quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

4º Poema 3fase - Tema Ideias e Liberdades

Longe

Tenho quartos claros, na moradia escura que sou.

Quedo-me nos cantos e encontro nas esquinas a partida,

Sou recortes esquecidos, e vendo-me aos bocados,

Ao preço certo, até dou a troco a própria a vida.

Quando acordo

Encontro muro

s que latejam, sem fôlego nem solução

E resolvo-me por papéis que não têm estrada

Mas antes suam um eterno nada, que não me parece satisfazer.

E esqueço-me então do retumbar solene do relógio da cabeceira

Que se adensa na minha carne,

E sangro dos veios da madeira

- que em verdade são mais meus que a minha própria circulação.

Hoje é de madrugada

E já se passaram vinte e seis horas de um dia.

Guardo sons e clamores amordaçados

Debaixo do tecto que ruirá sobre a dor que eu sentia.

Não há tempo.

Não tenho casa.

Matei os deuses que adorei em existência,

Escondo-me do sol debaixo da asa

De uma eterna, imensa complacência

Que parece esquecer-se de que o que eu mais queria

Não era sobreviver, mas ao Ser glorificar a própria vivência

Que não faz sentido sem ti como companhia.

Quando é que te vejo?

Na obscuridade profunda em que te escondes

Que é quem eu fui e quem eu lamento

Na pior das hipóteses, é meu ser incorpóreo o derradeiro desalento

Porque estou sem forças nem tenho matéria para vencer.

À hora dos finados, eu busco

Sondo campas e sepulturas

Procuro-nos a nós enterrados

E dormindo quietos, tendo por mortalhas todas as amarguras

De quem só na Morte nos conseguiu prender.

A vida foi-me injusta.

Deu-me todos os “ores” da finitude;

Dissabores, dores, horrores

E em infinita graça até os amores

Não houve nada para além da juventude, que valha a pena recordar.

Atravesso então, agora

Em 744 dias de zombar sem caminho

Encontrei apenas um buraco negro comigo

Do que um dia foi o que eu amei.

A História goza com a minha solidão:

levaram-me tudo.

As glórias e os insucessos que tive

Em boa análise, só me fizeram sofrer.

E na nudez do limbo em que me encontro

Não vejo inocência mas rancor

Dos despojos em antemão retirados

Na derradeira luta em que me irão fazer perder.

Sou um nada errático e dormente

Pairo espectral entre toda a gente

E ensurdeço no silêncio em que me afogaram.

Não levo para o outro lado a alegria

Nem o prazer, nem a euforia

Em que me levaram a acreditar.

Não levo sequer o que fui, nem as causas porque lutei

Nem as memórias em sinestesia do que gostei,

Mas o amor que nesta vida dei

Sem esperar nada em troco receber.

Por quem os sinos dobram?

Não sei. Mas por mim, não é de certeza.

Poema de Francisca Soromenho

12 comentários:

Francisca Soromenho disse...

Olá Francisco!
Novamente, a formatação....
http://soromenhoontherun.blogspot.com/2009/11/longe.html

beijinhos e obrigada pela oportunidade! Tem sido maravilhoso

Francisco Castelo Branco disse...

Francisca

No attachment estava assim.
Eu quando fiz o copy/paste estava sem os paragrafos.
Mas como no teu estava com paragrafos pensei que era para meter com paragrafos!
Sorry.

Marta Sousa disse...

Sempre achei os poemas da Francisca carregados de qualidade. Este não é excepção. Existe uma sensibilidade tal, um ritmo quase perfeito, a simbologia constante...

Devo dizer que temi que os autores de uma forma geral decrescessem as suas produções em qualidade devido ao facto de estarem confinados a um tema. Com alegria verifico que estava errada.

Quando um poema é bem feito a todos os níveis é muito difícil adjectivar o mesmo.

Parabéns

Francisca Soromenho disse...

Francisco,
se passar esta fase, na próxima mandar-te-ei o link do sítio onde estão no blog (se calhar assim torna-se mais fácil, não?)
Obrigada Marta pela tua opinião, ainda bem que gostas.

Beijinhos!

Francisco Castelo Branco disse...

Nao sei o que se passa.

Na caixa de mensagens apareceu normal.
Depois quando publiquei deu nisto...
É que recebi o poema assim. Acredita.

Mas não é pela formataçao que o poema deixa de ter sentido diferente.

Francisca Soromenho disse...

Claro que acredito Francisco!
Contudo, a formatação dá outro impacto aos textos...
beijinhos

Francisco Castelo Branco disse...

Nunca duvidei..

Ganhaste aqui dois fans dos teus poemas.

beijinhos

Francisca Soromenho disse...

Obrigada!
Last thing, como vão ser avaliados os poemas?
beijinhos

Francisco Castelo Branco disse...

da mesma forma que foram os da primeira fase

Anónimo disse...

o, (longe) é aquele poema que marca. muito bom Francisca.

bj

L.B

Sandra disse...

QUANDO VAI SAIR O RESULTADO.
ESTÁ QUASE..NÉ??
UM GRANDE ABRAÇO, CHICO
SANDRA

Francisco Castelo Branco disse...

Sai dia 18 de Março

Logo apos o ultimo poema com o Tema Liberdade!!

Faltam 2 poemas

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