domingo, 7 de novembro de 2010

Olhar a Semana - A armadilha da Europa

1 - O Orçamento de Estado para 2011 acaba de ser aprovado na generalidade. Um Orçamento de salvação nacional. Contrária e curiosamente os juros da dívida pública subiu de imediato e já vão em 6,78%. Agora, para Portugal, o dinheiro custa três vezes mais do que para a Alemanha. A forma anti-patriótica como os partidos discutiram o Orçamento na Assembleia muito contribuiu para isso. Mas é óbvio que os mercados desconfiam. Desconfiam da execução orçamental, da discussão na especialidade, da crise política em curso e da incerteza das eleições antecipadas. Desconfiam de uma Constituição formalista e paralisante que não permite resolver este embróglio em ano de eleições presidenciais. Desconfiam e aproveitam para especular. A entrada do FMI parece inevitável e até desejável.

2 – Neste momento os portugueses interrogam-se sobre as vantagens de estar na União Europeia e de pertencer à Zona Euro. Aquilo que nos permitiu crescer, é aquilo que agora nos faz decrescer. Aparente paradoxo. De facto nós não crescemos. Apenas gastámos mais. E depois o dinheiro não era nosso… Era da Europa! A entrada na UE criou a convicção de dinheiro barato, escorrendo eternamente de fontes inesgotáveis. A culpa foi da má gestão de sucessivos governos. Sim, mas foi também uma ilusão colectiva. A armadilha “Europa”.

3 – Em vez de termos uma visão estratégica para o país e de gerir o dinheiro em função disso, fizemos uma gestão à “novo rico”, uma gestão pimba. Os vícios são seculares, mas uma má transição da ditadura para a democracia, que exigiu uma revolução no “25 de Abril”, transformou-nos nos pedintes da Europa. Um país sedento de tudo o que não tinha. Carros, roupas, férias de luxo, cartões de crédito… A Europa deu. Mas o que tirou? A agricultura morreu. As pescas acabaram. A indústria não melhorou. O resto fomos nós que não conseguimos. Gastámos sem amealhar, sem criar riqueza. Ficamos viciados em crédito. Agora querem os juros.

4 – Sem possibilidade de gestão financeira nacional devido às regras de entrada na Zona Euro, o governo apenas passará a fazer a gestão da dívida. Para o ano só à conta das parcerias público privadas (PPP), e a título de exemplo, vamos pagar 2 mil milhões de euros só em juros!!! A dívida total bruta acumulada é de 450 mil milhões de euros (o dobro do Brasil). Entrámos num círculo vicioso. De acordo com essas regras, não podemos exceder 3% do PIB anualmente. Para o conseguirmos temos de cortar brutalmente nas despesas e aumentar receitas via impostos. Ou seja, não há dinheiro para investir, nem para consumir. Só há dinheiro para a dívida. Como não crescemos, não pagamos a dívida e não atingimos os referidos 3%. Logo somos penalizados pela EU, os juros continuam a subir e menos podemos crescer. A recessão é já uma evidência… Agora alguém me explique como se corta este nó górdio?!~

Jorge Pinheiro

2 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

concordo plenamente, ainda por cima num país com enormes condições para a agricultura, pesoa, comércio, turismo..... tudo morreu e nada foi aproveitada...

Sim, somos um país novo rico mas que será o mais pobre da EUROPA

João Menéres disse...

Venha o FMI !
Devem saber pensar...

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