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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

6.3 - D. HENRIQUE E O CONDADO PORTUCALENSE - II

1- Como já vimos no post anterior sobre este tema, a linhagem dos condes de Portucale extingui-se em 1071. O vazio provocado por esse desaparecimento acabou por destacar os chamados infanções, um estrato intermédio da nobreza que actuava por delegação régia ou condal, numa lógica de vassalagem. Com o desaparecimento dos condes, os infanções foram assumindo crescente poder à escala regional, garantindo a defesa, administrando a justiça e apropriando-se de todos os poderes públicos.
Esta alteração de forças nas relações políticas e sociais, com a parcelarização e privatização dos poderes públicos que passam a ser exercidos a uma escala local, configura aquilo a que se costuma designar por "revolução feudal". Os infanções passam a depender directamente do rei, sem intermediação do conde. Esta situação muito peculiar iria conferir-lhes um papel vital na evolução dos acontecimentos na região portucalense e distinguir, de forma asbsoluta, o "feudalismo" português do verdadeiro feudalimo do norte da Europa.

2 - Em 1086 Afonso VI, de Leão, sofre em Zalaca (região de Badajoz) uma pesada derrota contra os Almorávidas (recém chegados de Marrocos). Esta derrota teve fortes repercussões na Península e além-Pirinéus. A segurança da Europa era de novo posta em causa. Roma afligiu-se. França inquietou-se.
Entrou em jogo o Mosteiro Beneditino de Cluny (zona da Borgonha). As ligações com Borgonha existiam já: Afonso VI era casado com Constança, filha do Duque de Borgonha e sobrinha do abade Hugo de Cluny. No séquito de Constança vieram para a Península muitos cavaleiros franceses. Importará recordar que nesta região francesa foram, por esta altura, criados os alicerces da futura Ordem dos Templários.
A pregação anti-muçulmana de Cluny, o início da peregrinação massiva a Santiago de Compostela, através do "caminho francês", o número crescente de cavaleiros francos na corte de Leão, a expansão de mosteiros clunisenses na Península e a nomeação de inúmeros bispos ligados à Ordem em Braga, Porto ou Coimbra, contribuiu para influenciar toda a política Ibérica. Até aí havia uma tolerância para com os moçárabes e mesmo para com os mouros que deixou de haver.
Por lado, a carreira das armas era uma das poucas hipóteses de fazer fortuna para os pequenos nobres ou para os segundos filhos de reis de duques.

3 - É assim que, de uma forma perfeitamente natural, Afonso VI casa as suas duas filhas, Urraca e Teresa (filha bastarda), com dois cavaleiros ligados à casa ducal de Borgonha: Raimundo e Henrique, respectivamente. Raimundo viria a ser Conde da Galiza (por morte de Garcia, irmão de Afonso VI, e aprisionado por este). A Galiza integrava nessa época terras portucalenses. Assim, o território inicial de Raimundo estendeu-se bem para sul, atingindo Santarém e Lisboa, entretanto entregues pelos mouros. Só que Raimundo não deu conta do recado. Não conseguiu assegurar a a defesa desses vastos territórios.
Terá sido esse o motivo porque, em 1096, Afonso VI concedeu a Henrique de Borgonha o Condado Portucalense, agrupando os antigos condados de Portucale e de Coimbra. A concessão foi feita a título hereditário, com óbvias características de um contrato feudo-vassálico e em que eram patentes as práticas borgonhesas. Henrique passou a estar directamente dependente do rei, sem qualquer dependência de Raimundo, separando-se Portucale da Galiza.

4 - O sucesso de Henrique na defesa e administração das "suas" terras foi evidente. E isso permitiu-lhe estabelecer com Raimundo o chamado "Pacto Sucessório" (1105), um acordo secreto patrocinado por Cluny que fixava uma futura partilha de poderes entre eles nos reinos de Leão e Castela, incluindo na Galiza, após a morte de Afonso VI.  De facto, por esta altura, as intrigas eram tremendas: um partido francês, cada vez mais forte e apoiado por Cluny e, de certa forma, pelo Papa; uma nobreza leonesa descontente que se sentia secundarizada e defendia Sancho para suceder no trono, embora fosse filho de uma ligação de Afonso VI com a moura Zaida.
Mas a vida é curta. Então na Idade Média nem se fala. As intrigas correram atrás das mortes. De 1005 a 1112, nenhum dos intervenientes está já vivo: morre Afonso VI; morre o infante Sancho; falece Raimundo; até o abade de Cluny não escapa... Em 1112 fina-se Henrique. O Pacto Sucessório nunca se cumpriu. Mas D. Henrique deu um impulso decisivo à criação de uma diferenciação e mentalidade portuguesa., na prossecução de uma política que não diluía o Condado Portucalense no âmbito da Galiza. O caminho político para um Portugal autónomo estava aberto.
Jorge Pinheiro

2 comentários:

Eduardo P.L disse...

ahhhhhhhh!!!bom! Agora entendi!

João Menéres disse...

É esperar 28 anos e o D. Afonso Henriques irá virar uma página importante.
Como?
O Jorge vai contar!

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