segunda-feira, 8 de novembro de 2010

7.2. - UNIÃO IBÉRICA - TENTATIVAS FALHADAS

1 – Ao longo dos séculos foram várias as tentativas falhadas para constituir a União Ibérica. A criação do Estado português, no séc. XII, tem motivações diversas e eventualmente acidentais. A independência surgiu contra o reino de Leão e fortificou-se na luta com Castela.

Uma geografia montanhosa e agreste, por um lado, e o Oceano Atlântico, por outro, podem justificar a criação geográfica do Estado. Uma economia frágil determinou a expansão ultramarina. Tudo isto nos divorciou da Europa e nos afastou da Espanha. Portugal não era uma nação. Nem disso tinha consciência. Portugal era um conjunto de tribos celtiberas, de visigodos, de romanos e judeus, a que se viriam a juntar, mais tarde, os mouros. Foi claramente por razões de poder entre senhores feudais e de intriga entre as Cortes de Leão e do Condado Portucalense (com a Galiza de permeio) que acaba por surgir Portugal. Tudo o que depois se disse sobre Viriato e os Lusitanos não passa de mistificação setecentista para consolidar uma identidade nacional permanentemente dividida entre Portugal e Castela.

2 – Desde os primeiros reinados portugueses houve sempre a preocupação de fazer contratos nupciais entre Portugal e os reinos de Leão, Aragão e Castela. Os casamentos cruzados começam logo na primeira dinastia e mantêm-se com a dinastia de Avis. Estes casamentos visavam garantir a paz, mas também colocavam questões de sucessão nos reinos envolvidos.
Se exceptuarmos as tentativas de reconquista militar ainda na primeira dinastia, podemos dizer que o Estado português se estabilizou a partir D. Dinis (1261-1325)) e que a partir daí todas as tentativas de “fusão” se devem a questões dinásticas, motivadas pelos referidos casamentos cruzados.

3 – Curioso é notar que com a dinastia de Avis (2ª dinastia) se começa por consolidar a independência (D. João I – 1385), para logo a seguir se tentar a “fusão”, até se perder a independência, após a morte de D. Sebastião. Tudo nesta dinastia. Ora vejamos:

- D. João I – Na sequência da morte do rei D. Fernando, sem herdeiros, a regência foi entregue à mulher, Leonor de Teles. As ambições desta e as inimizades que motivou, mais a sua ligação ao conde galego João Fernandes Andeiro, conspirando para entregar o reino ao rei de Castela (tb. de seu nome João), criaram um movimento nacionalista, para o qual foi fundamental o apoio da burguesia, com o Mestre da Ordem de Avis, D. João, à frente. Deram-se as batalhas de Aljubarrota e Atoleiros e a independência é garantida, com o apoio fundamental dos ingleses. Em 1386 o Tratado de Windsor, o mais velho tratado internacional do mundo, é celebrado, juntamente com o casamento de D. João com Filipa de Leichester (Lencastre). E nunca mais nos vimos livres dos ingleses.

- D. Afonso V – em 1446, com 14 anos, toma conta do governo que já então se tinha estendido ao norte de África (Ceuta), no reinado do pai, D. Duarte. Afonso V é um rei “fora do seu tempo”: um cruzado e um cavaleiro. Depois de tomar várias praças-fortes em Marrocos, dando expressão à sua faceta de “cruzado”, resolve defender a sua dama e envolver-se numa patética luta com Castela que se viria a desastrosa, não fora a intervenção do filho.

- D. João II – filho de Afonso V e desde muito novo associado ao governo de Portugal, foi ele que deu alguma sanidade à gestão do pai e foi o responsável pelo planeamento dos Descobrimentos. O “Príncipe Perfeito” tinha um sonho: ser rei do Mundo! Para isso tinha de conseguira coroa de Castela. As duas potências ibéricas começavam a descobrir outros continentes e outros caminhos marítimos. Alternativas comerciais e expansão de mercados. Se Portugal e Castela se juntassem, esse novo reino seria o “dono do Mundo”. Esta política de fusão foi deliberadamente conduzida por ele e pelos Reis Católicos. Havia esse desejo por parte de ambas as Casa Reais. Em 1490 casa-se Afonso, herdeiro do trono português, com Isabel, herdeira de Castela. Em breve haveria um único rei na Península. Era a época das “fusões”. Castela tinha já incorporado Leão e estava em “operação de aquisição” com Aragão, fruto do casamento de Fernando de Aragão e Isabel de Castela (os Reis Católicos). Em breve, também, os mouros iriam ser totalmente expulsos, com a tomada de Granada, último bastião do Islão na Península. Não quis, porém, o destino. O príncipe Afonso cai do cavalo em Almeirim e morre sem herdeiros. D. João segundo deixa de sonhar com o Mundo todo e força o Tratado de Tordesilhas (1494), para assegurar meio Mundo.

