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quarta-feira, 26 de maio de 2010

2.1.5. Período pré-povoamento: je suis Terre des Perroquets

Conforme vimos no post passado, o ano de 1504 foi de glória para Fernando de Noronha e Portugal, pois não obstante ter ganhado uma ilha no Brasil, um dos navios da expedição que patrocinou, regressou abarrotado de pau-brasil.

Ocorre que, ao contrário do que era disposto no Tratado de Tordesilhas, não existiam no mundo apenas os espanhóis e portugueses, de modo que, além do retorno de Vespúcio a Portugal, outro acontecimento importante ocorreu em 1504, na Terra de Santa Cruz: a chegada do navio Espoir (Esperança), comandado pelo francês normando, Binot Paulmier de Gonneville, ao litoral do Brasil.

E dessa vez, pode-se afirmar que, ao contrário de Cabral, a chegada de De Gonneville ao Brasil foi, realmente, acidental.

Na verdade, o objetivo de expedição de De Gonneville era alcançar as Índias Orientais, mas uma tempestade, na altura do Cabo da Boa Esperança, o desviou de seu caminho.

Depois de semanas vagando “sem lenço e sem documento”¹ no Atlântico, o Espoir chegou a um pequeno rio e ancorou no local, que segundo relatos, corresponde à Ilha de São Francisco em Santa Catarina.

E os franceses não só ficaram seis meses no território brasileiro, como também fizeram amizade com os índios da tribo do cacique Arô Içá (afrancesado para Arouca), ao ponto do chefe da tribo Carijó ter permitido que De Gonneville, ao retornar à França, levasse consigo o seu filho de 14 anos, Içá-Mirim.

Abrirei um parêntese para falar sobre Içá-Mirim, que em francês se pronunciava Essomeric, e foi levado por De Gonneville para ser catequizado, não apenas no sentido de aprender a ser cristão, mas também de aprender os costumes europeus e o manejo de armas.

De Gonneville prometeu a Arô Içá que seu filho regressaria em dois anos, contudo, como o Espoir naufragou já no litoral francês, o normando não teve como cumprir sua palavra e, para compensar isso, adotou Içá-Mirim como um filho.

Içá-Mirim, que em alto-mar foi batizado como Binot para não morrer pagão, recebeu uma boa educação e acabou casando-se com Suzanne, filha de De Gonneville, sob a condição de seus descentes varões levarem o sobrenome e brasão de armas de De Gonneville.

Os relatos são de que Içá-Mirim, que se tornou homem importante na França, ao ponto de receber o título de Barão, teve 14 filhos com Suzanne e morreu aos 95 anos, o que para a época, na qual a expectativa de vida é de 30 anos, trata-se de uma idade bastante avançada, demonstrando assim a sua boa adaptação.

Mas retornando à História do Brasil, é importante citar a expedição de De Gonneville não apenas por ter sido o primeiro contato francês com o território brasileiro e ter levado o primeiro brasileiro à Europa, mas também porque ele, 1505, voltou para a França com o navio abarrotado de papagaios (razão pela qual os franceses referiam-se ao Brasil como Terra dos Papagaios), pau-brasil e, principalmente, informação.

Enquanto que para Portugal, desde 1500, o Brasil não passava de um plano B para distrair a nobreza constituída de cristão-novos, em 1504, passou a fazer parte dos mapas franceses, isto é, a partir daquele ponto poderíamos tanto dizer “eu sou Terra de Santa Cruz”, como jes suis Terre des Perroquets².

Larissa Bona

Próximo post em: 09.06.2010 – 2.1.6. Período pré-povoamento: ale pirataria, adeus pau-brasil.


1. Trecho da canção Alegria, Alegria de Caetano Veloso: http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/43867/
2. Terra dos Papagaios em francês

2 comentários:

expressodalinha disse...

Muito bem. Continuam os excelentes pormenores.

Anónimo disse...

Esta foto é fantástica! Parabéns!

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