porque isto é uma revolução arabe. apenas e só.
Contra os proprios governos

expressodalinha disse...

Eu não culpei ninguém excepto os próprios árabes. Não sei se alguém reparaou..., mas esse exactamente o ponto desta crónica. As consciências culpadas dos ocidentais levam a só falar nisso. Ajudem os árabes e não falem nisso.

expressodalinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

FCB
chego tarde mas mais vale tarde.....
Só Angela tocou ao de leve no espinho do calcanhar dos povos Árabes.... Israel.no seu instinto de sobrevivencia foi a argamassa usada pelos lideres Árabes para congregar as massas.As fronteiras artificiais não ajudaram em nada. Nasser o visionário da Républica Árabe unida desapareceu muito cêdo, Gaddafi tentou a união e também falhou pelo meio ficaram os acordos de Campo David a que sempre se opôs, não soube como não o sabe qualquer ditador saír a tempo, Mobarack idem idem aspas aspas...foi um corrolário de enganos. A religião ópio do povo fez o resto quando caíu nas mãos sequestrada por fanáticos e feita arma de arremesso contra o ocidente que não reconheceu o fenómeno. Democracia tipo ocidental não passa de uma útopia....
Mas como se diz, "útopia hoje...uma realidade amanhã"...só que é um amanhã muito distante.

Abraço

DCS (atp)

Francisco Castelo Branco disse...

caro expresso

eu sei que não culpaste, mas é muito frequente falar-se do Ocidente como aquele que "meteu" lá estes homens todos, como a Angela fez questão de insinuar que quem armou Bin Laden foram os americanos.
Mas nesta guerra que estamos a assistir tem a ver com os povos arabes e a sua história.
Eles estão fartos de ser governados por corruptos, ditadores e fanáticos.
Têm de ser os próprios arabes a se governarem sozinhos. Sem ajudas

Francisco Castelo Branco disse...

caro dcs

pelo que compreendo das suas palavras, então os povos arabes não têm futuro, porque ate hoje falharam em quase tudo

é isso que me preocupa, pois provavelmente também falharão nestas revoluções.
Porque? fanatismo, desorganização, iletracia....
tanta coisa

Eu vejo assim os arabes...

expressodalinha disse...

Esse é o problema de ficar agarrado à história...

Francisco Castelo Branco disse...

no qual os arabes são um grande exemplo disso .

Só que parecem agora querer livrar-se da historia

expressodalinha disse...

Esperemos.

daga disse...

gostei da análise, Jorge, a vitimização é sempre negativa, mas no caso dos árabes pode ser fatal por servir de "pasto" às tais correntes...
parece que também estão à espera de um D.Sebastião qualquer que lhes resolva os problemas... mas como dizes: "não podem esperar ajuda", têm de construir o seu futuro sozinhos!
Francisco, Mubarak não veio suceder a Sadat depois deste ter sido assassinado?

expressodalinha disse...

Nasser era o Faraó. O Egipto é (era) um país diferente.

Francisco Castelo Branco disse...

Sim daga e depois?


não foi ele que tomou as redeas ....

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