- D. Manuel I – primo de D. João II sobe ao trono e sem saber ler nem escrever herda tudo o que o antecessor tinha planeado. Por isso é o “Venturoso”. De qualquer forma não desiste do objectivo da “fusão” dos tronos. E, novamente, com o acordo dos Reis Católicos, casa com a mesma Isabel viúva do príncipe Afonso, ela que continua a ser a herdeira do trono de Castela e Aragão. Um verdadeiro “déjà-vu”. Com a mulher em adiantado estado de gravidez, vai a Espanha para jurar a sucessão. Chega a jurar o trono de Castela, em Toledo. A sua garantia era a mulher, Isabel. Mais uma vez o destino não quis. A mulher morre de parto ainda em terras de Espanha e D. Manuel não chega a tomar posse de Aragão. Volta para Portugal com o rabo entre as pernas, mas deixa lá uma semente de união: o filho D. Miguel de la Paz, herdeiro jurado dos três tronos. Era a derradeira esperança de união… Mas não! Também este morre com pouco mais de 2 anos de idade.

- D. Sebastião – mais um homem fora do tempo e, aliás, fora de tudo. Neto de D. João III, inicia o reinado em 1568. Deixa-se matar com 24 anos, em Marrocos, na “Batalha dos Três Reis” (nome dado pelos marroquinos, pois morreram dois reis mouros e um português), na sequência de uma loucura cruzadística. Lança o país na maior confusão dinástica. O quadro sucessório era complexo, mas acabaram por triunfar as razões jurídicas puras e duras. A sucessão competia a Filipe de Espanha. Não houve resistência militar à altura e, com a clara complacência, e até vontade, da alta nobreza e clero, o trono passa para o monarca da Casa de Habsburgo. De 1580 a 1640 Portugal foi mais um país governado por essa “holding” europeia de gestão de reinos. Nunca chegou a haver verdadeira fusão. Nunca houve uma identidade conjunta. Apenas uma gestão conjunta. A independência voltaria por detalhes mesquinhos relacionados com a nobreza e impostos necessários ao esforço de guerra espanhol. Nunca mais haveria outra hipótese…

4 – Na actualidade Portugal e a Espanha estão reunidos na EU. Mas a União Ibérica nunca saiu da nossa cabeça. Uns; para se oporem; outros, para a desejarem. Só isso significa que há uma genética comum. Uma nostalgia de separação. De facto, a verdadeira nação é a Ibéria. O resto, são regiões.

Jorge Pinheiro

16 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

vives obcecado com a Uniao Iberica.

Só mais uma coisa :

Nos tempos que correm, Espanha é sempre muito mais beneficiado do que Portugal quando se trata de "uniões".

Veja-se o caso do Mundial 2018.
Nem o jogo de abertura temos direito

expressodalinha disse...

Não estou obcecado. É um eatado de espírito. Sempre era melhor que chineses!
Se houvesse UI já não havia "beneficiados" porque não havia Espanha, nem Portugal.

Francisco Castelo Branco disse...

então a lingua?

era uma forma de distinção e tambem superioridade

daga disse...

e será que Espanha concordaria com essa UI sem impor condições? Para haver uma UI era preciso que Portugal não fosse simplesmente "engolido", como mais uma região.

expressodalinha disse...

Assim somos engolidos pelos chineses, mas não somos região!
A verdade é que tudo isso teria de ser muito bem negociado. E mais do que aspectos patrioteiros, neste momento importa o balanço económico. Ou faz sentido economicamente ou então ficamos como estamos. Este post serve apenas para dar uma visão das estratégias e acidentes ao longo dos séculos.

Francisco Castelo Branco disse...

mas dependentes de Espanha já estamos ha muito..

expressodalinha disse...

Isso é falso. São mais uma vez ideias patrioteiras, para nos afastar. Natural é o comércio entre vizinhos. Toda a vida dependemos da Inglaterra e ninguèm diz nada?! Basta ver o balanço económico. Só há menos de 30 anos começo alguma dependência da Espanha, nomeadamente alimentar. Importamos hoje muito mais de outros países, como a Alemanha e UK.

expressodalinha disse...

Acresce que se o balanço é negativo a culpa é nossa. E depois que tem isso a ver com a UI? Pelos vistos não é preciso UI para dependermos. Então mais vale integrarmos. Ao menos temos voto na matéria.

Francisco Castelo Branco disse...

o problema e que vamos continuar a não ter voz.

apesar de sermos a regiao mais densa

Francisco Castelo Branco disse...

o problema e que vamos continuar a não ter voz.

apesar de sermos a regiao mais densa

Anónimo disse...

Ó Expresso
explique lá essa de sermos engolidos pelos chineses?! Não entendo.
Outra. Quem lhe diz que não reclamámos contra a hegemonia dos ingleses?
Lembresse que até "A Portuguesa" começou por ser uma cantiga ( agora diz-se canção!)espalhada e cantada mais ou menos clandestinamente contra os ingleses..."contra os canhões marchar marchar"....eram os canhões ingleses que se referiam...
Sei que só por lapso de memória isso esqueceu!
Claro que a cantiga foi aproveitada pelos republicanos em embrião dos fins do século desanove como arma de arremesso contra a monarquia e hoje a não ser as elites mais educadas o sabe.
Um abraço e discordo da união da Ibéria. Talvez por ser velho. Será?

DCS (atp)

expressodalinha disse...

"Contra os bretões marchar, marchar...". Não esqueço nada. Mas não basta fazer canções.
Qt à UI, cada um tem a sua opinião. Respeito essa e até acho, sinceramente, que neste momento é irrelevante a UI. Estou só a falar da História de Portugal e das tentativas falhadas.
Qt ao chineses, acho que ficou tudo claro no fds. Agora temos mais 1,5 biliões de mercado para exportar. Conseguiremos?
Já agora, leia "Causas da Decadência dos Povos Peninsulares", um pequeno opúsculo de Antero de Quental. Fica tudo esclarecido.

Francisco Castelo Branco disse...

A europa está em decadência.

E os EUA...

A China e India se sobreporão e irão ser os novos donos do mundo

Estava a fazer vela no tejo quando passou o avião com o presidente chines.
Ao lado vinham dois falcons da Força aerea e mais atrás um Mig ( julgo...)

já nem Obama tem direito a estas regalias

expressodalinha disse...

Pois...

Anónimo disse...

Expresso
Sempre considero amigo quem recomenda um livro.
Vou conseguir o ópusculo.
Como analize histórica aceito a sua...Já tenho ouvido dizer que o nosso mal começou quando Dona Teresa não torceu o pescoço ao filho à nascença!!!!mas não o fez e agora somos o que somos. há que viver com a maldição ou a sorte.
Quanto à China, temo defraudá-lo.
Conheci e conheço a realidade Chinesa por razões profissionais. Voei para lá oito anos. Não nos iludamos. Alguem em tempos idos me descreveu a União sovietica mais ou menos nestes termos:-" é um país rico com um povo pobre tal como Portugal"...isto passou-se nos tempos da ditadura. Há muito tempo. óra, nos dias de hoje a mesma analogia se aplica à RPC...Um país rico (governo) com um povo pobre. A média dos salários chineses andam pelos noventa dollares mensais. Não teem poder de compra. A missão de Huntao pelo mundo é vender não comprar. Senão veremos.Comprar a dívida, portuguesa ou outra,são para a China investimentos externos...nada mais do que isso.

FCB
Obama não necessita dos nossos F16 para o escoltarem!...ele é escoltado em qualquer viagem pela força aerea e Navy americana com todo o seu poderio...eles jamais confiariam numa força qualquer... De resto as criticas internas em tempos de austeridade são enormes.
Imagine que cada viagem que faz ao estrangeiro custam a bagatela de dusentos milhões de dollares diários!
De certeza não vai ver o esquadrão de f18 ou 16 que o escoltam...eles serão desviados para Monte Real à vista de Lisboa...o Portaviões ficará ao largo para o que der e vier!
Abraço aos dois

DCS(atp)

expressodalinha disse...

DSC
O livro é da Padrões Culturais Editora. Comprei na Bulhosa. é uma análise datada, claro (1871), mas plena de actualidade.
Qt à sua análise sobre a China, obviamente concordo e acrescento que os desequilíbrio dentro da própria China, entre o litoral e o interior, são enormes. Mais o sistema de capitalismo de Estado terá de evoluir rapidamente. Os chineses são muito planeados e muito determinados na execução (talvez até demais). Por isso vamos ver o q acontece. Eu, estava apenas a ironizar. Agora q vamos ter de esquecer o Tibete, os Direitos do Homem em Tianamen e o Prémio Nobel, isso vamos!

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